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ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONALORIENTE MÉDIO

Conforme era esperado, encontro da AIEA com Irã encerra sem resultados

Quarta-feira, dia 16 de janeiro, começou a nova visita de 24 horas da “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA) – órgão da “Organização das Nações Unidas” (ONU) – ao Irã para tratar do seu “Programa Nuclear”.

A Agência busca um Acordo há mais de um ano, porém sem sucessos, já que os encontros anteriores não progrediram devido à recusa de Teerã em abrir as “Usinas Nucleares”, ou “Bases Militares” sob suspeita, para inspeções dos delegados enviados pela Agência.

Ao embarcarem na terça-feira para Teerã, o vice-diretor geral da AIEA, Herman Nackaerts, declarou a expectativa de que poderia ser trabalhado um “Acordo Estrutural” com o país nas negociações que fariam, pois cria na possibilidade de que as visitas em locais sensíveis seriam autorizadas.

Afirmou de forma positiva: “Estamos abordando essa negociação com um espírito construtivo… e nós confiamos que o Irã trabalhará conosco no mesmo espírito. (…). Estamos com o objetivo de finalizar a abordagem estruturada para resolver as questões pendentes sobre as possíveis dimensões militares do programa nuclear do Irã. (…). Nós esperamos ser autorizados a ir a Parchin e se o acesso for concedido, vamos agradecer a chance de fazer isso… Estamos prontos para ir[1].

De acordo com o divulgado na mídia, os membros da equipe que foi deslocada levavam instrumentos para serem usados em mensurações na “Base Militar de Parchin” (onde há suspeitas por parte da AIEA de que houve e ainda pode haver testes de detonadores capazes de serem empregados numa bomba atômica), já que mantiveram na partida a postura de expectativa positiva, embora estivessem circulando também duas hipóteses: (1) a Base foi limpa ao longo do ano passado (2012), conforme denunciaram alguns diplomatas ocidentais[1], por isso seria liberada e (2) não poderão abri-la integralmente, pois revelariam elementos confirmadores das desconfianças da “Comunidade Internacional” sobre a intenção bélica existente no “Programa Nuclear”.

As expectativas positivas, contudo, em nenhum momento foram elevadas, significando os discursos feitos na terça-feira pelos indicados para a visita da AIEA apenas posturas diplomáticas adequadas à tarefa real que lhes foi incumbida: entabular diálogos, apesar da intenção de fazer visitas de inspeção.

Na sexta-feira da semana passada, dia 11 de janeiro, o diretor-geral da AIEA, Yukya Amano, deixou explícito que, sobre a questão da visita àBase de Parchin”, “A perspectiva não é clara [2], mostrando-se muito pessimista sobre qualquer resultado desse encontro.

Este tom das expectativas começou a ser confirmado no dia 15 (terça-feira) pelo porta-voz da chancelaria iraniana, Ramin Mehmanparast, que declarou em nome do seu Governo que exigia um Acordo prévio sobre a questão da visita, bem como reforçou a adoção da mesma postura iraniana sobre o projeto nuclear do país, embora anunciasse acreditar em um “Acordo Global” sobre os controles necessários para a AIEA. Em suas palavras: “Esperamos alcançar um acordo global sobre os controles… (…) …a AIEA deverá reconhecer plenamente os direitos nucleares do Irã [3].

Analistas interpretaram que, indiretamente, ele condicionou o Acordo ao reconhecimento do direito de o Irã de manter seu Projeto com está. Em acréscimo, a autoridade lembrou que esta condição está inscrita no fato de o seu país ser membro da AIEA e assinante do “Tratado de Não-Proliferação Nuclear” (TNP, sendo mais usada a sigla em inglês TPN devido a sonoridade, mesmo no Brasil) o que lhe credencia a continuar com a mesma posição, uma vez que o Irã postula ter fim pacífico o seu “Programa Nuclear”.

Nesse sentido, a argumentação foi construída para desviar a atenção do fato de que a “Comunidade Internacional” aceita o uso da energia nuclear, desde que sob fiscalização, para evitar os riscos de militarização da energia atômica com o desenvolvimento de um programa bélico, algo que aumentaria a tensão na região, levando a uma corrida armamentista no “Oriente Médio”, quando certamente outros países, principalmente a “Arábia Saudita”, também buscariam desenvolver programas similares para confrontar os iranianos, sem citar a questão de Israel, que seria levado a entrar numa guerra imediatamente no caso de qualquer provocação mais sensível.

