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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Como Israel é afetado nas negociações do Acordo com o Irã

Os Estados Unidos buscam aplicar as sanções e pressionar o Irã para a negociação de um acordo nuclear mais restrito do que o anteriormente assinado no marco do Plano de Ação Conjunto e Abrangente (Joint Comprehensive Plan of Action, da sigla em inglês, JCPOA). Atualmente, tem usado de restrições à compra de petróleo, bem como ao acesso a moedas estrangeiras, e tem classificado a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista.

O governo israelense considera os Estados Unidos como um aliado vital, ao mesmo tempo em que entende que o Irã é sua maior ameaça no Oriente Médio. Desta forma, observa-se que uma escalada de enfrentamento na retórica ou ação entre os dois países teria um efeito direto sobre Israel.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sempre demonstrou que compactua com o projeto de Donald Trump em relação ao Acordo. Em distintas manifestações públicas expressou segurança ao afirmar que o Irã se retiraria dele e mentia quanto ao seu programa nuclear. O Times of Israel divulgou que o Primeiro-Ministro afirmou em vídeo que convenceu o Presidente estadunidense a deixar o JCPOA.

Tomadores de decisão em Israel defendem um aumento de pressão sobre a República Islâmica. Conforme afirmou Amos Yadlin, diretor do Diretor para Estudos de Segurança Internacional em Tel Aviv ao New York Times: “Ninguém pensa em mudança de regime militar, mas em enfraquecer o regime, enfraquecer a economia iraniana e fazer com que o povo iraniano mude o regime”. Dessa forma, veem com bons olhos uma maior pressão, que poderia, no entendimento israelense, levar à saída dos aiatolás e seus aliados.

Sofrendo os efeitos das ferramentas políticas e econômicas das quais os Estados Unidos lançam mão, o Irã decidiu suspender as contrapartidas com as quais havia se comprometido para manter o Acordo assinado em 2015. Por conta disso, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou por suas redes sociais que o país “não manterá os programas de enriquecimento de urânio e produção de águas pesadas limitados”.

A declaração não implica em uma ameaça imediata, tampouco a capacidade de produzir urânio enriquecido dá a quem possua tecnologia suficiente para desenvolver armamentos, pois, isso exige tecnologias muito mais complexas. Pelos termos atuais do JCPOA, o Irã possui a permissão de enriquecer urânio à uma concentração de 3,67% – suficiente para alimentar uma usina comercial de energia.

Reagindo à retórica dos Estados Unidos, um enfrentamento direto é bastante improvável. Nenhuma das partes parece interessada em um confronto e grupos sob a influência dos dois lados podem reagir através de grupos de pressão para evitar também o confronto indireto. No entanto, esta escalada de conflitos pode envolver grupos de influência em distintos países, grupos como o Hezbollah podem reagir a pressões sobre o Irã.

O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unida

Além disso, os iranianos buscam diversificar suas relações para equilibrar sua posição frente às sanções e à uma retórica mais agressiva. Um parceiro que tem aparecido como primordial para esta empreitada é a Turquia, alinhando-se a políticas de segurança, como ações contra os curdos, e rivalizando com Israel. Também a Rússia vem ganhando um espaço de inserção ainda maior no Oriente Médio, como um aliado preferencial de Teerã.

O ex-diretor do Serviço Geral de Segurança de Israel, Carmi Guillon, afirmou em artigo à Foreign Policy o que as medidas que protejam o país devem almejar: “eliminem desastres e parem ameaças em progresso”. Segundo Guillon, o JCPOA desmantelou o projeto nuclear do Irã e colocou a República Islâmica em um sistema de responsabilidades. Isso evitaria um eventual guarda-chuva nuclear, ainda que retórico, impedindo os iranianos de apoiarem grupos infranacionais ou de fazer pressão sobre os vizinhos.

Acredita que, sem as garantias do Acordo, o Irã ficaria sob uma influência menor das normas internacionais, além disso, que Israel ficaria mais fragilizado frente a um vizinho com capacidades nucleares e grupos extra-regionais não alinhados com sua posição, e também surgiria uma renovada ameaça de grupos infranacionais.

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Nota:

* Para produzir armamento é necessário possuir urânio enriquecido à 90%. Não é comprovado que o Irã consiga gerar o combustível à uma concentração maior do que 20%. Entretanto, possui plenas capacidades de produzir água pesada e outros elementos do processo

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em foto com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agosto de 2018” (Fonte: Página oficial de Benjamin Netanyahu no Facebook): https://www.facebook.com/Netanyahu/photos/a.376960237075/10155574211902076/?type=3&theater

Imagem 2O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unidas” (Fonte: Twitter Oficial do Presidente do Irã@HassanRouhani): https://twitter.com/HassanRouhani/media?lang=es

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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