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Dívida Pública e a Ilusão Europeia

Existe a crença de que a Europa é um continente próspero, onde a riqueza está bem distribuída e os serviços sociais são funcionais e eficientes, não havendo grandes problemas sociais de origem econômica. Salvo alguns países considerados periféricos dentro do próprio Bloco Econômico – tais como Portugal, Espanha, Grécia, Romênia, Bulgária, Hungria etc. –, existe uma visão generalizada de estabilidade política e econômica, refletida na excelente infraestrutura que há no continente europeu e na aparente organização que vemos em suas cidades.

Mas a realidade dista bastante dessa visão idílica apresentada nos filmes, jornais, séries e revistas. A Europa enfrenta uma série de problemas desde o colapso da Crise Financeira Internacional, que se alastrou pelo continente, revelando os problemas estruturais e econômicos presentes desde sua formação, e que se intensificam perante a crescente fragmentação do Bloco.

Embora a União seja importante para os países membros e para seus sócios vizinhos, a mesma projeta ao mundo uma visão de uniformidade que somente ocorre no plano jurídico e nos Tratados e Projetos de Integração, já que os dados econômicos e sociais dos países membros revelam as desigualdades que existe no Bloco Europeu, e que a Comunidade Internacional não deveria negligenciar, mas analisar em profundidade.

Recentemente, a Espanha – 5ª maior economia da União Europeia – publicou os dados sobre sua dívida pública e a mesma supera os 99% do PIB, o que levaria o país ao colapso financeiro se não fossem os contínuos fluxos vindo da União Europeia e os dividendos de seus investimentos nos países latinos e na Ásia. A situação da Espanha é muito parecida a de outros Estados da União, como por exemplo, a França, que possui uma dívida de 95% do seu PIB, e a Itália, com mais de 132%, sendo poucos os exemplos de países que mantém as dívidas em patamares adequados.

Assim mesmo, um número alarmante de europeus vive ameaçado pela pobreza. Mais de 120 milhões de pessoas possuem ingressos menores do que a média nacional necessária para sobreviver, havendo 27 milhões de crianças em situação de risco elevado, que dependem dos serviços sociais para completar sua alimentação e ter acesso aos serviços básicos.

O desemprego médio na região está próximo dos 10% e a atividade produtiva se mantém desigual e decrescente em alguns países, existindo denúncias de dumping salarial dentro do Bloco, o que gera a constante migração de empresas e o aumento das desigualdades. A dívida privada também é um fator que incomoda as grandes instituições financeiras, já que grande parte dela está atrelada a importantes Bancos, produzindo o risco de uma nova onda de falências, caso a região não alcance um novo ponto de equilíbrio.

Ainda assim, a União Europeia continua com o crescimento positivo do PIB, fator este que anima os investidores e agências de classificação, que projetam uma visão distorcida da economia do Bloco. Certo é que alguns países realmente estão crescendo, devido a sua distância em termos de desenvolvimento dos outros países da União, e há outros que até mesmo superaram parcialmente a crise, mas grande parte do crescimento da economia europeia, atualmente, se deve aos reajustes realizados ao longo destes anos e ao enrijecimento da política fiscal da região ditados pela Alemanha e liderados pelo Banco Central Europeu.

As ajudas e resgates econômicos concedidos aos países do Mediterrâneo também contribuem com essa aparente estabilidade, além dos fundos de integração concedidos aos novos membros.

A Europa construiu um discurso de estabilidade e prosperidade que foi aceito e difundido pelo mundo. Sua integração inspirou a criação de diversos Blocos, mas as assimetrias vigentes e a ameaça que paira sobre a mesma, com países que questionam sua permanência e suas políticas, podem, aos poucos, retirar o véu que cobre seus problemas, revelando ao mundo à outra face da prosperidade europeia.

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ImagemFavela El Gallinero’, em Madrid” (Fonte):

http://4.bp.blogspot.com/-Bo6Gmq7msx0/Tiieb7hic1I/AAAAAAAAEjc/PbiiIl3_hPE/s1600/5.jpg

About author

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.
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