ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Coronavírus: um novo risco nas regiões de conflito do Oriente Médio

Em meio à preocupação com a crise sanitária causada pelo Covid-19 em todo mundo, observada a velocidade de contágio e o número de vítimas que a doença causa (com mais 710 mil casos e 33 mil mortos, confirmado em 29 de março de 2020, segundo o Centro de Pesquisas do Coronavírus da Universidade Johns Hopkins), existe também uma preocupação crescente em como lidar com a doença em zonas de conflito.

Mesmo com cidades enfrentando rigorosas quarentenas e com a construção de unidades de saúde para atender aos casos mais graves, países mais ricos têm enfrentado grandes dificuldades em conter as consequências da pandemia.

Em zonas de conflito, a dificuldade em conter a doença se soma a problemas cotidianos, como a falta de recursos, infraestrutura e mesmo decisões sobre aspectos logísticos para que agentes humanitários possam operar no campo.

Casos de coronavírus foram confirmados no Afeganistão, Líbia, Palestina e Síria, gerando a preocupação de um grande número de contágios, que poderia acrescentar ainda mais complexidade a uma já preocupante realidade. Ainda que em uma situação não tão crítica e que outros problemas pareçam mais imediatos, a possibilidade de uma pandemia pode acrescentar mais complexidade ao cenário.         

Nas regiões em crise política que estão controladas por governos estabelecidos, algumas medidas já foram tomadas. Por exemplo, desde o dia 23 de março, o governo da Síria implementa medidas de distanciamento social, fechando espaços públicos, e aplica esterilização nas cidades que controla. As universidades e escolas no país foram fechadas a partir do dia 13 de março para prevenção. O governo também controlou preços de determinados produtos para prevenir desabastecimento.

Entretanto, nas regiões de conflito e disputa pelo controle territorial, o risco de contaminação gera mais dificuldades para que governos e organizações internacionais continuem provendo a ajuda regularmente ofertada. Aliado a problemas estruturais destes países, as consequências podem ser dramáticas para as mais de 100 milhões de pessoas que, segundo a Organização das Nações Unidas, vivem em regiões de conflito e emergência humanitária.

Em Idlib, no noroeste da Síria, o International Rescue Committee identificou pelo menos 85 ataques a hospitais nos últimos 12 meses até o dia 23 de março. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 2016 e 2019 ocorreram em 494 instalações de saúde na Síria.

O Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Síria, Geir Pedersen, alertou que “existe uma carência de equipamento médico necessário e profissionais de saúde”, nesse sentido, uma pandemia deve sobrecarregar um sistema de saúde que já enfrenta grandes desafios.

Além das pessoas que vivem em regiões afetadas por conflitos, a Síria possui 6 milhões de refugiados internos, vivendo em situação de precariedade e que apresentam um grupo de risco para o contágio.

Agente humanitário mede a temperatura de transeunte no Noroeste da Síria

No caso palestino, a Autoridade Nacional Palestina impôs severas restrições para o trânsito entre cidades após a confirmação de casos na região. Ressalte-se que vários países no Oriente Médio e norte da África restringem o trânsito entre suas fronteiras. Estas ações cumprem com as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde para conter o alastramento da pandemia.

No entanto, com restrições à mobilidade, organizações humanitárias têm enfrentado dificuldade em fazer com que remédios e outros mantimentos que são transportados entre fronteiras cheguem às regiões mais carentes. Segundo o Middle East Monitor, um porta-voz do International Rescue Committee afirmou que “a habilidade de muitas organizações humanitárias em atender as necessidades de saúde nos campos de refugiados (…) já foi comprometida”.

O diretor do Conselho de Refugiados da Noruega, Jan Egeland, afirmou que “muitas pessoas dependem da assistência humanitárias”, acrescentando que “se farmácias e supermercados devem permanecer funcionais durante a crise, a entrega de ajuda humanitária também deveria”.

No dia 23 de março, o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou em um pronunciamento que um cessar fogo global é vital para que o mundo possa enfrentar o risco que a pandemia apresenta.

A combinação entre os conflitos e perigo de contaminação dificulta o acesso às áreas de risco e pode criar um cenário onde não haja controle sobre a disseminação da doença. O Secretário Geral da ONU também enviou cartas aos líderes do G20 requisitando apoio para tomar ações em áreas críticas.

Além disso, a ONU lançou na quarta-feira, 24 de março, um programa de ajuda humanitária que destinará 2 bilhões de dólares (cerca de 10,22 bilhões de reais, segundo cotação do dia 27/03) para os países que apresentam instabilidade e necessitam de recursos. Ainda assim, o fundo que deve ser destinado a 53 países não representa um montante alto, frente ao que países têm investido para mitigar a pandemia, e não possui uma data precisa para ser liberado aos que são necessitados.

A operação para mitigar problemas cotidianos em áreas de conflito já é particularmente desafiadora fora de uma crise global. Atualmente, países ricos já se encontram sobrecarregados com a administração de seus problemas domésticos, o que torna o processo de gerir a crise sanitária em zonas de conflito muito difícil, pois não há perspectiva de alocar recursos ou mesmo de dedicar tempo a tomar decisões importantes, como estabelecer uma logística funcional para trabalhadores humanitários se deslocarem entre cidades e países.

Entretanto, é necessário observar que o custo em vidas humanas deve ser extremamente alto em regiões já afetadas pelos conflitos. Somente no noroeste da Síria, mais de 100 mil mortes pelo Covid-19 são projetadas sem medidas de contenção. Uma pandemia afetando essas localidades torna muito difícil abrandar efeitos de conflitos futuramente.

Existe a possibilidade de que esta região se converta em um novo foco a ser combatido da epidemia do Covid-19, que pode, inclusive, se alastrar e voltar a afetar a Ásia e a Europa, sendo esses impactos futuros que devem também ser calculados para considerar uma ajuda às regiões necessitadas, mesmo em um momento de grande dificuldade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Agente da Defesa Civil Síria, conhecidos como Capacetes Brancos, desinfeta uma tenda em um campo de refugiados no país” (FontePágina Oficial da Defesa Civil Síria no Twitter, @SyriaCivilDef): https://twitter.com/SyriaCivilDef/status/1243995925082714114/photo/1

Imagem 2Agente humanitário mede a temperatura de transeunte no Noroeste da Síria” (FontePágina oficial do International Rescue Committee no Twitter @RESCUEorg): https://twitter.com/RESCUEorg/status/1242904102197178374/photo/1

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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