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Documentos secretos: a histórica relação Estados Unidos – Israel

As denúncias e o vazamento de documentos secretos das Agências de Inteligência dos Estados Unidos, promovidas pelo “whistleblowerEdward Snowden, ex-analista funcionário de empresa contratada pela National Security Agency (NSA, na sigla em inglês) contribuíram para a comunidade internacional compreender, em parte, os movimentos das relações entre os Estados e como estes se comportam diante das diretrizes que permeiam seus interesses.

Com o advento de mais um conflito árabe-israelense na Faixa de Gaza, novos documentos divulgados recentemente elucidam os primórdios das relações Estados Unidos – Israel na esfera de Inteligência e Defesa e como se desenvolveram os programas para conter possíveis ameaças aos dois territórios.

Um memorando do ano de 1999, contendo 16 páginas e classificado como “Top Secret” detalha os Programas de Inteligência Conjunta entre Washington e Tel-Aviv. De acordo com o documento, Lyndon Johnson (1961-1963) e o então Primeiro-Ministro Levi Eshkol assinaram em 1968 um arranjo para cooperação na área de Inteligência que teria o envolvimento de outros órgãos de ambos os Estados na contenção de ameaças externas. Nessa conjuntura, fariam parte do Programa a Defense Intelligence Agency (DIA, na sigla em inglês), o Department of Defense (DoD), o Directorate of Military Intelligence (DMI) e as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês).

Ao longo dos anos, o Programa foi ampliado e reforçado de acordo com o propósito de enquadramento das crises e demandas que surgiam como ameaça ao equilíbrio do sistema internacional, principalmente na região do Médio Oriente, onde Washington destinava seus esforços para conter as tensões que envolviam os atores da região e ao mesmo tempo garantir a manutenção das exportações de hidrocarbonetos fundamentais para suprir a demanda de uma economia de alto nível industrial e com base no consumo de bens. Nesse sentido, ainda de acordo com o memorando, os fundamentos dessa cooperação bilateral entre Agências tornava-a restrita em um primeiro momento somente para ações de “contingência/crises”, analisadas caso a caso pelas autoridades no comando.

Os esforços de cooperação estratégica na aliança Estados Unidos–Israel ainda envolvem, segundo outra mensagem interceptada “Top Secret”, com data de abril de 2013, o fato de que a National Security Agency (NSA) mantém uma aproximação com os israelenses, através de um programa mais avançado de Inteligência e controle de crises, utilizando de ferramentas de interceptação, orientação, estudo da linguagem, análises diversas e relatórios técnicos. A NSA contribui de forma técnica e analítica em esforços conjuntos com um órgão do Governo sionista denominado Israeli SIGINT National Unit (ISNU, na sigla em inglês) que ainda incluem a Central Intelligence Agency (CIA, na sigla em inglês) e o Mossad.

As principais questões que envolvem esse “upgrade” nos programas de espionagem conjunta, de acordo com o documento, revelam uma intensa preocupação e centralização de esforços para conter as possíveis ameaças advindas do Oriente Médio, onde o terrorismo promovido por radicais islâmicos e também usado como arma de alguns Estados é o tema central para produção de ações preventivas no exterior.

Os monitoramentos, assim como as ações, são condicionados a países do Norte da África, Golfo Pérsico, Sul da Ásia e Repúblicas Islâmicas da antiga União Soviética e incluem interceptação das comunicações de Órgãos do Governo, militares, civis e de assuntos diplomáticos, bem como o acompanhamento dos serviços de segurança desses países no exterior. Todo o trabalho é feito por oficiais que conduzem funções nos departamentos de relações exteriores das Embaixadas.

O informe intitulado “NSA Intelligence Relationship with Israel” registra os eventuais ganhos que ambos os lados podem adquirir, dentre os quais acesso à tecnologia norte-americana para aprimoramento dos programas da ISNU por parte de Israel e vendas de equipamentos militares estadunidenses para as Forças Armadas israelenses. Em contrapartida, os Estados Unidos recebem acesso a dados geográficos confidenciais do SIGINT, assim como acesso à propriedade intelectual desse programa de engenharia e intercâmbio com os técnicos responsáveis pela ferramenta.

O resultado alcançado, ainda de acordo com o informativo, revelou retração no desenvolvimento do Programa Nuclear Iraniano, nos esforços nucleares da Síria, q interceptação de planos e intenções do grupo libanês Hezbollah e de palestinos e o acompanhamento de planos para deflagração de uma “Jihad Global”.

Entretanto, apesar dos esforços conjuntos e eventuais sucessos em operações clandestinas de espionagem e contra-inteligência, Estados Unidos e Israel, munidos de grande potencial bélico e estrutural no campo da Defesa, acabam sendo os precursores das animosidades e instabilidades vivenciadas ao longo das décadas no Oriente Médio. Nas palavras do colunista Kevin Drum, da publicação Mother Jones: “Os Estados Unidos tem tentado mediar a paz no Oriente Médio no últimos 20 anos…” (“The United States has been trying to broker peace in the Middle East for the past 20 years…”)[1].

Não obstante, mesmo com esse alinhamento histórico, a NSA, através de documentos revelados recentemente pelo jornal britânico The Guardian, atesta que uma das grandes ameaças na esfera dos serviços de inteligência vem de Israel, colocando Tel-Aviv, de acordo com o Relatório promovido pela agência norte-americana, como o terceiro país mais agressivo contra os Estados Unidos nos serviços de inteligência. De modo bastante incisivo, um oficial da inteligência britânica que não teve sua identidade revelada descreve Israel como uma “ameaça real a estabilidade da região” (“very real threat to regional stability”)[2],

Essa temática belicista denunciada por meio de documentos vazados gera grande tensão nas cadeias de causalidade que moldam o Sistema Internacional. Para os especialistas, é contraproducente calcular os rumos do Oriente Médio visto que há grande diversidade cultural, política, religiosa e pouco, ou quase nenhum capital político para investir em outras frentes de negociação, ainda mais que os dividendos adquiridos com a venda de armamento acarreta em grande lobby nas cercanias da política internacional.

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Imagem (Fonte):

http://images.thenews.com.pk/updates_pics/NSA-targets-Gaza-pumps-intelligence-Israel_8-5-2014_155901_l.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.motherjones.com/kevin-drum/2014/07/america-should-get-out-peacekeeping-business-israel

[2] Ver:

https://firstlook.org/theintercept/2014/08/04/cash-weapons-surveillance/

Ver:

https://firstlook.org/theintercept/document/2014/08/03/israel-us-1999-agreement/

Ver:

https://firstlook.org/theintercept/document/2014/08/03/nsa-intelligence-relationship-israel/

Ver:

http://www.cubadebate.cu/opinion/2014/08/05/articulo-de-fidel-castro-holocausto-palestino-en-gaza/#.U-E_E_ldUQx

Ver:

https://www.youtube.com/watch?v=IHSe9FRGpJU

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,antissemitismo-na-europa-imp-,1533673

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140804_escudo_antimissel_israel_jm_kb.shtml

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140730_analise_gaza_lk.shtml

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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