ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Diplomacia das máscaras: o papel da China no contexto da Covid-19 e os países emergentes

Ao final de dezembro de 2019, o Estado chinês informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre 41 pacientes que estavam sofrendo de uma pneumonia misteriosa. Desde então, a doença se espalhou pelo mundo e a epidemia de coronavírus afetou cerca de 17 milhões de pessoas, causando mais de 669 mil mortes (dados de 31 de julho de 2020). A premissa deste artigo é simples: analisar a mudança e os efeitos da epidemia para a inserção internacional da China. Os dados oficiais afirmam a ocorrência de pouco mais de 84.000 casos e cerca de 4.600 mortes pela Covid-19, um número que se provou extremamente baixo no contexto global*.

Evidências indicam que o Mercado de Frutos do Mar de Huanan, um mercado de animais vivos na cidade de Wuhan, província de Hubei tenha sido o ponto de origem. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto como uma Emergência em Saúde Pública em 30 de janeiro e o reconheceu como uma pandemia em 11 de março de 2020. A cidade de Wuhan, que conta com cerca de 11 milhões de habitantes, foi colocada sob bloqueio imposto pelo Estado em 23 de janeiro. Outras cidades na província de Hubei logo seguiram o exemplo, adotando restrições semelhantes. As medidas abrangentes, que afetaram mais de 60 milhões de residentes de Hubei, foram anunciadas em toda a China. 

De modo geral, as medidas para impedir a propagação do vírus incluem restrições de viagem, quarentenas, toque de recolher, fechamento de escolas, controle de riscos no local de trabalho, adiamentos e cancelamentos de eventos e fechamento de instalações. A extensão das medidas depende da capacidade e recursos do país para implementar com sucesso estas políticas. Posteriormente, os diferentes Estados têm aplicados medidas para auxiliar nos efeitos econômicos da crise, como pacotes de auxílio para profissionais desempregados e pacotes de alívio para empresas que estejam enfrentando dificuldades financeiras.

Mapa do mundo demonstrando os casos de coronavírus

Estima-se que esta crise vá ocasionar uma redução no PIB mundial da ordem de 5,2% neste ano (2020). À título de comparação, a crise econômica global de 2008 foi uma crise do setor financeiro que afetou a economia real (setor produtivo, comércio e serviços de um modo geral). Por outro lado, a crise econômica provocada pela Covid-19 é uma crise que começa no setor real da economia, que acaba por afetar também o setor financeiro, à medida que várias empresas são impedidas de continuar as suas atividades e trabalhadores/consumidores ficam em quarentena nas suas casas.

Especialistas afirmam que no campo das ideias e do poder brando, a crise do coronavírus se tornou uma disputa de narrativas, afinal, o poder é fruto de recursos materiais, mas também de narrativas e prestígio. Produziram-se diversas comparações entre a eficiência das democracias e do Estado chinês ao realizar a gestão da crise. Se por um lado houve severas críticas por parte de autoridades estadunidenses de que a China teria dissimulado dados para esconder o início do surto da doença, por outro lado, o país parece ter realizado uma gestão eficiente da crise e vem tentando propagar esta imagem internacionalmente. O vídeo publicado pela agência chinesa Xinhua na plataforma Youtube é um exemplo emblemático.

Neste sentido, vale examinar a diplomacia das máscaras, termo que vem sendo utilizado por certos veículos da mídia internacional para indicar a posição internacional da China em meio a este contexto, ao passo que a China amplia diversas iniciativas de cooperação sul-sul, provendo equipamentos de proteção e de saúde, como máscaras e respiradores, para países que não disponham dos recursos e acesso a estes materiais. Na América do Sul, por exemplo, os vínculos entre a China e países como Argentina e Colômbia vêm se fortalecendo no contexto da crise.

Máscaras utilizadas no combate ao Covid-19

No caso do Brasil, foram realizadas duas importantes medidas de cooperação sul-sul: 1) a iniciativa do governo do Maranhão em negociar diretamente com o gigante asiático para a compra de máscaras e respiradores; 2) a pesquisa realizada entre o Governo do estado de São Paulo, o Instituto Butantã e a empresa chinesa Sinovac Biotech, para o desenvolvimento e testes de uma possível vacina. Além disto, a China forneceu mais de 7,5 milhões de máscaras cirúrgicas visando o enfrentamento da pandemia no Brasil.

