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Crescem as tensões entre China e EUA no Sudeste Asiático

O Sudeste Asiático é região geograficamente próxima à China, mas que recebe certa influência estadunidense. As duas potências globais competem por maior presença na área por meio do comércio, de investimentos e de cooperação para o desenvolvimento. Os chineses buscam dissipar desconfianças em relação a um suposto projeto hegemônico, enquanto os estadunidenses tentam manter a influência que adquiriram no governo de Barack Obama. Ambos enfrentam dificuldades, e a competição tende a acirrar-se.

Bandeiras dos Estados da ASEAN em Jacarta

A política de investimentos da China na região é substancialmente diferente da adotada pelos Estados Unidos. Os chineses priorizam os capitais investidos pelo Estado, especialmente em infraestrutura, no contexto da Nova Rota da Seda*. Os estadunidenses, por sua vez, atuam sobretudo por meio do capital privado, tendo anunciado recentemente o investimento de U$ 113 milhões na área do Indo-Pacífico. Esse valor, contudo, é ínfimo se comparado ao montante investido pela China, que chega a bilhões de dólares. O Ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, comentando a oferta dos norte-americanos, afirmou que “(…) esperava que os EUA oferecessem alguns bilhões. Minha primeira reação foi que eu devia ter ouvido errado”.

Os Estados Unidos, entretanto, têm algumas vantagens no Sudeste Asiático. Há aliados importantes na região, como as Filipinas. Esse país tem controvérsias territoriais com os chineses no Mar do Sul da China. Uma decisão arbitral que favorece os filipinos na disputa chegou a ter seu aniversário de 2 anos celebrado em um fórum em julho de 2018. Essa desconfiança sobre os chineses encontra eco em outras nações, que poderiam aproximar-se dos EUA.

Há também aproximação ideológica aos norte-americanos, na medida em que o soft power** exercido no governo do então presidente Barack Obama ainda deixou legado de influência. O antigo mandatário estabeleceu, por meio de sua estratégia do Pivô para a Ásia-Pacífico***, confiança e respeito mútuo com países do Sudeste Asiático. A estratégia de “América Primeiro” do presidente Donald Trump, entretanto, pode prejudicar o relacionamento com a região.

A China tenta contrabalançar as vantagens dos EUA por meio da ênfase nos fatores que a aproximam da região. A área é fundamental para a política externa chinesa e para o êxito do grande projeto do presidente Xi Jinping, a já citada Nova Rota da Seda. Isso pode ser evidenciado pelo aumento da cooperação entre o país e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)****, nas preparações para o 15o aniversário da parceria estratégica, estabelecida em 2003. Na cúpula de Manila, em novembro de 2017, a China propôs uma visão para aprofundar a parceria até 2030, com foco nos pilares de economia, comércio e segurança política.

O comércio é ponto importante na relação com os Estados do Sudeste Asiático. A China é o maior parceiro comercial da ASEAN e, em 2017, o fluxo de comércio chegou ao número recorde de U$ 514 bilhões. Além disso, o superávit chinês não é tão significativo quanto em outras regiões, o que reduz as tensões comerciais. A segurança política também é importante e ambas as partes trabalham para resolver seus contenciosos no Mar da China meridional. Isso pode ser demonstrado pelo acordo de um texto sobre o Código de Conduta nesse mar, na cúpula de Manila.

EUA e China disputam influência no Sudeste Asiático, isso é evidenciado continuamente, e o resultado dessas tensões ainda não pode ser previsto, já que ambos têm vantagens e problemas na região. Os norte-americanos buscam mostrar-se como atores cooperativos e transparentes, conquistando a confiança de algumas nações. Os chineses, por sua vez, adotam estratégia de utilizar a vizinhança geográfica e o comércio para gerar aproximação. O que é claro para os analistas é que o resultado na disputa regional certamente terá repercussões no âmbito global.   

 

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Notas:

* Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

** Capacidade de influenciar as relações internacionais por meio de atributos como cultura e negociação. É uma forma mais branda de poder, sem recurso à força militar ou sanções econômicas.

*** Estabelece a região como fundamental para a política externa estadunidense e aumenta os investimentos e a presença dos EUA no continente asiático.

**** Organização que tem por objetivo promover a governança e a cooperação no Sudeste da Ásia. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Discurso do presidente Ford em Pequim em 1975” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/China–United_States_relations

Imagem 2 Bandeiras dos Estados da ASEAN em Jacarta” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Association_of_Southeast_Asian_Nations

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Demais Fontes Consultadas: 

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/can-the-us-compete-with-china-in-southeast-asia/

[2] Ver:

https://www.wsj.com/articles/asian-nations-push-back-at-u-s-on-trade-sanctions-1533507560?mod=searchresults&page=1&pos=3

[3] Ver:

https://www.philstar.com/headlines/2018/07/12/1832881/robredo-warns-philippines-losing-arbitral-ruling-advantage-south-china-sea

[4] Ver:

http://en.ce.cn/National/big-news/201808/06/t20180806_29948177.shtml

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
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