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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Discurso de Assad é interpretado como manobra para isolar Oposição e manter Regime

Bashar al-AssadNo domingo, dia 6 de janeiro, o presidente sírio Bashar al-Assad realizou discurso em Damasco sob aplauso de seus apoiadores no qual manteve a linha adotada até o momento, a qual tem sido resumida pela grande maioria dos analistas internacionais nos seguintes pontos: (1) a rebelião é uma ação construída por interferência estrangeira; (2) os rebeldes são manipulados pelo exterior e tem infiltração de terroristas; (3) a resposta do governo é dada contra os atos dos terroristas no país; (4) deve ser realizada uma transição política, sem interferência externa e (5) não vai renunciar ao poder, havendo a pretensão de o governante ou seu Governo ser o condutor do processo transitório.

O discurso incomodou os grupos opositores e as potências ocidentais que desejam a mudança de Regime, uma vez que a crise síria tem conseqüências regionais e, embora ainda esteja circunscrita ao território sírio, com alguns lances de expansão para outros países, ela poderá se alastrar pelo “Oriente Médio” e gerar outra crise global.

 

As fontes de notícias internacionais esperavam que o aparecimento do mandatário tinha como meta amenizar a situação, já que antes havia sido anunciado que seria apresentada uma proposta de transição. Assad foi rígido em seu discurso e não poupou os adversários. Declarou explicitamente que os rebeldes são “inimigos da população e inimigos de Deus[1], já que existe um movimento terrorista, tanto que afirma haver infiltração da “Al Quaeda” na Rebelião.

Além disso, que não há revolução em seu país pois, “para tanto, seria preciso haver pessoas pensando e uma ideia na qual se baseassem. (…). É preciso um líder para uma revolução. Quem é o líder dessa revolução?[1]. Como Assad parte do princípio de que os rebeldes são marionetes do Ocidente, ele manteve a postura de convocação da população para continuar o enfrentamento aos opositores que apenas representam essa intervenção externa.

Ontem, terça-feira, dia 8 de janeiro, o ministro de Informação, Omran al Zubi (ou Omrane al-Zohbi), apresentou declaração convidando as forças opositoras a participarem de um diálogo nacional para encerrar a crise política na Síria. Segundo disseminado, será formado um Comitê para ligar todas as forças políticas e iniciar o diálogo, sem explicar no que ele consiste, nem o significado desta ligação que o Comitê deverá fazer.

Para os que acreditavam numa mudança de rumo em relação às declarações presidenciais, foi estabelecido como fundamento para começar qualquer negociação que se aceite a rejeição a toda e qualquer interferência externa, bem como o respeito à soberania do país . Nas palavras de Al Zubi, “um diálogo com base no respeito à soberania nacional e na rejeição a toda forma de intervenção externa[2].

De forma simplificada, tal proposição foi um eufemismo para a exclusão dos grupos opositores que combatem dentro da Síria, bem como dos grupos organizados no exterior (o “Conselho Nacional Sírio” – CNS; o “Observatório Sírio dos Direitos Humanos” – OSDH; a “Coalizão Nacional de Forças da Revolução e Oposição Síria” – CNFROS; o “Exército Livre da Síria” – ELS; os “Comitês de Coordenação Local” – CCL)[3], ou seja, de todas as forças de oposição que desejam a substituição do Regime e estão em combate ou em constante processo de organização desde a eclosão da Crise em março de  2011, embora as manifestações tenham iniciado em 26 de janeiro do mesmo ano.

A intenção de excluir estes grupos pode ser confirmada com a declaração de que o convite para o diálogo se dirigia “a todas as forças de oposição[2] que aceitam os princípios levantados de “respeito à soberania síria” e “recusa à interferência externa”. Para o ministro, o diálogo a ser instaurado é um dos passos do plano proposto por Assad de restaurar a Paz em três fases, as quais podem ser resumidas da seguinte forma[4]:

(a) encerrar a provisão de armas e apoio financeiro do exterior aos grupos que ele denomina como “terroristas”, seguido nesta fase do encerramento das operações por parte do Exército, para de então permitir o retorno das forças deslocadas. Ou seja, os rebeldes devem depor as armas para que o Exército possa cessar fogo e retirar as tropas dos campos de combate. Sem isso o Governo não cessará a repressão. No próprio discurso de domingo Assad afirmou: “Os países envolvidos devem se comprometer a não seguir financiando as armas, e os homens armados devem deter qualquer operação terrorista. Então, nossas forças cessarão imediatamente as operações militares, mantendo o direito de responder[5].