Por outro lado, o mundo vê o aumento de tensões raciais e sinofobia, o que sugere que a imagem internacional do país poderá, sim, sair prejudicada ao fim do embate contra a Covid-19. O próprio China Institute of International Relations, um think tank associado ao Conselho de Estado da China, afirmou em relatórios recentes que a imagem internacional do país está tão prejudicada quanto o que ocorrera no contexto das tensões causadas pelos movimentos sociais de 1989.

Como no caso de outras crises, os países de renda média e baixa enfrentam maiores problemas para lidar com as dificuldades econômicas decorrentes, devido à três principais fatores: 1) menor espaço fiscal para a aplicação de medidas de estímulo à economia; 2) fuga de capitais que desestabilizam países em desenvolvimento*; 3) desigualdades regionais e deficiências estruturais de acesso à saúde e recursos, que tornam as populações carentes mais vulneráveis aos riscos da pandemia. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cerca de 1,6 bilhão de trabalhadores informais perderam 60% de sua renda e 55% da população global não está protegida por qualquer forma de assistência social.

Mapa demonstrando os países desenvolvidos e em desenvolvimento

A crise do coronavírus ressalta a importância da atuação do Estado na economia, através da promoção de políticas públicas de saúde, ciência e tecnologia, que permitem, por exemplo, a pesquisa de vacinas e medicamentos. Além disto, em contextos de crise, pacotes de estímulo econômico mostram-se essenciais, configurando políticas anticíclicas de caráter keynesiano e intervindo para estimular a demanda agregada e a criação de empregos. Adicionalmente, a atual crise reforça a necessidade de promoção de políticas industriais que permitam a redução de vulnerabilidades em países emergentes que não são capazes de produzir máscaras e respiradores em quantidade suficiente.

Pela perspectiva das autoridades chinesas é importante que seja promovida a diplomacia das máscaras, visto que a legitimidade do seu regime reside parcialmente na sua eficiência tecnocrática. Ou seja, é importante promover a imagem da competência do governo chinês em promover o bem público e o desenvolvimento no contexto doméstico e, desde a gestão do mandatário Xi Jinping (2012-2022), também no contexto internacional. É possível que a imagem da China saia muito prejudicada pela crise do coronavírus, mas um fato é quase inevitável: a economia global não poderá se recuperar sem o estímulo provido pelo setor produtivo e pelas exportações chinesas.

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Notas:

* A título de comparação, os países com os maiores números de casos da doença são os Estados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos apresentam 4,59 milhões de casos e mais de 155 mil mortes. O Brasil, por sua vez, apresenta 2,63 milhões de casos e mais de 91 mil mortes.

** A busca pela liquidez é um conceito da economia que define o movimento nos mercados de capitais no qual os investidores retiram o seu dinheiro e destinam essas somas para investimentos considerados de alta segurança e liquidez, normalmente compras de dólares e de títulos da dívida pública dos Estados Unidos. É corriqueiro que os capitais saiam de mercados emergentes em contextos de crise. No Brasil estima-se que tenha havido a retirada de US$ 50,9 bilhões nos últimos 12 meses, aproximadamente, 265,74 bilhões de reais, conforme a cotação de 31 de julho de 2020. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem de uma mulher de origem asiática usando máscara cirúrgica” (Fonte):

https://pixabay.com/pt/illustrations/coronav%C3%ADrus-china-m%C3%A1scara-m%C3%A9dico-4910360/

Imagem 2 Mapa do mundo demonstrando os casos de coronavírus” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/26/World_map_of_total_confirmed_COVID-19_deaths_per_million_people_by_country.png

Imagem 3 Máscaras utilizadas no combate ao Covid19” (Fonte):

https://pixabay.com/pt/photos/face-mask-covid-19-epidemic-5024710/

Imagem 4 Mapa demonstrando os países desenvolvidos e em desenvolvimento” (Fonte):

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Developed_and_developing_countries.PNG

About author

Mestrando em Estudos Contemporâneos da China pela Renmin University of China (RUC) e pesquisador afiliado pela Silk Road School. Mestre em Relações Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2016.
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