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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Distribuição de renda na China e o futuro econômico do país

A China vive um momento econômico de muitos méritos, sendo o centro das atenções na economia global. Apesar disso, o país também é interpretado com dúvidas por parte de analistas internacionais e também por parte de analistas do seu governo quando o tema é o crescimento. A China carece de reformas políticas e econômicas, uma necessidade complicada de ser realizada, porém, mesmo sem elas, seus objetivos já estão estabelecidos e uma reformulação da distribuição de renda no país é o ponto inicial para a readequação da economia chinesa.

 

O Governo espera melhorar o quadro de distribuição de renda, pois com todo o potencial econômico que conquistou nos últimos 10 anos (tornando-se a segunda maior economia mundial) ela não foi bem distribuída pelos bilhões de habitantes, algo que preocupa o Estado em termos de segurança, bem-estar e também para a manutenção da economia com toda a sua pujança no médio e longo prazos.

 Desde o ano de 2007, o Governo está arrecadando grandes cifras por meio dos impostos normais e outras tributações internas, além do comércio internacional. Conforme o gráfico, de 2010 para 2011, a China teve uma receita que se elevou de 7,3 trilhões para 9 trilhões de yuans, um crescimento de 22,6%. Os números são positivos, porém o “bolo” não foi bem repartido, fazendo crescer a distância entre ricos e pobres no país.

Com isso, a maior parte da população se enquadra como classe “média” e “pobre” e, sem ter recursos financeiros “confortáveis”, as famílias não conseguirão consumir adequadamente, algo necessário para manter a estabilidade sócio-econômica do país.

Em entrevista ao “China Daily”, o diretor do “Social Development Research Institute under the National Development and Reform Commission”, Yang Yiyong, declarou: “Se famílias de baixa renda não podem pagar um padrão de vida decente, as famílias ricas não apreciarão qualquer sensação de segurança. Isso é um problema para o mundo, não apenas na China”*.

Beijing tenta descobrir uma maneira para distribuir a renda no país atendendo os 1,3 bilhões de cidadãos. Yang afirmou que as Agências governamentais de nível central e local trabalharão em uma Legislação para a “redução de impostos para a população” e para “regular os salários dos executivos” das industrias com ganhos elevados, bem como os das empresas privadas, do monopólios e demais corporações.

As autoridades responsáveis por este trabalho deverão analisar a atual situação do povo chinês, tanto o urbano como o rural. Observar suas carências, “poder de consumo”, “educação financeira” e outros pontos que avaliem a participação destas famílias no cenário econômico do país. Um quadro sobre essa desigualdade deverá ser elaborado, podendo mesmo ser utilizado o “Coeficiente de Gini” para medir a desigualdade de renda atual[1].

Tendo levantados todo os dados necessários, a distribuição de renda deverá ganhar meios legais para efetivá-la, ou seja, haverá Leis que possibilitarão a “redução dos impostos” e a “regularização dos salários e afins”, conseguindo o ajuste dos interesses, algo considerado fundamental. O presidente do “Instituto para a Reforma e Desenvolvimento da China”, Chi Fulin, questionando a liberação do quadro de Gini e das leis de aprovação do Programa, afirmou: “a questão crucial é se as agências governamentais estão dispostas a reorientar os seus próprios interesses e entregar os seus privilégios”*.

A autoridade afirmou que o capital do Estado e suas receitas devem ser utilizadas como fonte de bem-estar social e as operações estatais devem contribuir mais para isso. Sendo assim, o país já iniciou seu processo de distribuição de renda, por meio do aumento do salário mínimo.

O “12º Plano Econômico Qüinqüenal de Beijing foi anunciado com o aumento anual do salário mínimo chinês em 13% ao ano até o ano de 2015, sendo aplicado em todas as províncias chinesas. Com esta medida, o Governo espera que a população chegue a obter uma estabilidade social. Não houve apenas o aumento do salário, mas também a “isenção do imposto de renda” para rendimentos até 3,5 mil yuans, um montante em torno dos R$ 1.155,00. Antes eram aplicados para os que atingiam até 2 mil yuans.

O tema “distribuição de renda” na China está em um nível muito alto de consideração, sendo a grande pauta do Governo neste ano. As soluções oferecidas pelos formuladores de políticas resumem-se em “ir à raiz do problema”, conforme apontou Chen Shaohua, uma estatística sênior do “Grupo de Pesquisas Econômicas do Banco Mundial” em Washington.