Ademais, a questão dos cuidados que o Ocidente tem em relação ao desenvolvimento de um projeto do gênero por parte do Irã decorre do fato de  o “Regime Político” iraniano ser identificado como autoritário, o que aumenta as chances de um contencioso político ou diplomático regional ser transformado em um conflito militar, já que, pela estrutura de regimes dessa natureza, as tomadas de decisão são feitas por poucas lideranças que se baseiam em suas necessidades de poder e quase sem controles da sociedade.

Com relação à visita à “Base Militar” as projeções pessimistas tornaram-se plenas quando o mesmo porta-voz declarou que “A base de Parchin não tem qualquer vínculo com as atividades nucleares do Irã e essa questão só poderá ser abordada dentro de um eventual acordo global [3].

Em outras palavras, esta visita não estava no cenário e, para ocorrer no futuro, necessário será um Acordo prévio, feito com base nas exigências iranianas, retornando às duas hipóteses anteriores: (1) Parchin já foi limpa e (2) só se pode abrir parte dela, sob o argumento legitimamente aceito pela comunidade internacional de que nenhum país é obrigado a entregar seus planejamentos estratégicos voltados para a Defesa, uma vez confirmado não existir interesse de agressão a qualquer outro Estado. Além disso, correu a hipótese de que poderia ser dada a liberação para a visita como forma de barganha para as negociações diplomáticas, ou para mostrar as boas intenções do Governo iraniano [4], visando o encontro entre o Irã e o “P5+1”(“Rússia, China, França, Reino Unido, França, Estados Unidos e Alemanha”) a ser realizado no final de janeiro em Istambul (Turquia) para buscar saída ao impasse que se está vivendo [5].

Conforme apostaram os observadores não foi tratado do assunto da visita, não houve avanço no diálogo entre a AIEA e o “Governo do Irã” e o máximo que se conseguiu foi marcar nova reunião para o dia 12 de fevereiro próximo[6]. Por isso, afirmam os observadores que a Base será liberada apenas se já estiver limpa.

De forma resumida, Teerã joga com os argumentos dos direitos do seu Estado no sistema de Estados para continuar ganhando tempo em prol da conclusão do Projeto. Este cenário vem preocupando muitos analistas que acreditam estar o país apto a produzir material nuclear para uso bélico em, aproximadamente, um ano.

Uma Entidade da sociedade civil norte-americana, o “Instituto para a Ciência e a Segurança Internacional” (associação que se opõe à proliferação de armas nucleares)  lançou um Relatório pelo qual estima que Teerã terá capacidade de produzir armamento nuclear no meio de 2014. Consta no documento: “Baseando-nos na trajetória atual do programa nuclear iraniano, estimamos que poderá atingir sua capacidade crítica em meados de 2014[7]. Segundo disseminado na mídia, os pesquisadores envolvidos chegaram a esta conclusão levando em conta  (1) o crescimento das reservas de urânio enriquecido do Irã; (2) a quantidade de centrífugas e (3) a postura de não-cooperação mantida por Teerã frente à “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA)[7]. Eles não acreditam que haja usinas secretas, mas que até o ano de 2014 o Governo iraniano terá tempo para construir instalações capazes de produzir a quantidade necessária de combustível, ou aumentar o número de centrífugas com este fim.

David Albright, um dos co-presidentes do projeto e presidente do Instituto, afirma: “Não achamos que exista nenhuma usina secreta de enriquecimento fazendo um enriquecimento secreto de urânio significativo agora [8], mas teme de que o Irã venha a construí-la. Por isso, faz recomendações rígidas ao governo norte-americano e ao Ocidente para que o Governo iraniano seja impedido de alcançar seu objetivo militar. Dentre eles: “embargo internacional de facto sobre todos os investimentos no, e negócios com o Irã [8], bem como que “O presidente (dos EUA) deveria declarar explicitamente que usará a força militar para destruir o programa nuclear do Irã se o Irã der passos decisivos adicionais em direção à produção de uma bomba[8].

Os israelenses apresentam cálculos mais drásticos informando que o prazo será de seis meses. Segundo o “Primeiro-Ministro de Israel”, Binyamin Netanyahu, a necessidade de agir é premente, pois “O ponto de máximo perigo será atingido no dia em que os iranianos dispuserem da quantidade de urânio para fabricar uma arma atômica, ou seja, 250 quilos de urânio enriquecido a 20%, e eles estão fabricando regularmente 15 quilos por mês. Um simples cálculo permite concluir que restam aos americanos e ao Ocidente aproximadamente seis meses para agir [9].