(b) Encerrada a violência, convocar uma conferência global para estabelecer diálogo nacional que levará a elaboração de uma Constituição e depois implantação de um Governo consensual transitório.

(c) o Governo assim constituído convocaria eleições parlamentares, que seriam seguidas de uma anistia geral e posterior recuperação do país, apresentado por ele como sendo a reabilitação das infraestruturas danificadas.

Imediatamente após estas declarações, os observadores consideraram a proposta como incapaz de ser efetivada, bem como de obter consentimento da Oposição. Pelos termos apresentados, estão excluídos da consideração como opositores todos os grupos rebeldes que se levantaram contra o Governante, mesmo que eles não tenham unidade programática, política, religiosa, cultural e ideológica e os una apenas o desejo de substituir o Regime (configurado diretamente na derrubada de Assad). Ademais, não há garantias de que os grupos seriam massacrados pelo governo, neste momento em que não haveria contraposição bélica.

Guerra Civil SíriaApenas Governo iraniano e a líder francesa Marine Le Pen, da “Frente Nacional” (conceituada pelos observadores políticos como a extrema direita da França) se manifestaram em apoio ao discurso de Assad. Em declaração oficial, os iranianos consideraram que o Mandatário sírio solicitou um diálogo nacional e apresentou um mapa do caminho pacífico. Até o momento, os periódicos e a mídia em geral não apresentaram artigos e detalhamentos sobre a posição russa e da China, os mais importante poderes a impedir que haja interferência ocidental na Síria.

Segundo afirmou o ministro iraniano das Relações Exteriores Ali Akbar Salehi, “A República Islâmica apoia a iniciativa do presidente Assad para uma solução global para a crise. (…). O plano rejeita a violência, o terrorismo e as ingerências estrangeiras, e propõe um processo político global[5] (Na Reuters a declaração foi traduzida como “Esse plano rejeita a violência, o terrorismo e qualquer intervenção estrangeira no país, e destaca um futuro para o país… através de um processo político amplo[6]).

Marine Le Pen, por sua vez, mantendo a tradição do discurso nacionalista característico do seu espectro político afirmou: “Nós lutamos em França pela soberania do povo francês, mas defendemos igualmente a liberdade, a soberania e a identidade de todos os povos do mundo. Por isso, acreditamos que devem ser eles a decidir o seu destino. (…). Achei que através da diplomacia poderíamos encontrar um caminho para o diálogo, mas não foi o caso. As potências ocidentais fizeram a mesma coisa que na Líbia, mas de maneira secreta. A realidade é que contribuímos para aconselhar os rebeldes, servimo-nos dos nossos aliados do Qatar e da Arábia Saudita para os armar e hoje estamos perante uma guerra civil em que, evidentemente, as populações são as primeiras vítimas[7].

A reação do Ocidente, excetuando-se casos excêntricos como o de Le Pen, foi de imediata repúdio ao discurso de Assad e à proposta apresentada pelo Governo. Victoria Nuland (porta-voz do Departamento de Estado dos EUA) declarou: “é fora da realidade… mais uma tentativa do regime sírio de se manter no poder[8]. A “União Europeia”, a “Grã Bretanha”, a Turquia e Israel reagiram da mesma forma e solicitaram a renúncia de Assad, convergindo todos para a avaliação de que a Assad e seu regime desejam ganhar tempo e se manter no poder.

A “Coalizão Nacional” síria considera que o Presidente quer em realidade inviabilizar qualquer acordo que possa levar à mudança de Regime e o correspondente da BBC, James Reynolds, citado pelo portal G1, considerou que Assad repetiu os mesmo argumentos centrados em dois pontos: “O primeiro é o de que a oposição é liderada por terroristas estrangeiros e deve ser derrotada. O segundo, é o de que o seu próprio governo está disposto a promover reformas[8].