Para ela o país deve se prevenir da pobreza a qualquer custo, citando o Brasil como exemplo, especificamente o “Bolsa Família”. No programa brasileiro, segundo afirmou, o Governo do Brasil paga cerca de US$ 120 por mês para famílias de baixa renda se eles enviam seus filhos à escola. Ela enfatizou que esse Programa trouxe contribuições significantes para o Brasil.

A China ainda está trabalhando com metas maiores sobre o tema, mas, as atuais medidas, destacando-se o “aumento de salário”, não gera preocupações para os chineses, mas para os estrangeiros que investem no país.  Esse é o tema do livro de Shaun Rein, “O Fim da China Barata” (“The End Of Cheap China”). O livro diz: “Está ficando mais caro produzir na China, porque há mais oportunidades de trabalho”**.

No livro, um dos temas pesquisados pelo autor é o fato de os jovens recém-formados ganharem menos que as pessoas sem qualificações superiores que trabalham na indústria. Segundo destaca, “as mudanças do estilo de crescimento e as políticas governamentais concedendo maiores direitos aos trabalhadores vão criar uma força inflacionária mundial”**. Se assim for, o grande atrativo que a China tinha há 10 e 20 anos atrás, que era a “mão-de-obra barata”, está acabando, por isso, muitas empresas que investem no país estão buscando novos horizontes para centralizar suas produções, como são os casos do Vietnã, da Indonésia e da Malásia, que têm o “salários mínimos” cerca de 30% menor que o “salário mínimo” chinês.

Nos cinco continentes, os especialistas econômicos e a imprensa analisam os fatos e os números chineses. Alguns acreditam que o país se torne inviável para os investimentos estrangeiros no futuro. Outros têm dúvidas sobre o seu crescimento econômico nos próximos anos, bem como sobre a sua capacidade de se manter com uma média de crescimento maior que 6,5 a 7 % ao ano. Todas as avaliações com base nos números e a fuga de algumas empresas da China para países mais baratos podem ser válidas, porém, vários dos observadores esqueceram dos reais planos do governo chinês que transpareceram.

A China se transformou de um país fragilizado economicamente para uma super potência econômica. Realizou processo semelhante ao do Japão no pós-segunda guerra mundial (pós – 1945), da “Coréia do Sul” durante o período da “Guerra Fria” e dos “Tigres Asiáticos” a partir da década de 1990. Todos estes países da Ásia tiveram suas aberturas econômicas baseadas na mão-de-obra barata, se estabilizaram economicamente e, hoje, alguns são referências mundiais em tecnologia, tendo o destaque para o Japão e sua “Revolução Tecnológica”, que é a mais confiável e elogiada na atualidade.

Vários avaliadores da política econômica chinesa preferem compará-la com alguns países emergentes atuais a fim de ilustrar de forma mais segura o que se passa com os chineses. O Brasil, por ser um dos grandes parceiros comerciais de Beijing e um importante concorrente, freqüentemente é foco dessas comparações. Como muitos apontam, o país sul-americano vem atraindo cada vez mais investimentos estrangeiros, o seu mercado consumidor está estável e detém potencial de crescimento ainda não muito explorado.

Esses pontos são significativos, mas o que não se vê em muitos artigos sobre o tema é que grande parte dos investimentos no Brasil partem da China e os brasileiro ainda têm de reformular toda sua infra-estrutura e construir sua condição de “bem-estar” social.  Podemos considerar como mais adequadas as palavras de Cristiano Korbes, “diretor de projetos internacionais” da Abicalçados, quando diz que “o Brasil precisa ainda resolver questões de estrutura, logística, e esse esforço a China já fez”**.

Hoje, os analistas que tentam compreender comparativamente o fenômeno chinês, têm de avaliar os objetivos e necessidades chinesas, começando pela sua “política verde”, que não é tão simples como alguns observadores apresentam, pois a China não quer apenas ser um país de “tecnologia limpa”, mas também ser o maior no setor e uma das grandes referências tecnológicas nesta área. O país já anunciou a redução do seu crescimento anual, para abaixo dos 8% ao ano, isso em virtude de sua política de preservação do meio ambiente e para reformular o “bem-estar” da população.

Atualmente, não precisa se preocupar com sua estrutura portuária, aérea e dos transportes em geral, pois já está em um nível que pode suportar mais do que a atual produção. O país agora trabalha com a reformulação do seu “Produto Interno Bruto” (PIB), atuando na distribuição de renda e investindo em seus produtos, especialmente no que tange as suas “marcas”, para se aproveitar do maior mercado consumidor do mundo: sem redundância, do próprio “mercado chinês”.

