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Deficiências estruturais minam crescimento econômico nos emergentes

Outrora tidos como a esperança para o capitalismo global, as economias emergentes começam a apresentar deficiências estruturais que freiam o ritmo de seu crescimento. Se selecionarmos 11 importantes países emergentes – Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul, Turquia, México, Argentina, Indonésia, Angola e Moçambique – é possível ver que a média estimada pelo Fundo Monetário Internacional de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dessas nações para 2015 é de somente 2,57%. Países como Brasil, Rússia, Argentina e África do Sul são os principais responsáveis por puxarem esse valor para baixo.

A redução nas expectativas de crescimento, questões internas de cada país e a recuperação econômica estadunidense causam uma desvalorização geral das moedas locais frente ao dólar. Entre os países selecionados, surpreende a desvalorização cambial que ocorre em Moçambique – país onde a moeda local, o Metical, perdeu 36% de seu valor frente ao dólar desde o início do ano, sendo esta a segunda maior desvalorização no grupo dos países selecionados, atrás somente do Brasil. Em resposta à recente desvalorização, o Banco Central de Moçambique anunciou, na semana passada, uma medida oficial para limitar o uso de cartões no exterior, a fim de conter a evasão de divisas do país.

O que mais surpreende nesta desvalorização do Metical é que, à primeira vista, ela não encontra bases no desempenho econômico moçambicano, uma vez que se espera, segundo o FMI, uma expansão do PIB para 2015 de 7,5% e inflação de apenas 4,92%. Tendo isso em vista, emerge à necessidade de entender o que acontece com Moçambique. Mais que nada, o país demonstra ser um clássico exemplo das deficiências estruturais que minam a expansão econômica das nações em desenvolvimento.

A balança comercial moçambicana tornou-se gradativamente mais deficitária: espera-se que, ao final deste ano (2015), o déficit na balança represente 39,2% do PIB nacional, segundo dados do Banco Mundial. Em um primeiro momento, tudo indica que é neste déficit crescente que resida a recente desvalorização abrupta do Metical, sendo, assim, necessário compreender as suas origens.

O frenético ritmo do crescimento econômico de Moçambique nos últimos anos sacou centenas de milhares da pobreza, elevando significativa parcela da população a um novo nível de consumo. Entretanto, a economia moçambicana em si não consegue suprir a oferta de bens e serviços manufaturados que sua população deseja comprar. Não à toa, os itens mais significativos na pauta de importação deste país são as máquinas e equipamentos (16,8%), veículos (9,4%) e metais (9,1%), sendo estes, em sua maioria, utilizados na construção civil. Além disso, soma-se que o elevado ritmo do crescimento econômico deste país nos últimos anos se faz à base do consumo de petróleo importado. Atualmente, petróleo e derivados representa 28,2% da pauta de importação.

Os produtos manufaturados foram os que mais cresceram nos últimos anos, em termos de participação total sobre a pauta de importação: segundo dados do Banco Mundial, em 2001 tais bens representavam 38,9% da puta de importação; em 2013, esta participação cresceu para um total de 60%. Nitidamente, há uma quebra estrutural na economia moçambicana: os novos padrões de consumo, causados tanto pelo crescimento econômico, como pela gradativa abertura comercial do país, não são saciados pela indústria interna, mas, sim, pelo capital estrangeiro. Este cenário, no longo prazo, pode trazer dois grandes riscos à economia moçambicana.

O primeiro diz respeito ao preço internacional do petróleo e suas consequências sobre a balança comercial e a inflação. A queda nos preços internacionais alivia o déficit na balança, uma vez que, como se constatou aqui, este produto ocupa o primeiro lugar na pauta de importação. Porém, uma possível elevação futura nos preços internacionais desta commodity, por quaisquer motivos geopolíticos ou econômicos que sejam, poderá (I) expandir o déficit comercial, acentuando a desvalorização do Metical, (II) causar, assim, pressões inflacionárias, à medida que os demais produtos de importação – máquinas, veículos e metais – ficarão mais caros.

O segundo risco está relacionado a possíveis crises monetárias advindas da escassez de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Moçambique goza de uma tendência crescente em receber IED – no ano de 2013, os IED’s neste país representaram 3,2% do PIB, maior valor da história – o que atua, por um lado, para cobrir o déficit na balança comercial. Entretanto, assim como os tigres asiáticos sofreram com a escassez de IED no final da década de 90, Moçambique é um outro país emergente que também está sujeito a ver os IED’s em seu país cessarem, caso as suas reservas internacionais sejam ínfimas perto da proporção de seu endividamento externo, o que aumenta o risco de uma possível recessão monetária, repelindo os investidores externos. Atualmente, suas reservas são 1,18 vez maior do que o déficit na balança corrente, mas esta proporção vem caindo expressivamente nos últimos anos e poderá seguir o mesmo padrão para os próximos anos, o que é alarmante.

Resumidamente, a incapacidade do setor produtivo nacional em ofertar os produtos demandados faz com que o país recorra às importações, o que traz consigo nítidos impactos negativos à política econômica de desenvolvimento de longo prazo. Longe de representar qualquer ausência de vocação entre os empresários moçambicanos, tal incapacidade advém de condições estruturais, tais como tributação, infraestrutura, graus de monopólio e qualificação profissional. Analistas apontam como tendo sido necessário que tais elementos tivessem ocupado a posição central, não somente na política econômica moçambicana, mas de qualquer outro país emergente que ansiou e anseia por estabelecer um plano de desenvolvimento de longo prazo.

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Imagem (Fonte):

http://www.transportesenegocios.pt/2015/08/19/porto-de-maputo-mais-produtivo-com-duas-gruas-moveis/

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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