ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Covid-19 pode mudar a política internacional

O século XXI apresenta-se como o momento mais transparente da globalização, pois, desde o início dos anos 2000, os sistemas, processos e produtos destinados à comunicação apresentaram uma contínua evolução. Ainda que haja diferenças políticas, culturais e nos sistemas econômicos entre as nações, as instituições públicas, privadas, as sociedades, passaram a deter meios para quase em tempo real obterem informações que podem contribuir para o bem-estar social, para a proteção e para o desenvolvimento produtivo.

Com todos os avanços obtidos na história da humanidade com a tecnologia, a informação e a mobilidade, o ano de 2020 ficará marcado pela Covid-19 e pela forma como ela pôs em xeque a política internacional contemporânea.

Especialistas apontam que o investimento em tempo e energia realizados em diversos setores públicos e privados pelo mundo, realizados de forma unilateral ou para benefícios apenas individuais, deixou os países despreparados para enfrentar problemas e adversidades que são comuns.

A história mostrou que sempre que ocorre uma corrida pelo poder, logo, pelos recursos que o aumentam, chega-se a um ápice e começa então o declínio, ficando as sociedades e os Estados com dificuldades de enfrentar as consequências de suas escolhas anteriores. Observando-se os comportamentos no contexto da Guerra Fria, quando o deslocamento de recursos e investimentos para a corrida armamentista chegou ao ápice, o resultado foi a quebra de economias e de países, sem que estes tivessem capacidade de recuperação em curto e médio prazo, contribuindo ainda para o aumento do índice da desigualdade social, além da geração de problemas territoriais, bem como a preservação de guerras ou de situações de conflito daquele período.

Hoje, a guerra basicamente gira em torno de um inimigo sem bandeira, um vírus que em menos de 60 dias pôs à prova a capacidade de troca de informação, o uso de tecnologia, a capacidade de mobilização e a cooperação em situação de crise, pondo em xeque o atual modelo de administração política e a econômica global.

Atualmente, há acima de 4,34 milhões de pessoas infectadas pelo vírus no mundo, com mais de 297,2 mil mortes, conforme o mapa de dados em tempo real disponibilizado pela Universidade Johns Hopkins (EUA). Após o centésimo dia corrido desde a confirmação do primeiro caso identificado na China, a curva de infectados e de mortes continua crescendo pelo mundo. Conforme vem sendo apontado por analistas, durante os meses iniciais do ano de 2020 observou-se o despreparo de economistas e líderes mundiais para tomarem decisões rápidas e aplicarem práticas eficazes para combater as crises que emergem na saúde pública.

Após este primeiro caso confirmado na cidade chinesa de Wuhan, e a constatação de seu grau de propagação e periculosidade, alguns países priorizaram a preservação da sua produção, buscando manter a economia aquecida, não dando, por isso, a devida atenção à possibilidade de risco à saúde pública em seus países. No caso italiano, o país se tornou o epicentro da pandemia na Europa porque, segundo foi disseminado na imprensa, não tratou dos primeiros casos no território de forma adequada, com os agentes políticos locais fazendo descaso e tratando da ameaça como uma gripe comum.

Não apenas em solo italiano, mas em outros Estados da Europa houve demora em agir e fazer frente à prevenção de possíveis novos casos. Nesse sentido, por terem dado mais atenção à economia, rapidamente o vírus se espalhou para outros lugares. Políticas de isolamento social e de fechar o trânsito e as fronteiras também foram decisões demoradas, supostamente feitas de forma incorreta em alguns casos. Isso não apenas na Europa. Segundo apontam os observadores internacionais, os Estados Unidos impediram a entrada de chineses e outros asiáticos no seu território, mas, conforme dados divulgados pela administração municipal de Nova York, o primeiro caso no país provavelmente foi de origem italiana.

Pedro Sánchez preside a reunião do Comitê de Gestão Técnica de Coronavírus – Crédito Imagem: La Moncloa / Fotos Publicas

Hoje, sendo um epicentro da pandemia, identificam os especialistas que os Estados Unidos demoraram em apresentar um plano de contenção do vírus, já que cada Estado da Federação norte-americana criou suas próprias políticas e o governo federal foi prorrogando um discurso na mesma linha das administrações regionais e locais. A redução da produção em suas fábricas e o fechamento total e adequado de suas fronteiras foram considerados tardios e o país conta no momento com números crescentes de novos casos, bem como de mortos pela Covid-19. Como afirmou o especialista em virologia da Universidade de Washington, Alex Greninger, para a BBC: “Nunca se está preparado para um vírus como esse, e creio que nenhum país estava. Mas é certo que no caso dos EUA a resposta não foi suficientemente rápida”.

Alguns experts atribuem à demora de alguns líderes a diferenças culturais, sociais e também ao preconceito e racismo, pois houve um grande aumento de casos e incidentes de racismo e xenofobia reportados pelo mundo, sendo os asiáticos, principalmente os chineses, as principais vítimas, tanto por parte de cidadãos, quanto de autoridades. Ressalte-se que, de acordo com alguns observadores, casos de xenofobia e diferenças culturais estão sendo usados para mascarar a deficiência e ineficácia de alguns governos em atuar em situações adversas como é o caso dessa pandemia.

Embora sem comprovação científica, a população ocidental culpa pela tragédia os hábitos alimentares e de higiene de povos asiáticos, principalmente do sul e sudeste asiático, grande parte sendo de chineses e de populações de países que fazem fronteira com a China, o que levou os governos a priorizarem o impedimento do trânsito de pessoas dessas regiões.