O presidente do “Instituto para a Reforma e Desenvolvimento da China”, Chi Fulin, ainda afirmou: “Após 30 anos desde a reforma que estabeleceu a sua abertura, o país está enfrentando uma segunda rodada de reformas do mercado, sendo impulsionado pela justiça e sustentabilidade, que é mais desafiador (…). O consumo vai ser uma grande força para manter o rápido crescimento econômico nos próximos 10 ou 20 anos, e reduzir o fosso de renda é uma pré-condição para liberar o potencial de consumo ótimo”*.

Enquanto alguns analistas comentam sobre o crescimento chinês e a fuga de investimentos, o país parece caminhar dentro do pretendido quanto ao seu mercado interno. O nível de confiança dos consumidores chineses sobre suas marcas e produtos subiu muito em relação aos anos anteriores. Uma pesquisa realizada pela Nielsen, que avalia o mercado internacional, apresentou dados demonstrando que no primeiro trimestre deste ano (2012) o nível de confiança dos consumidores da China atingiu o ponto mais alto desde o ano de 2005.

Os dados da empresa indicam que o país ficou em “quarto lugar” no “ranking mundial[2]. O mais importante da pesquisa é que o consumo na área rural está mais alto que nas metrópoles, ou seja, em áreas rurais ou com menor desenvolvimento é difícil haver concorrentes para os produtos de origem chinesa.

Yan Xuan, presidente da “Nielsen Greater China”, afirmou que as medidas do Governo estão sendo fundamentais para essa evolução do consumo interno. Os programas de subsídios e pensões rurais, entre outros, estão contribuindo para que o consumidor rural produza com qualidade e tenha recursos para consumir os bens industrializados e demais produtos fabricados em solo chinês. Na China, mais de 3.500 consumidores urbanos e rurais foram ouvidos na pesquisa e atingiram uma pontuação acima de 100. Pelos parâmetros da empresa, quaisquer resultados acima desta marca são considerados como “bons”, abaixo dela são considerados “péssimos”.

Com essas mudanças na economia, com o aumento da confiança do consumidor chinês, aumento do consumo doméstico e com as evoluções industriais, acredita-se que nos próximos anos o país poderá ter dados mais expressivos do consumo interno na formulação do seu PIB.

Hoje, temos empresas chinesas se expandindo, como a Lenovo, a “JAC Motors”, a Chery, a Huawei, entre várias que disputam mercado com gigantes corporações de maior tradição nos mercados fora do país. A tendência é que elas venham a investir mais no marketing interno para serem unânimes em seu próprio território.

Observadores apontam que com uma “visão mais ampla” e focando em particular seu “mercado interno”, somados de seus investimentos em tecnologia industrial e “verde”, a China certamente passará a reformular sua distribuição de renda interna e incentivar os produtos “Made in China” dentro de seu próprio território para manter o crescimento, associado ao desenvolvimento.

Tendo concretizado esses objetivos, não será surpresa o país apresentar dados de crescimento e de desenvolvimento expressivos em vários setores, contribuindo para a manutenção e estabilidade da economia. Ademais, com o mercado doméstico aquecido o país pode atingir um nível acima da condição de ser um país exportador de produtos industrializados, podendo se tornar um país exportador de marcas e uma referência mundial em tecnologia e qualidade.

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[1] O “Coeficiente de Gini” foi desenvolvido pelo matemático italiano Corrado Gini. Ele é usado como um parâmetro internacional para medir a desigualdade de distribuição de renda entre os países. Atualmente, o Brasil, por exemplo, utiliza deste sistema para medir sua distribuição de renda. Na China, ele foi utilizado pela última vez no ano 2000, quando o índice foi de 0,412, um nível “agradável”, uma vez que, de acordo com os parâmetros deste sistema, se o resultado foi próximo de 0,5, indicando que a situação do país não é crítica.

[2] Realizando a pesquisa em 56 países e várias regiões, quem se encontra no topo da lista são os consumidores da Índia. A pesquisa levanta também dados interessantes, apresentando informações que demonstram estar Governo esfriando o mercado imobiliário, investindo em pequenas e médias empresas (por meio de facilidades no acesso ao crédito) e estimulando o consumo doméstico.

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Fontes:
* VerChina.gob.cn” / “China Daily” (Dados macro econômicos do Governo chinês emChina.gob.cn”)
http://english.gov.cn/2012-05/23/content_2143350.htm

** VerBBC Brasil” (Citado FOLHA SP):

http://www1.folha.uol.com.br/bbc/1097716-aumento-de-salario-minimo-ameaca-competitividade-chinesa.shtml

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Ver tambémNielsen”:
www.nielsen.com

Ver tambémCRI”:

http://portuguese.cri.cn/661/2012/05/18/1s151272.htm

 

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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