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Derramamento de óleo no Ártico é tragédia ambiental sem precedentes

Em 29 de maio de 2020, um desastre ecológico se abateu sobre a região de Krasnoyarski Krai, no norte da Rússia: um tanque de armazenamento de combustível na Usina Nuclear de Norilsk–Taimyr falhou, causando um massivo vazamento de óleo que inundou o solo e rios locais com 20.000 toneladas de petróleo. Acredita-se que a causa da falha tenha sido negligência por parte da companhia de exploração de minérios e fundição Nornickel (Norlisk Nickel), que já havia sido intimada pelo órgão competente russo da Ecologia, Tecnologia e Energia Nuclear (Rostekhnadzor) a inspecionar e consertar corrosões em seus tanques.  

Em declaração oficial, a Nornickel apresenta um argumento considerado alarmante: “Devido ao repentino colapso de estruturas que serviram como suporte por mais de 30 anos sem problemas, o tanque de armazenamento de diesel sofreu danos, resultando em vazamento de combustível”, diz a empresa, referindo-se à camada de permafrost que sustentava o tanque. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, mostrou-se desconcertado ao descobrir que as autoridades locais souberam do incidente apenas dois dias após o ocorrido e criticou o governador da região, Alexander Uss, pela resposta tardia no processo de limpeza da área afetada. Putin declarou estado de emergência na região para agilizar os esforços na recolha do óleo, a fim de evitar que o mesmo atinja o Mar Ártico e cause uma catástrofe ecológica.

Vazamento de óleo no Ártico, 2020 – ESA, CC BY-SA IGO 3.0

A companhia responsável pelo vazamento mobilizou 250 pessoas e 72 equipamentos no intuito de liquidar a operação de limpeza o mais brevemente possível, contudo, no dia 3 de junho (2020), apenas  800 metros cúbicos de solo contaminado foram recolhidos e cerca de 80 toneladas foram coletadas do rio Ambarnaya. Fortes ventos constantemente alteram o curso do combustível na água e rompem as barreiras construídas para conter o óleo, tornando o processo de limpeza lento e penoso. Além do ambiente inóspito em que atuam, os trabalhadores são vítimas da infraestrutura precária e a falta de estradas dificulta a mobilidade de pessoas e equipamentos.

Representantes do governo russo e da sociedade civil se posicionaram diante do acidente, tratando-o como uma tragédia iminente. Elena Panova, Ministra dos Recursos Nacionais e do Meio-Ambiente da Federação Russa, afirmou que levaria cerca de 10 anos para o ecossistema se recuperar, conforme ambientalistas do país. Elaborando essa visão, o coordenador dos projetos do Ártico da WWF Rússia, Sergey Verkhovets, disse que “o incidente levou a consequências catastróficas” que serão vistas nos anos porvenir, tais como “peixes mortos, penugens de pássaros sujas e animais envenenados”.

Pássaros vítimas de vazamento de óleo

Em seu discurso inicial, a Nornickel afirmou que nenhuma comunidade havia sido afetada pelo vazamento de óleo. No entanto, os impactos ambientais causados pelo incidente atingem os seres humanos pela tangente. Dmitry Klokov, porta-voz da Agência Russa das Indústrias Pesqueiras, disse que “o escopo dessa catástrofe está sendo subestimado”, e que grande parte do óleo já submergiu ao fundo do rio e atingiu o lago Pyasino, grande fonte de abastecimento de água da região. O Greenpeace Rússia também se pronunciou em um tweet, destacando que este “é o primeiro acidente em tamanhas proporções no Ártico”.

Após críticas por parte do presidente Putin quanto à demora na notificação do vazamento e por parte dos ambientalistas, sobretudo que o derretimento da permafrost poderia ser previsto devido às mudanças climáticas evidentes, o diretor da usina, Vyacheslav Starostin, foi levado sob custódia das autoridades russas, e pode passar  até 5 anos em confinamento, caso seja condenado por violar as leis de proteção ambiental. Já em 2017, um relatório do Conselho Ártico, do qual a Rússia é integrante, avisava que a camada de permafrost já não suportaria a carga que vinha suportando desde 1980. 

Em 5 de junho (2020), o Presidente russo deixou claro que a Norilsk Nickel será responsável por pagar todos os custos de emergência pelos danos causados pelo derramamento de petróleo. E ainda salientou a responsabilidade subjetiva da companhia ao não coadunar com as medidas de segurança que haviam sido apontadas em outras ocasiões: “Se vocês tivessem substituído (o tanque do vazamento) em tempo, não haveria danos ambientais e a companhia não precisaria arcar com os custos”, disse Putin ao chefe executivo da Nornickel.

Vladimir Putin em conferência sobre o vazamento de óleo

Atualmente, cerca de 700 pessoas estão envolvidas na limpeza da região afetada. Especialistas acreditam que a limpeza total da área poderá levar de 10 a 15 anos para ser concluída. Enquanto isso, uma equipe de 17 investigadores do Comitê Nacional de Investigação da Rússia está buscando evidências de potencial conduta criminosa ou negligente que poderá levar a julgamento outros representantes da Nornickel. A postura do governo russo mediante este incidente é, no mínimo, tranquilizadora, a deixar saber que a Federação Russa não será conivente com a deterioração ambiental desmedida, nem mesmo no caso de uma de suas maiores empresas (e movimentadoras de capital). 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Petróleo em praiafish1715 / Shutterstock.com” (Fonte):

https://www.shutterstock.com/g/fish1715

Imagem 2Vazamento de óleo no Ártico, 2020ESA,CC BY-SA IGO 3.0” (Fonte):

https://www.esa.int/var/esa/storage/images/esa_multimedia/images/2020/06/arctic_circle_oil_spill/22056833-1-eng-GB/Arctic_Circle_oil_spill.gif

Imagem 3Pássaros vítimas de vazamento de óleo” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:EVOSWEB_013_oiled_bird3.jpg

Imagem 4Vladimir Putin em conferência sobre o vazamento de óleo” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/63450/photos/63932

About author

Mestranda em Estudos Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Foi delegada brasileira da Juventude na 16ª Cúpula de Prêmios Nobel da Paz. Morou na Irlanda, certificou-se professora de inglês, e mudou-se para Lisboa, onde estagiou para o Instituto para Promoção da América Latina e Caribe e trabalhou para a Wall Street English. Áreas de interesse são sustentabilidade, policy-making, peacekeeping, intel e pesquisa.
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