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Egito: a securitização do islamismo político e a decepção com a primavera

Derramamento de sangue durante limpeza de campos de protestos pró-Morsi[1]; líder da Irmandade Muçulmana, Mohamed Badie, é preso[2]; Egito prestes a julgar ex-presidente Morsi por incitamento a assassinato[3]; Egito fecha quatro estações de TV[4]; helicópteros atacam grupos armados no Sinai[5]; status legal da Irmandade Muçulmana sob ameaça[6]; sentenciamento de 11 partidários de Morsi à prisão perpétua[7]. Essas são algumas das recentes manchetes que buscam traduzir o turbulento cenário egípcio.

Conforme se depreende do vasto material disponível na mídia internacional, enquanto a segurança de civis é ameaçada pelo próprio Governo, a liberdade de expressão restringida e os tribunais passam a se ocupar de políticos ligados ao último governo, o mote que parece caracterizar essas medidas é a perseguição daIrmandade Muçulmana”, partido do ex-presidente Mohamed Morsi, deposto em 3 de julho deste ano (2013).

Mais do que isso, a caça à Irmandade parece fazer parte, ou englobar – difícil determinar qual propósito serve ao outro –, uma tentativa de erradicar o islamismo fundamentalista da política egípcia.* Como comenta o acadêmico Michael J. Koplow[8], embora Hosni Mubarak, ditador que governou o país durante 30 anos, não tenha permitido à “Irmandade Muçulmana” uma participação política formal, ele também não chegou a banir o grupo; ao mesmo tempo, o fato dessa possibilidade ser contemplada pelos militares que derrubaram Morsi e assumiram o controle do Egito demonstra o quão longe eles estão dispostos a ir.

Face ao governo da Irmandade, que dificilmente seguia os padrões de um regime democrático, e à recorrência à violência por parte de alguns membros do grupo; a resposta militar consistiu em uma retórica anti-islamâmica que agora atinge o maior patamar de radicalismo desde o golpe de 3 de julho, com as acusações de terrorismo enfrentadas pelos partidários do antigo governo[8][9].

Nesse quadro, os acontecimentos referidos no início fazem parte de uma política sustentada, nas palavras de Koplow, na securitização do islamismo, (i.e.) em que, ao associar aIrmandade Muçulmanaao terrorismo, permite-se ao novo governo justificar suas ações em nome da segurança nacional. Da mesma forma, o discurso securitizador angaria legitimidade ao governo, mesmo daqueles que outrora apoiavam Morsi[8].

No entanto, ao passo que as “Forças Armadas” tentam se promover como defensoras do povo contra o terrorismo, a rejeição popular a Morsi, que acaba por servir de apoio ao regime militar, tem suas raízes nas altas esperanças em relação à “Primavera Árabe”, que se tornaram frustrações a partir da percepção de que “a democracia fracassou em garantir empregos e justiça social [10].

Ainda assim, essas frustrações podem se ver novamente em desamparo em não muito tempo, uma vez que o autoritarismo agora válido em nome da segurança nacional pode dificilmente ser contido no futuro. Apesar das prometidas eleições para 2014, a política egípcia corre o risco, como destaca Koplow, de sofrer interferência militar, mesmo que por subrepticiamente, dificultando assim a construção de um regime democrático[8].

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ImagemPartidários de Morsi mantêm a pressão para que ele seja restituído” (Fonte):

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*Note-se que não nos referimos aqui a uma eliminação do islamismo do Egito, posto que o Islã é a religião dominante do país. O que o novo governo parece estar buscando é uma política secular [esses dois termos em negrito]. Assim, o anti-islamismo em questão não se opõe à religião em si, mas ao envolvimento do Islã na política.

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/uk-23792112

Ver também:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23691571

[2] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23763518

[3] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/23924145

[4] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23941208

[5] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/09/2013938581360646.html

[6] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/09/03/us-egypt-protests-idUSBRE9810EH20130903

[7] Ver:

http://www.washingtonpost.com/world/middle_east/egypt-court-bans-al-jazeera-tv-affiliate-and-3-others/2013/09/03/70328a7c-147b-11e3-b220-2c950c7f3263_story.html

[8] Ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/139872/michael-j-koplow/first-they-came-for-the-islamists

[9] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2013/08/18/State-media-Muslim-Brotherhood-supporters-face-murder-terrorism-probe-.html

[10] Ver:

http://www.washingtonpost.com/world/middle_east/egyptian-authorities-finalizing-hosni-mubaraks-release/2013/08/22/fb850a88-0b29-11e3-8974-f97ab3b3c677_story.html

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About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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