Durante o desenrolar da batalha de Mosul, na qual a coalizão liderada pelos Estados Unidos tenta expulsar a organização terrorista Estado Islâmico (EI) da segunda maior cidade iraquiana, as condições dos civis residentes na região norte do Iraque vêm piorando a cada dia. Como previsto por estrategistas ocidentais, a densidade populacional de Mosul e as estratégias utilizadas pelo mencionado grupo terrorista se tornaram um risco para grande parte da população civil.

Após cerca de oito meses de conflito na região, mais de cinco mil imóveis foram parcialmente ou completamente destruídos, tanto como forma de represália por parte dos terroristas contra residentes que não colaborassem com o grupo, como durante os combates propriamente ditos. Disso resultaram mais de 900 mil civis que tiveram de ser deslocados de Mosul, por não mais disporem de abrigo. Concomitantemente, outros cerca de 20 mil civis ainda se encontram na cidade, tendo sido impedidos pelos terroristas de deixá-la, no que é uma clara tentativa de provocar reação internacional de modo a enfraquecer os avanços das tropas regulares. Atualmente, segundo agência das Nações Unidas, por volta de 2 a 3,5 mil civis têm conseguido fugir da cidade diariamente, o que demonstra a gravidade da situação que enfrentam dentro da região urbana.

Conflito na região ocidental de Mosul

Tais fatos são prova de que a crise humanitária causada pelo EI no norte do país vêm se agravando devido à natureza dos combates em ambientes urbanos, cujo cenário apresenta aos militares mais riscos e lhes exige muito mais tempo para avançar do que seria necessário em lugares abertos. Consequentemente, os terroristas têm explorado tais fatores, valendo-se da própria população como escudo e executando aqueles que tentam fugir ou que colaborem com o inimigo.

Neste último caso, há registro de que sete crianças foram mortas e tiveram seus corpos expostos publicamente, como punição a suas famílias enquanto tentavam deixar Mosul. Mais do que graves crimes contra os direitos humanos, militantes do EI têm provado estar dispostos a lançar mão das mais rudimentares táticas de guerra para manter-se naquela cidade, a qual é considerada a capital de fato do autoproclamado califado imposto pelo Estado Islâmico.

Percebe-se, portanto, que a violência do conflito tem atingido os civis indiscriminadamente, principalmente nas ações direcionadas por parte de terroristas, o que levaria indiscutivelmente a uma crise humanitária. Neste caso específico, é interessante notar que foi justamente a violência contra civis e o deslocamento populacional que pavimentou o surgimento das milícias que se tornariam mais tarde o Estado Islâmico, após a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em 2003.

Assim, a similaridade das circunstâncias pode permitir que outras milícias ou grupos terroristas venham a explorar as condições dos milhares de civis, retardando ainda mais a retomada de Mosul pelas tropas regulares. Finalmente, é conveniente observar que pode surgir pressão internacional para que não se prossigam os combates até que civis sejam evacuados das áreas mais ameaçadas, o que, na realidade, poderia render ao EI o tempo necessário para se reagrupar e se reforçar, passando a oferecer então uma resistência ainda maior à ocupação da coalizão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Forças americanas apoiam forças iraquianas nos últimos dias da batalha de Mosul” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/2bct-82nd/34987385283/

Imagem 2 Conflito na região ocidental de Mosul” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/[email protected]/35282855590/in/photolist-8trYFj-aGejui-64obiJ-V7gR9x-cNo2M9-ViHuGK-aGe71P-3g3GGg-8XCoZW-3g7YX1-3g8a7C-3g82u3-7rukbd-ap8ZYb-bBYv4a-dVHEbg-7K5UJq-7K5UJd-eatP9d-eaoa2X-VKPRJo-eatPgG-eaoa64-eao9Zp-SaRKHu-U1NVs7-VgsrTk-WbVCNy-VQPZd1-W7xCZo-VWJf5w-MN6Ltj-8tvXUu-ouJc6K-ba5T8p-SamBw7-yNCtqh-yNHYak-dA58K5-V11KX9-WdUfV9-Vb33Kp-yNCAUA-yNHRxx-yNCAHG-yNC3jq-yNC8Dw-z3V46d-7K5UJu-3g8dk1

About author

Bacharel em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul. Especialista em Gestão de Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em Polícia Comunitária pela Universidade do Sul de Santa Catarina, em Gestão de Ensino a Distância pela Universidade Federal Fluminense, e em Estudos Islâmicos pelo Al Maktoum College of Higher Education (Reino Unido). Mestre em Segurança Internacional pela Universidade de Dundee (Reino Unido). Atualmente, é mestrando em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo. Pesquisa, principalmente, temas relacionados a conflitos no Oriente Médio e Europa, bem como a organizações criminosas transnacionais e terroristas. Professor de Criminalística no Curso de Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública da Academia de Polícia Militar do Barro Branco e Subchefe de Seção de Investigação da Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
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