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ENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

China planeja construção de usinas nucleares flutuantes

O lançamento, no dia 28 de abril de 2018, da Akademic Lomonosov, uma usina nuclear flutuante russa, provocou debates sobre o futuro da energia atômica. Grupos ativistas ambientais, preocupados com os possíveis impactos da medida para o ecossistema marinho e a saúde humana, chamaram a usina de “Chernobil* flutuante. Exageradas ou não, as preocupações são legítimas. O movimento das correntes marinhas e a pouca experiência com esse tipo de construção podem desencadear acidentes. A Rússia, entretanto, não está isolada no desenvolvimento de usinas flutuantes. A China tem planos expressivos para esse setor, podendo haver lançamento de uma usina antes de 2020.

Os chineses investem cada vez mais em energia nuclear. Segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o país é o que mais expande sua capacidade nuclear atualmente. Tem 39 usinas atômicas e planeja construir mais 18 nos próximos anos. Apesar das críticas de ambientalistas, a razão declarada para esse investimento é exatamente a de produzir uma matriz energética mais limpa. A China é muito dependente de carvão mineral, que causa emissão de gases de efeito estufa. As usinas nucleares, portanto, poderiam reduzir as emissões.

Em 2016, as empresas nacionais Corporação Nuclear Nacional da China e Grupo Geral de Energia Nuclear da China anunciaram plano conjunto de desenvolver usinas nucleares flutuantes. Há previsão de construção de 20 usinas, e o plano é lançar a primeira até 2020. Zhang Nailiang, engenheiro da Corporação Industrial de Estaleiros da China, afirma que a tecnologia está madura e o primeiro projeto demonstrativo seria empregado em breve em plataformas de perfuração no mar de Bohai, no Norte chinês.

O projeto, contudo, envolve riscos significativos. O primeiro é a falta de experiência com essa nova tecnologia, o que aumenta a possibilidade de acidentes. Além disso, a agência chinesa de segurança nuclear tem número insuficiente de empregados para análise e acompanhamento de problemas, se comparada a agências similares em outros países.

Outro risco é a falta de cooperação com os vizinhos. A Convenção de Segurança Nuclear**, que traz a possibilidade de monitoramento das atividades atômicas por meio de relatórios, só é aplicável a usinas terrestres. A única norma internacional aplicável a usinas flutuantes seria a Convenção sobre Pronta Notificação de Acidente Nuclear***. Isso seria complicado, pois alertar quando ocorre um acidente não é necessariamente suficiente para evitar danos no território de países vizinhos.

Mar do Sul da China

A situação é agravada quando se considera a planejada localização das usinas flutuantes. Elas ficariam no Mar do Sul da China, área em que os chineses têm elevado interesse estratégico e disputas territoriais com outros países. A nação asiática constrói ilhas artificiais e aumenta a presença militar na região. Alguns analistas temem que as usinas nucleares flutuantes, que a China afirma que servirão para abastecer a cidade de Sansha, no arquipélago Paracel****, na realidade serviriam para fortalecer o pleito chinês. As desconfianças dos vizinhos, portanto, são obstáculos a uma cooperação efetiva.

A construção de usinas flutuantes pela China será um desafio geopolítico e ambiental. As tensões geopolíticas também podem aumentar, já que, ao colocar usinas em território disputado, os chineses afirmam sua soberania e irritam os vizinhos. As pressões de grupos ambientalistas, já sentida na usina russa, tende a intensificar-se, devido à magnitude do projeto chinês. Além disso, existe uma corrente que declara que o aumento desse tipo de usinas pode causar catástrofes ambientais em proporções enormes, algo que está sob debate.

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Notas:

* A citação faz referência à usina nuclear russa de Chernobil, onde houve acidente de grandes proporções em 1986. Os efeitos do acidente foram sentidos em boa parte do continente europeu, causando muitas mortes. O episódio aumentou as preocupações da comunidade internacional com usinas nucleares.

** Acordo internacional firmado em 1994, que busca alcançar e manter um alto nível de segurança nuclear mundial através do fortalecimento de medidas nacionais e da cooperação internacional.

*** Acordo internacional firmado em 1986, com o objetivo de os Estados fornecerem informações relevantes sobre acidentes nucleares logo que possível, de maneira a minimizar consequências radiológicas transfronteiriças.

**** Área disputada entre China e Vietnã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Usina nuclear de Qinshan” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_power_in_China

Imagem 2 Mar do Sul da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/South_China_Sea

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://www.telegraph.co.uk/news/2018/05/01/green-groups-warn-maritime-chernobyl-russia-launches-floating/

[2] Ver:

https://www.reuters.com/article/us-china-nuclearpower-offshore/china-close-to-completing-first-offshore-nuclear-reactor-idUSKBN1D0048

[3] Ver:

https://www.iaea.org/newscenter/news/how-china-has-become-the-worlds-fastest-expanding-nuclear-power-producer

[4] Ver:

https://thediplomat.com/2018/05/chinas-risky-plan-for-floating-nuclear-power-plants-in-the-south-china-sea/

[5] Ver:

http://www.news.com.au/technology/innovation/chinas-plans-to-expand-in-the-south-china-sea-with-a-floating-nuclear-power-plant-continue/news-story/bdc1bf6f6b556daf097b3199b5690182

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
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