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Cooperação Brasil-Rússia

Brasil - RússiaOcorreu no último dia 20 de fevereiro, quarta-feira, em Brasília, a “VI Reunião da Comissão de Alto Nível de Cooperação Brasil-Rússia”. De acordo com nota divulgada pelo “Ministério das Relações Exteriores do Brasil”, o encontro teve por objetivo o “aprofundamento da cooperação bilateral em temas de interesse para o desenvolvimento e para a diversificação das matrizes econômicas de ambos os países, com ênfase em ciência, tecnologia, inovação, relações econômico-comerciais, agropecuária, energia e educação[1]. Encabeçada pelo primeiro-ministro da Federação Russa, Dmitri Medvedev, a comitiva russa foi representada por alguns ministros de Estado além de empresários de setores estratégicos.

As relações bilaterais existentes entre Brasil e Rússia, iniciadas em 1828 com o estabelecimento de relações diplomáticas entre ambos os países, nunca demonstraram grande impacto nas respectivas economias nacionais, pois cerca de 95% das exportações brasileiras para a Rússia são pautadas por produtos não industrializados, ou seja, com baixo valor agregado, como açúcar, café, soja, carne e tabaco, além disso, no ranking divulgado pelo “Banco Central” brasileiro[2] com os países de origem dos “Investimentos Estrangeiros Diretos” (IED), a Rússia não se encontra na lista composta pelos 41 citados.

Contudo, nos últimos anos foi possível identificar uma maior aproximação nas relações bilaterais, através de um desenvolvimento progressivo das relações comerciais e políticas. Vladimir Dadidov, membro da “Academia de Ciências da Rússia”, acredita na intensificação da cooperação bilateral, uma vez que parcerias estratégicas e alianças em setores de alta tecnologia começam a ser desenvolvidas [3].

De acordo com esta posição, analistas defendem o abandono do comércio bilateral composto, em grande parte, de commodities, devido às imposições contínuas de barreiras aduaneiras e fitossanitárias, favorecendo uma cooperação no setor industrial, científico e tecnológico [3].

Durante o encontro da comissão, Medvedev reconheceu a importância do constante desenvolvimento das relações bilaterais, enfatizando as conquistas atingidas com a expansão comercial entre os países (em 2012, o comércio bilateral atingiu o valor de 7,2 bilhões de dólares) além de estabelecer uma nova meta.

É muito importante que no decurso destas reuniões nós planejemos novos projetos, comparemos notas sobre os vários aspectos de nossa cooperação comercial e econômica. Eu creio que a tarefa de levar o nosso comércio ao nível de cerca de 10 bilhões de dólares por ano é absolutamente realizável e corresponde ao potencial das nossas economias. Espero que ela seja realizada nos próximos anos. E estamos falando de relações em todas as áreas [4], afirmou o Primeiro-Ministro.

Além disso, destacou a importância do avanço da cooperação na esfera tecnológica. “A aliança tecnológica que podemos estabelecer ajudará nossas empresas, e veremos vários projetos interessantes surgirem nessa e em outras áreas. Esperamos contar com a experiência do Brasil e partilhar também nossa experiência”, afirmou Medvedev [5].

Como resultado da sexta reunião da Comissão, as autoridades políticas dos dois países assinaram Acordos e Declarações de intenções nas áreas de Defesa, Tecnologia, Agricultura, Energia, Educação, Esportes e “Desenvolvimento de Pequenas e Médias Empresas”. Foi ressaltado:

No Esporte.

Tendo em vista as realizações de grandes eventos esportivos nos próximos anos – a “Copa do Mundo da FIFA” de 2014 e 2018 sediadas, respectivamente, pelo Brasil e pela Rússia; os “Jogos Olímpicos de Inverno de 2014”, na Rússia, e os “Jogos Olímpicos (de Verão) de 2016, no Brasil – as autoridades presentes assinaram um “Plano de Ação” que visa a implementação de um memorando de entendimento sobre “cooperação em matéria de governança e legados relativos à organização” dos Eventos.

