ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Coronavírus e as consequências indesejáveis para as mudanças climáticas

Ao longo da história da humanidade, é possível identificar diferentes momentos nos quais sociedades e nações inteiras foram expostas a eventos inesperados, alterando profundamente o estado das coisas e das projeções em que indivíduos e instituições estavam mergulhados. A pandemia do novo coronavírus soma-se obviamente a este catálogo de crises sistêmicas, com efeitos muito além daqueles mais imediatos que se observa cotidianamente.

Analistas e pesquisadores dos mais diversos têm feito projeções sobre como será o “novo normal” ou o “pós-pandemia” em termos de novas práticas sociais, hábitos e vivências culturais, ou seja, indicativos de alterações profundas e permanentes na própria vida sociocultural dos indivíduos, desde seus laços afetivos até as suas relações de trabalho. Os estudos e previsões a respeito de um mundo que “terá atravessado a pandemia” são, claramente, de crucial importância e formam parte da própria característica inerente ao processo de conhecimento da realidade – a saber, a reflexividade crítica – e de adaptação às transformações que operam e que nela são operadas.

É consenso, no entanto, que ainda se está longe de compreender em sua totalidade as implicações da COVID-19 não somente à realidade socioeconômica, política e cultural das sociedades e nações, mas, também, em como serão sentidas as suas consequências frente aos próprios projetos e ambições traçadas desde o nível individual até às mais altas instâncias institucionais nacionais, transnacionais e internacionais.

Os 17 ODSs resumem um conjunto de objetivos traçados para 2030, os quais certamente terão sua implementação impactada pelo novo coronavírus

Neste sentido, tem-se discutido em que medida o cumprimento da própria agenda 2030 e do conjunto dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs) sofrerão abalos em face do cenário pandêmico que ainda avança intensamente em diversos lugares. Se, por um lado, a redefinição de metas parece um procedimento fora de cogitação, justamente por incorporar os efeitos na mensuração dos resultados almejados, do outro há a necessidade de se identificar quais ODSs sofreram maior impacto negativo devido à COVID-19, e planejar ações de mitigações sobre os mesmos.

Concomitantemente, não haverá somente variação na performance entre os objetivos em si, como também os efeitos da pandemia são sentidos com variedades distintas entre os países e, com efeito, na real capacidade de estes avançarem nas metas traçadas para 2030.

Um caso emblemático, neste sentido, refere-se ao ODS 13, “Ação contra a mudança global do clima”. Neste tópico, a colaboração no avanço das metas traçadas está diretamente associada com a mitigação das emissões de gases efeito estufa, levando em consideração as principais fontes emissoras por país. Ou seja, se, via de regra, as nações da Europa ocidental e norte-americana veem na reconfiguração de suas matrizes energéticas como um dos caminhos mais relevantes para a redução na emissão de gases, parte das nações latino-americanas e do sudeste asiático possuem a redução nos níveis de desmatamento e inovações na agropecuária como importante caminho.

Muito se tem discutido como a pandemia tem impulsionado, nos países do Sul Global, os níveis de desmatamentos das florestas tropicais – embora o avanço na derrubada não seja única e exclusivamente dependente da pandemia em si, pois possui sua variação de intensidade associada a fatores institucionais e políticos dos próprios países, como, por exemplo, o quão direcionadas as políticas públicas e mecanismos de controle e combate ao desmatamento são de fato implementadas. Este fato, a título de ilustração, se apresenta claramente como um revés considerável ao avanço do ODS 13.

Segundo dados da organização World Wide Fund for Nature (WWF), em março deste ano (2020) o desmatamento em florestas tropicais cresceu 150% se comparado ao mesmo mês para os anos de 2017 a 2019. De acordo com a instituição, a Indonésia, a República Democrática do Congo e o Brasil lideraram o ranking, somando mais 3.400 km² de áreas desmatadas. As diretrizes de isolamento social não somente dificultaram a vigilância sobre as áreas protegidas e de florestas, como, também, a própria redução da atividade econômica acarretada pela pandemia induziu significativa parcela de desempregados a buscarem alternativas de renda em atividades ambientalmente predatórias.

O que o caso demonstra, em última instância, não é somente a necessidade de um olhar global dos efeitos da pandemia sobre os ODSs, mas um próprio mapeamento dos principais reveses e retrocessos socioeconômicos e ambientais entre as nações. Se está claro que a COVID-19 gerou efeitos assimétricos entre os países, as políticas posteriores de retomada devem estar calcadas em ações direcionadas à recuperação em aspectos-chave fragilizados durante o intercurso da contaminação e propagação.

No que diz respeito especificamente ao ODS 13, aos países do Sul Global – os quais possuem, em grande parte, como desafio central para ação climática contra o aquecimento global o desenvolvimento de uma nova agropecuária e a conservação de seus recursos florestais – será urgente apoios e projetos direcionados à recuperação econômica fundamentada em atividades produtivas sustentáveis, a fim de não somente garantir e reiterar o compromisso dessas nações com o Acordo de Paris, mas, também, de avançar com a retomada de um processo de crescimento econômico e redução da pobreza após profunda retração nas economias.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A retomada econômica, póspandemia, precisará estar calcada em atividades produtivas sustentáveis, a fim de recuperar a trajetória rumo aos ODSs” (Fonte):

Imagem do Autor, cedida para uso do CEIRI NEWS

Imagem 2 Os 17 ODSs resumem um conjunto de objetivos traçados para 2030, os quais certamente terão sua implementação impactada pelo novo coronavírus” (Fonte):

https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/crime/embaixadores-da-juventude/conhea-mais/a-agenda-2030-para-o-desenvolvimento-sustentvel.html

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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