Observadores destacam que o essencial neste ponto não está em saber se os cálculos e considerações dos israelenses são mais ou menos precisos que os apresentados pelo Instituto norte-americano, mas está na convergência de opinião de ambos de que o Projeto iraniano tem fins militares e é uma questão de tempo para concluí-lo, divergindo apenas em quando ocorrerá, ou seja, convergem para a posição de que é necessário encerrar o “Programa” neste ano (2013), mesmo que ao custo do recurso bélico.

Outro fator que leva os observadores a apostar na intenção militar de Teerã emerge do “Programa Espacial” iraniano. Segundo apontam os analistas, ele também encobre um Projeto de desenvolvimento e construção e mísseis balísticos capazes de portar uma ogiva nuclear e cada ensaio realizado com o argumento de que desenvolvem um projeto para colocar um astronauta em órbita até 2020 visa na realidade testar a capacidade e o raio de alcance dos foguetes.

Por essa razão, a comunidade internacional reagiu com cautela diante do anúncio feito na terça-feira, dia 15 de que será enviado um macaco ao espaço no início de fevereiro próximo, entre os dias 31 de janeiro e 10 de fevereiro, em comemoração ao aniversário de 34 anos da Revolução de 1979[10], dentro do anunciado “projeto de vôo espacial tripulado” de seu “Programa Espacial[11] [12].

Diante deste cenário, com projeções pessimistas após a visita da AIEA ao Irã, também não são animadoras as perspectivas da reunião entre as autoridades persas e o denominado “P5+1 [5]. No encontro encerrado ontem, foram discutidas apenas as considerações sobre o “Acordo Global” desejado pela ONU (no caso a AIEA) para que possa investigar livremente o Programa do Irã, mas, conforme vem sendo visto, ambos querem algo que tem o mesmo título, porém com conteúdo diverso.

A Agência deseja abertura total para visitas nas bases e usinas e o Irã que seja reconhecido pela comunidade internacional que não há intenção bélica, logo, não precisará abrir as usinas e locais que não desejar, já que não há mais suspeitas. Em síntese, deseja ter o reconhecimento de que pode prosseguir o desenvolvimento do Projeto sem impedimentos, passando rapidamente para o fim das Sanções Internacionais. Este seria o corolário do processo de negociação iraniano.

Para os analistas, fica no horizonte a espera das eleições legislativas em Israel, a ser realizada no dia 21 deste mês (janeiro), pois começam a surgir especulações sobre a retomada do discurso ativo para encerrar o Programa persa ainda em 2013 usando de quaisquer recursos necessários, pois já terão sido encerradas as indecisões emergidas da disputa eleitoral nos EUA (concluída em 6 de novembro de 2012) e de Israel (que será concluída na próxima semana), os dois principais interessados em impedir a suposta conquista da “Bomba Atômica” pelo Irã.  

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Imagens fontes:

* “Sede da AIEA (Viena – Áustria)”:

http://fr.wikipedia.org/wiki/Agence_internationale_de_l’énergie_atomique

** “Complexo Militar Parchin”:

https://ceiri.news/wp-content/uploads/2013/01/parchin-iran-military-complex-2004-photo.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/aiea-visa-acordo-estrutural-com-ira-e-acesso-a-base-militar,23408a90ce93c310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

[2]  Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/chefe-da-aiea-diz-que-nao-esta-otimista-sobre-negociacao-com-ira-1.html

[3]  Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/ira-defende-programa-nuclear-antes-de-visita-da-aiea.html

[4]  Ver:

http://www.portugues.rfi.fr/mundo/20130116-aiea-inicia-nova-inspecao-nuclear-no-ira

[5]  Ver:

http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2013/01/ira-e-p51-vao-retomar-negociacoes-sobre-programa-nuclear-iraniano

[6]  Ver:

http://br.noticias.yahoo.com/fotos/negocia-es-entre-ir-e-photo-120000855.html

[7]  Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/ira-tera-capacidade-critica-nuclear-em-2014-centro-de-estudos-dos-eua,a40a8a90ce93c310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

[8]  Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/ira-pode-produzir-uranio-para-bomba-atomica-ate-2014-dizem-especialistas-dos-eua,1a388a90ce93c310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

[9]  Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-arsenal-do-ira-,982508,0.htm

[10]  Ver:

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/01/ira-pretende-enviar-foguete-com-macaco-ao-espaco-em-fevereiro.html

[11]  Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2013_01_15/ira-prepara-voo-espacial-tripulado/

[12]  Ver:

http://exame.abril.com.br/ciencia/noticias/ira-enviara-macaco-ao-espaco-no-inicio-de-fevereiro-2

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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