De acordo com nota publicada pelo Itamaraty [1], a cooperação na área do esporte resume-se na troca de “informações relativas à organização dos respectivos sistemas esportivos, do nível educacional ao de alto rendimento, na esfera pública e na esfera privada”, além de “informações sobre seus respectivos sistemas de controle de dopagem”; na promoção “na área de Ciência e Tecnologia Aplicadas ao Esporte, envolvendo universidades e outras instituições de interesse na área do Esporte”; no “intercâmbio de profissionais, técnicos e especialistas em preparação física, formação profissional, fisiologia, nutrição e psicologia”; na realização de amistosos entre as seleções de futebol; no “intercâmbio de delegações na área de gerenciamento e marketing de futebol”; entre outros.

No Desenvolvimento de pequenas e médias empresas.

Fora assinado um Memorando que busca o desenvolvimento de empresas no âmbito bilateral. Em nota, o Acordo pretende: “fortalecer a cooperação econômica e institucional bilateral” por meio de “relações mutuamente vantajosas com vista ao desenvolvimento das empresas de pequeno e médio porte”; do compartilhamento de “informações sobre boas práticas no desenvolvimento e implementação de políticas públicas focadas no desenvolvimento das empresas de pequeno e médio porte”; da facilitação ao “acesso público a estudos e pesquisas de interesse das empresas” e do “acesso recíproco a eventos governamentais, científicos, comerciais e outros de interesse das empresas[1].

Na Educação.

Os ministros de ambos os países debateram a possibilidade da entrada da Rússia no programa “Ciência sem Fronteiras”, possibilitando o acesso dos estudantes brasileiros às universidades russas, embora o professor da “Universidade de Brasília”, David Flaicher, acredite que “o fato de os brasileiros terem de aprender o russo será uma grande barreira a esse intercâmbio[5]. Além disso, o memorando abre a possibilidade do “intercâmbio de pesquisadores e professores russos e brasileiros; do estabelecimento de laços de parceria acadêmica; e da promoção de seminários, grupos de trabalho e conferências[1].

Na Agricultura.

Os ministérios competentes definiram em acordo os critérios fitossanitários necessários para a liberação do trigo russo no mercado brasileiro. “A parte russa deverá assegurar que cada lote de trigo deverá vir acompanhado por certificado fitossanitário e o lado brasileiro deverá reconhecê-lo como documento que atesta o cumprimento dos requisitos fitossanitários da legislação da República Federativa do Brasil e padrões internacionais relevantes”, explicou o Itamaraty em nota [1].

Na Cooperação técnico-militar.

O “Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas brasileiras, general-de-exército José Carlos De Nardi, e o “Diretor do Serviço Federal de Cooperação Técnico-Militar” russo, Alexander Vasilievich Fomin, assinaram uma declaração de intenções que identifica o “segmento de Defesa Antiaérea como uma área de prioridade de investimentos e desenvolvimentos conjuntos” e busca “incrementar, a partir de março de 2013, as negociações bilaterais com vistas à possibilidade de preparação de contrato para futuras obtenções, por parte do Governo do Brasil, de Baterias Antiaéreas, com o desenvolvimento conjunto de novos Produtos de Defesa e a participação de Empresas Estratégicas de Defesa brasileiras nos processos produtivos e de sustentabilidade logística integrada, com transferência efetiva de tecnologia, sem restrições[1].

O Governo brasileiro busca adquirir três baterias antiaéreas do modelo “Pantsir S1” (de médio alcance) e duas baterias do modelo Igla-S (de curto alcance) para aperfeiçoar a defesa do espaço aéreo nacional, uma vez que, o país irá receber dois grandes eventos esportivos nos próximos três anos.

Andrei Beloussov, “Ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia”, afirmou a necessidade de criação de parcerias mais intensas nos setores da economia pautados pelo uso de tecnologias sofisticadas, através da criação de joint-ventures entre empresas dos dois países. Mas, para que isso seja possível, torna-se necessária a promoção de políticas públicas eficazes. Para o ministro, “investidores russos se dispõe a implantar no Brasil projetos no valor de US$ 200 milhões a mais de US$ 1 bilhão[3].

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.itamaraty.gov.br

[2] Ver:  

http://www.bcb.gov.br/

[3] Ver:

http://gazetarussa.com.br/internacional/2013/02/20/no_brasil_medvedev_espera_assinar_mapa_de_cooperacao_bilateral_17743.html

[4] Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2013_02_21/Russia-Brasil-posicoes-e-objetivos-comuns/

[5] Ver:

http://gazetarussa.com.br/internacional/2013/02/22/brasil_e_russia_ampliam_cooperacao_em_defesa_agricultura_e_educ_17777.html

 

About author

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.
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