AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Consequências da política externa do Irã para os Estados Unidos

O Irã enfrenta uma série de desafios atualmente, a começar pela sua situação doméstica. O país é um dos mais afetados pela pandemia causada pela Covid-19, com mais de 296 mil casos confirmados e de 16 mil mortes registradas, em 28 de julho. Das 31 províncias do país, 25 se encontram em observação pelos efeitos da doença, 13 das quais são consideradas em perigo pelo risco que há desequilíbrio do sistema de saúde. O presente cenário indicava que o governo iraniano pode se ver obrigado ainda a aplicar medidas mais restritivas de quarentena e enfrentar um longo período da crise que já afeta profundamente sua economia.

A emergência sanitária também se soma à instabilidade política do país. Nas últimas semanas, protestos voltaram a ocorrer em distintas regiões, manifestantes expressavam insatisfação com o governo, bem como com a inflação e desemprego, aprofundados pela pandemia. O governo tenta evitar uma repetição dos protestos ocorridos em novembro de 2019, que deixaram mais de 300 mortos e centenas de feridos, segundo a Anistia Internacional.

Imagens compartilhadas recentemente em redes sociais indicam alta presença das forças de segurança nos protestos, e a organização Netblocks relatou que os serviços de internet vêm sendo desligados por certos períodos do dia no Cuzistão, província do sudoeste do país, onde há relatos de protestos. Não há informações de mortos ou feridos pela repressão ainda.

Desde sua campanha durante eleições presidenciais de 2016, o presidente Trump vem elevando a retórica contra o Irã. Em maio de 2018, o Presidente estadunidense retirou o país do Plano de Ação Integrado Conjunto (popularmente conhecido como “Acordo Nuclear do Irã”), desde então, a relação dos Estados é marcada por uma série de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos e mesmo de ofensivas diretas, como o ataque militar que vitimou o general Qassem Suleimani, antigo Comandante das Forças Quds (forças especiais da Guarda Revolucionária Iraniana).

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif

Existe a impressão de que as demonstrações de força por parte dos Estados Unidos esperavam levar o governo iraniano a renegociar o Acordo Nuclear e a relação de uma maneira que parecesse mais favorável aos tomadores de decisão em Washington, ou mesmo a um colapso do atual regime no país.

Segundo o presidente do Banco Central iraniano, Abdolnasser Hemmati, o país apresentou crescimento da receita em outros setores econômicos, diminuindo a dependência do petróleo. De acordo com relatório apresentado pela entidade, o Produto Interno Bruto do país cresceu 1,1% entre 2018 e 2019. Durante o período, o setor agrícola apresentou 8,8% de crescimento, a indústria 1,2% e a mineração 3,2%. Ainda assim, o Banco Mundial estima uma retração de 8,7% do PIB iraniano entre 2019 e 2020 devido a queda dos preços do petróleo.

O endurecimento do discurso também não aparenta produzir efeitos políticos morais. Uma pesquisa de opinião pública conduzida com o apoio do Centro de Estudos Internacionais e de Segurança da Universidade de Maryland, em agosto de 2019, indicou que para 63% da população as sanções impostas pelos Estados Unidos já haviam prejudicado ao máximo o país, e não poderiam causar ainda mais dano. Questionados se o país deveria buscar autossuficiência ou tentar se reintegrar ao comércio com outros países para voltar a crescer, 69% dos entrevistados optaram pela primeira opção

Tampouco há indicativos de que o Irã vá abrandar a retórica. Em um exercício militar realizado recentemente no Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã, aeronaves de combate atiravam contra uma réplica de um porta-aviões da classe Nimitz, utilizado pela Marinha dos Estados Unidos.

Ainda que houvesse decidido continuar cumprindo as medidas do Acordo Nuclear durante os primeiros meses após a saída dos Estados Unidos, o Irã anunciou em julho e novembro de 2019 que aumentaria suas reservas de urânio para além dos limites estabelecidos. A aberta retomada de atividades nucleares não desejadas foi considerada um grave contratempo por distintos atores diplomáticos.

É em meio a este cenário que o Estado iraniano negocia acordos que podem aproximar ainda mais o país da Rússia e da China, aumentando a influência de dois grandes rivais dos Estados Unidos sobre o Oriente Médio.

O renovado interesse de associação entre Teerã tanto com Moscou quanto com Beijing envolve uma série de acordos para venda de material bélico, cessão de atividades econômicos e fontes de energia.

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

Em visita ocorrida no dia 16 de junho à Rússia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Zarif, manteve diálogo com sua contraparte russa, o chanceler Sergei Lavrov. Os diplomatas discutiram o apoio de Moscou para que o Irã mantenha seu programa nuclear operante e para evitar a renovação da Resolução 2231 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Emitida em 2015, a medida impõe uma série de restrições para a aquisição de armas e material bélico por parte do Irã. Lavrov afirmou que a Rússia faria “tudo” para manter o Acordo Nuclear com o Irã e que “Washington não tem nenhum direito de punir o Irã”.

O acordo com a China pode gerar o investimento de uma quantia estimada em 400 bilhões de dólares (2,07 trilhões de reais, de acordo com a cotação do Banco Central em 28 de julho) no Irã durante os próximos 25 anos. Segundo uma versão preliminar, ambos países encaminham uma agenda de desenvolvimento de uma robusta infraestrutura portuária e de produção de energia. Com isso, o Irã ganharia um comprador preferencial de seu petróleo e gás, garantindo ao menos estabilidade nestas receitas. Além de aumentar a presença chinesa em um ponto geopoliticamente crítico, Teerã espera apoio político e estratégico chinês.

Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

No último dia 5 de junho, Trump chegou a afirmar que o Irã não deveria esperar uma mudança na administração dos Estados Unidos para “fazer o acordo”, mas que deveria “buscar um melhor acordo” com ele. Não importa quem seja o próximo residente da Casa Branca, haverá um desafio em equilibrar ou minimizar os efeitos da crescente rivalidade com o Irã e na relação com os demais países do Oriente Médio.

Os iranianos buscam estabilidade interna e manter a projeção de seus interesses para a região. Caso avancem ainda mais as alianças com a China e a Rússia, o país poderá garantir estabilidade comercial, apoio político, bem como o suprimento de material e tecnologia para sua indústria militar.

A Rússia possui claros interesses estratégicos no Oriente Médio, como é observado após anos de presença militar na Síria e um renovado interesse na Líbia. A China possui interesse em aumentar sua presença globalmente e o Oriente Médio é ponto central para estabelecer a Iniciativa do Cinturão e Rota.

Apesar do alto impacto causado pelas sanções, o Irã manteve firme posição ao negar a possibilidade renegociar os termos do Acordo Nuclear. Um cenário de renovada estabilidade do país e uma aliança com dois dos maiores competidores globais pode se apresentar com um dos principais desafios para a diplomacia dos Estados Unidos durante o próximo mandato presidencial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O presidente do Irã, Hassan Rouhani, realiza videoconferência com os presidentes da Rússia, Vladmir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sobre conflito na Síria / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 2Visão da videoconferência entre os presidentes do Irã, Rússia e Turquia / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 3O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1285635000025731072/photo/1

Imagem 4Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1272910391803346949/photo/1

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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