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também foi severamente crítico. Segundo o porta-voz das “Nações Unidas”, Martin Nisirky, o Secretário declarou acerca do discurso que ele “não contribuiu com uma solução que iria encerrar o terrível sofrimento do povo sírio. (…). O discurso rejeita o mais importante elemento do Comunicado de Genebra de 30 de junho de 2012, literalmente uma transição política e o estabelecimento de um governo de transição com poderes executivos plenos que iria incluir representantes de todos os sírios[9].

Depois das manifestações do Governo Assad e das respostas do Ocidente, a situação permaneceu a mesma. A violência e os combates continuam e vem se intensificando com constantes casos de morte tal qual foram anunciadas pela imprensa internacional (com ao menos 37 ocorridas ontem[10]) e com os combates se desenvolvendo em várias localidades do país[11] [12].

Os ingleses apresentaram a alternativa de um encontro a ser realizado hoje, (quarta-feira, dia 9) e amanhã (quinta-feira, dia 10), para tratar da transição do Regime sírio. Segundo divulgado, será uma reunião fechada à imprensa, com a presença de especialistas em mediação de conflitos (resolução de conflitos), de diretores da Coalizão opositora síria, de representantes de alguns países árabes e de membros de agências multilaterais[13]. O local divulgado é o centro de conferências “Wilton Park”, na região sul da Inglaterra (Sussex).

Analistas não crêem que haverá progressos nesta reunião, pois avaliam que o ponto central está no apoio que o Assad recebe das duas potências no “Conselho de Segurança da ONU” (CS da ONU): a Rússia e a China. Além disso, são dois os aspectos que geram impasses insolúveis: (1) a questão do afastamento do Presidente e (2) o problema da fragmentação da oposição, especialmente entre os grupos armados que combatem o Governo Assad.

Há vários relatos e informações disseminadas na mídia de que, apesar de o Presidente usar o termo terrorista de foram inadequada para a Oposição, há infiltração real de membros da “Al Qaeda” entre os grupos que oferecem confronto armado, razão pela qual o Ocidente tem resistindo em fornecer armamentos capazes de enfrentar as tropas governamentais em igualdade de condições.

Nesse sentido, o discurso do Presidente e a proposta do Governo vem sendo interpretados quase que exclusivamente como manobras estratégicas para ganhar tempo, acreditando que a força dos opositores poderá ser esvaziada e, dessa forma, ser mantida a atual condição do Regime, embora não se exclua a saída do líder, mas em condições que lhe garantam privilégios ou evite colocá-lo sob riscos, bem como aos seus mais próximos apoiadores.

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Imagens:

* Fonte – Wikipédia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bashar_al-Assad

 

** Fonte – Wikipédia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/em-raro-discurso-bashar-assad-convoca-sirios-para-a-luta

[2] Ver:  

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/01/governo-da-siria-convida-oposicao-para-o-dialogo-proposto-por-assad.html

[3] Ver uma explicação concisa e precisa sobre estes grupos, exceto o CNFROS em:

http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/oposicao-siria/

[4] Este resumo encontra-se de outra forma em:

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/damasco-convida-oposicao-siria-a-participar-de-dialogo-nacional-pela-paz,48cf5fd65661c310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

[5] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/01/ira-apoia-plano-proposto-por-presidente-da-siria-para-encerrar-crise.html

[6] Ver:

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2982606&seccao=Europa

[7] Ver:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE90600520130107

[8] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/eua-condenam-discurso-e-plano-de-paz-de-assad.html

[9] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/01/secretario-geral-da-onu-critica-discurso-do-presidente-da-siria.html

[10] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/01/rebeldes-derrubam-helicoptero-do-regime-na-siria-diz-oposicao.html

[11] Ver:

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2013/01/08/interna_mundo,416822/siria-combates-se-espalham-por-duas-cidades.shtml

[12] Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/disturbios-no-mundo-arabe/forcas-da-siria-executam-15-pessoas-em-povoado-do-norte-do-pais,0c8b5fd65661c310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

[13] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/01/reuniao-na-inglaterra-vai-preparar-siria-para-possivel-pos-assad.html

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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