Conforme apontou o epidemiologista brasileiro Jarbas Barbosa, diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da OMS, “Em 2015, havia três países com transmissão de ebola na África — mas outros países estavam inclinados a considerar como caso suspeito qualquer pessoa que vinha do continente africano, mesmo que 5 mil km longe dos locais de transmissão”. Da mesma maneira, aponta o descendente de japoneses, Gabriel Kyoshima, para a BBC Brasil: “É fácil divulgar vídeo da China sem conhecer o país. No mundo é normal isso: o chinês é tratado como uma invasão. Estou muito cansado disso e bravo com esse preconceito”.

A diferença cultural, de certa forma, contribuiu para o atraso no combate a Covid-19 pelo mundo, a qual, somada à onda de fake news com tom de deboche contra asiáticos, estimulou os atritos e divergências entre autoridades chinesas com outros países, como foram os casos do Brasil e dos EUA. Muitos especialistas econômicos e cientistas políticos temem que o estímulo à segregação venha a agravar ainda mais a atual crise no cenário econômico mundial.

A Covid-19, sozinha, conseguiu abalar toda a economia global. Até o final do ano de 2019, analistas políticos e econômicos apontavam apenas para casos envolvendo americanos e chineses como capazes de afetar de forma negativa ou positiva a economia mundial. Hoje, suas preocupações perderam sentido. Bolsas caíram quase 30% em todo o mundo, sistemas econômicos estão operando abaixo dos 50% de suas capacidades, entre outras situações, levando a previsões de que o mundo irá sofrer mais do que nas crises de 2009 e a de 1929, com seus efeitos na década de 1930, de forma que se acredita que o combate ao desemprego e a busca pela recuperação econômica se tornarão os grandes desafios para pequenas, médias e grandes potências.

Presidente Donald Trump em coletiva sobre o Coronavírus na Casa Branca – Crédito da Imagem: Official White House Photo / D. Myles Cullen

Em entrevista para a DW, Ben May, economista da Oxford Economics, declarou que “a proporção da economia global paralisada neste momento ronda provavelmente os 50% do PIB mundial, e isso não inclui a China, que, de uma forma geral, está de fora das atuais paralisações”. Até a pandemia, a guerra comercial China-EUA e o Brexit na Europa eram as principais questões internacionais que recebiam atenção intensa, neste momento, o foco passou a ser a recuperação econômica em nível global, mas, principalmente, levanta-se a questão de que isso vai depender de se os países estarão dispostos a cooperar, e como farão tal coisa.

Os casos de cooperação no campo da medicina pelo mundo, baseada na doação de itens, no intercâmbio de profissionais e especialistas entre os países, e na mobilização de hospitais móveis pelo globo tornou-se um case exemplar. Nessa área, a diferença cultural e de nacionalidades não desviou o foco da atenção, com especialistas chineses em contato e presentes em países sulamericanos, ou com sul-coreanos auxiliando os norte-coreanos contra o vírus, por exemplo, sendo tais exemplos posturas e procedimento que podem e devem ser estudados e avaliados para possível replicagem no mundo pós-pandemia.

A produção continua em baixa pelo globo, e algumas fábricas mudaram o seu sistema de produção e o tipo de produto, passando a produzir máscaras, respiradores e outros itens para atender a demanda mundial gerada pelo vírus, mas, muito desta produção está voltada para a doação e outra para a venda emergencial, além disso, o atual cenário de cooperação ainda não é ideal. Contudo, tais procedimentos são vistos como sinais de que a experiência pode ser bem aproveitada para o reaquecimento econômico interfronteiras, animando alguns economistas.

Autoridades políticas, economistas, cientistas e ONGs continuam estudando e avaliando os casos de contaminação, bem como analisando a conjuntura e construindo cenários em todas as dimensões, seja a política, seja a econômica, além da saúde em nível global, pois a Covid-19 expôs todas as deficiências existentes nas relações internacionais. Da mesma forma, os analistas observam os governos atuando em suas sociedades e realizam críticas sobre as formas de atuação voltadas a interesses isolados e sobre as tomadas de decisão unilaterais, razão pela qual sugerem que tais comportamentos precisam ser revistos, dando maior proeminência às Organizações Internacionais, já que se afirma que estas visam o bem coletivo, necessitando, por isso, ter maior importância e participação, tanto no atual momento como no que virá imediatamente a seguir, uma vez que o Coronavírus pôs a forma tradicional de fazer política internacional sob questionamento, e a geopolítica global em xeque.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem de viriões de SARSCoV2 obtida por microscópio eletrônico de varrimento, em que se observa partículas virais a emergir de uma célula” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/COVID-19#/media/Ficheiro:Novel_Coronavirus_SARS-CoV-2.jpg

Imagem 2 Pedro Sánchez preside a reunião do Comitê de Gestão Técnica de CoronavírusCrédito Imagem: La Moncloa / Fotos Publicas” (Fonte):

https://fotospublicas.com/primeiro-ministro-espanhol-pedro-sanchez-preside-a-reuniao-do-comite-de-gestao-tecnica-de-coronavirus/

Imagem 3 Presidente Donald Trump em coletiva sobre o Coronavírus na Casa Branca

Crédito da Imagem: Official White House Photo / D. Myles Cullen” (Fonte):

https://www.whitehouse.gov/articles/beating-virus-keep-up-fight/

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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