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Cresce a presença chinesa no Afeganistão

Ter influência no Afeganistão é estratégico no tabuleiro geopolítico mundial. A localização desse Estado da Ásia Central facilita, segundo alguns analistas, o controle de vastas áreas do continente asiático. No século XIX, o Reino Unido disputava com a Rússia o controle da região, por medo de que os russos conseguissem chegar à Índia, a joia da coroa britânica*. Durante a Guerra Fria, o Afeganistão foi objeto de disputa entre os EUA e a União Soviética. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, tornou-se foco da luta contra o terrorismo e recebeu muitas tropas estadunidenses. O país ainda sofre com instabilidade política, e a China começa a investir em sua estabilização.  

Entre 2002 e 2012, o interesse chinês no Afeganistão era marginal. De acordo com Zhao Huasheng, professor da Universidade Fudan, em Xangai, a China não enviou tropas para o país por não querer ser um parceiro subordinado a Washington e seus aliados. Além disso, seus objetivos no Afeganistão eram limitados. Esse panorama começa a mudar com a decisão do governo do então presidente Barack Obama de reduzir o número de soldados estadunidenses naquele território. Os chineses percebem que tem a oportunidade de ampliar sua influência na Ásia Central, além de a importância do Afeganistão para sua segurança interna ter aumentado.

Travessia em ferrovia afegã

Em 2014, o Ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, visitou Kabul e afirmou que “a paz e a estabilidade desse país têm impacto na segurança da China ocidental e, mais importante, afeta a tranquilidade e o desenvolvimento da região inteira”. A referência à China ocidental significa principalmente a província de Xinjiang, que tem forte presença muçulmana e vínculos com o Talibã**. Analistas especializados no Afeganistão acreditam que os chineses querem evitar que combatentes muçulmanos retornem à China após terem recebido treinamento do Talibã e do autodenominado Estado Islâmico. Para tanto, há significativos investimentos da China na modernização bélica afegã, incluindo novos equipamentos, como demonstra o financiamento da nova base militar na província afegã Badakhshan***.

A maior presença chinesa reflete-se na influência no processo de paz, no âmbito da guerra civil afegã. Tanto o governo afegão como o Talibã têm confiança nos chineses, por causa da sua neutralidade histórica no conflito no Afeganistão, o que facilita o diálogo. Segundo o jornal paquistanês The Express Tribune, o cessar-fogo obtido no início de junho de 2018 foi possível principalmente graças à mediação dos chineses, que também conseguiram o apoio do Paquistão. A China tem grande interesse na estabilização do país, por causa do projeto da Nova Rota da Seda****. Se continuar em guerra, será difícil concretizar a iniciativa chinesa.

Os chineses também expandem sua influência no Afeganistão em termos econômicos. São os maiores investidores estrangeiros no país e aumentaram significativamente a quantidade de recursos destinados à ajuda econômica. Entre 2002 e 2013, foram U$ 240 milhões, mas apenas em 2014 foram U$ 80 milhões. Os investimentos estão concentrados na extração de petróleo e na construção e modernização de infraestrutura. Apesar disso, os resultados dos investimentos de capital ainda são modestos. Uma ferrovia que liga a província chinesa de Jiangsu e o porto afegão de Hairatan volta vazia, por causa da baixa capacidade de produção de artigos exportáveis pelo Afeganistão.

Não se deve, contudo, exagerar o envolvimento da China no país da Ásia Central. Apesar de estar crescendo, a influência chinesa restringe-se basicamente à província de Badakhshan, na fronteira sino-afegã. Os EUA continuam a ser o maior ator externo e os chineses buscam evitar qualquer zona de conflito com os estadunidenses naquele país. A China age apenas para garantir sua segurança doméstica e evitar problemas para seu projeto da Nova Rota da Seda. No entanto, essa ação pode intensificar-se nos próximos anos, haja vista a confiança dos afegãos na presença chinesa.

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Notas:

* A Índia era a principal colônia do Império Britânico, por causa das riquezas que fornecia e pela localização estratégica.

** Movimento fundamentalista islâmico que busca o controle político do Afeganistão. Tem ramificações no Paquistão e também vínculos com extremistas muçulmanos na província de Xinjiang, na China. 

*** Província que se localiza na fronteira afegã com a China.

**** Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Kabul durante a guerra civil de 1993” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Afghanistan

Imagem 2 Travessia em ferrovia afegã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Afghanistan

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Demais Fontes Consultadas: 

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/06/is-china-bringing-peace-to-afghanistan/

[2] Ver:

https://thediplomat.com/2014/02/china-in-afghanistan-all-about-xinjiang-now-2/

[3] Ver:

http://enews.fergananews.com/news.php?id=3685

[4] Ver:

https://tribune.com.pk/story/1732330/1-afghan-eid-truce-backed-pakistan-china/

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
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