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Durante pandemia na AL e Caribe ricos aumentam fortuna enquanto maioria empobrece, diz estudos da Oxfam

Uma matéria da América Economia, de 13 de maio de 2020, baseada em estudos da empresa de consultoria Map Economic and Business Advisors, anunciava a pior contração da economia latino-americana dos últimos 40 anos. Três meses depois, estudos da Oxfam mostram que, enquanto os pobres perdem emprego e renda, os ricos enriquecem ainda mais durante a crise causada pela pandemia.

Segundo a América Economia, a Map Economic and Business alertava para o perigo de uma nova “década perdida” em razão da expectativa de queda da economia superior aos EUA e Europa e das perdas de 2015-2019, que comprometeram os ganhos do período anterior (2004-2014). Além disso, alertava sobretudo quanto à piora das condições de pobreza e aumento da informalidade.

De acordo com a Map, esta pode vir a ser a pior queda desde a Grande Depressão de 1930 (iniciada em 1929), uma vez que a economia da região é vulnerável a crises por ser fortemente dependente da variação dos preços das commodities, do ingresso de remessas do exterior, do financiamento externo e do turismo.

Excluindo a Venezuela, que está em crise há mais tempo, os países a sofrerem mais com a recessão serão a Argentina, o México, o Equador e o Brasil, nesta ordem. Juan Pablo Ronderos, Sócio-Diretor da MAP, declarou à América Economia que 70% das exportações da América Latina, excetuando o México, são de commodities, cujos preços tiveram forte queda, afetando em especial o Equador, Peru e Chile, que têm pautas exportadoras com mais de 85% de bens primários.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), por meio do seu Informe Especial Covid-19, de 15 de julho de 2020, previu um número de  44,1 milhões de trabalhadores desocupados, ou seja, cerca de 69% mais que em 2019 e bem mais que na Crise de 2008. Já um relatório da ONU, de 17 de julho de 2020, alerta para a ameaça de insegurança alimentar, que pode chegar a 269% na América Latina e Caribe.

O mais curioso, em meio a essa situação crítica, é saber que desde o início da pandemia, na América Latina e Caribe, a fortuna dos 73 bilionários da região aumentou em 48,2 bilhões de dólares, aproximadamente 261,32 bilhões de reais, conforme cotação de 17 de agosto de 2020, equivalentes a um terço do total dos pacotes de estímulo de todos os países da região. Quem afirma é a ONG Oxfam International, que informa ainda que, a cada duas semanas, surge um bilionário na região, desde março.

Capa do Informe da Oxfam

Os estudos da Oxfam International estimam que até 52 milhões de pessoas poderão passar a ser pobres, fazendo retroagir em 15 anos a luta contra a pobreza. Isso enquanto o patrimônio e privilégios dos bilionários geram US$ 413 milhões diários a cada dia, algo em torno de 2,24 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação. Segundo a Oxfam, os esforços dos governos para combater o coronavírus são boicotados pela desigualdade e pela corrupção, que tornarão ainda maior a brecha entre os mais ricos e os outros.

Em 2016, um artigo do jornalista Leandro Narloch, na Veja, questiona a metodologia de levantamento de dados da Oxfam, alegando haver vieses, mitos e omissões. Não sabemos se os critérios eram os mesmos em 2016, mas, na edição do Informe de 2020, a Oxfam apresenta uma Nota Metodológica de 12 páginas, na qual apresenta as fontes e explica como calcula os dados que embasam o seu estudo.

O receituário da Oxfam propõe aos governos, além de proteger a vida das pessoas, adotar algumas medidas fiscais mais imediatas: 1) Imposto extraordinário para grandes fortunas; 2) Pacotes de resgate para grandes empresas, porém com condicionalidades; 3) Impostos sobre resultados extraordinários de grandes corporações; 4) Imposto sobre a economia digital e; 5) Reduzir a carga tributária de lares empobrecidos.

Para a fase seguinte, de recuperação, a Oxfam sugere a adoção de sete medidas chamadas “reformas pendentes para aumentar a arrecadação tributária de modo mais igualitário. Ela parte de um princípio que tem sido defendido por diversas outras instituições, de que a pandemia afeta a todos e todas, mas que a crise não afeta a todos por igual. E as soluções, por conseguinte, não podem ignorar as desigualdades existentes, ainda que as métricas de medição possam ser questionadas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem no site do Fórum Econômico Mundial” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/amplify_video_thumb/1284045659348369409/img/Z34H1yfGBCsVhx1A?format=jpg&name=900×900

Imagem 2 Capa do Informe da Oxfam” (Fonte):

https://oi-files-d8-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com/s3fs-public/styles/default_image_extra_large/public/2020-07/Chicos%20con%20mascarillas_Rio%20de%20Janeiro_Brazil.jpg?itok=uxddqSJB

About author

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.
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