ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Egito três anos após as manifestações na Praça Tahrir

Neste Janeiro de 2014, o Egito completou três anos das primeiras manifestações na Praça Tahrir”, que levaram à derrubada do ditador Hosni Mubarak – no poder há praticamente três décadas. A queda de Mubarak pareceu representar, então, o maior sucesso do fenômeno que ficou conhecido como “Primavera Árabe”. Nesse meio tempo, o país passou por um governo de transição militar, por suas primeiras eleições democráticas, pelo primeiro presidente eleito democraticamente seguido de sua derrubada, por atritos sociais e uma grave crise econômica. Nos choques violentos entre o atual governo de Adly Mansour e a oposição apoiadora da “Irmandade Muçulmana”, o resultado conta com milhares de mortos. Observadores levantam a pergunta: o que será que o Egito pode celebrar?

Grupos políticos rivais planejaram uma série de protestos por todo o país em homenagem às revoltas de 2011. O atual Governo do Egito”, presidido por Adly Mansour, pareceu estar a favor das comemorações e disse que o público egípcio deve celebrar o aniversário. O “Ministro do Interior”, Muhammad Ibrahim, afirmou que medidas de segurança extra foram tomadas para garantir que nenhum ato de violência se intensifique, a fim de que a população não tenha medo de sair às ruas[1]

Simultaneamente, a denominada “Aliança Anti-Golpe” – liderada pela “Irmandade Muçulmana” – chamou seus seguidores para 18 dias de protestos, baseando-se nos 18 dias de revoltas que resultaram na renúncia de Mubarak. A “Irmandade Muçulmana” mantém protestos regulares desde que o ex-Presidente Mohammed Morsi foi forçado a sair do poder pelos militares, sob a liderança do general Abdel Fattah al-Sisi.

Um dos membros da “Aliança Anti-Golpe” residente da cidade do Cairo, Ahmad Nageeb, declarou para o jornal “Arabiya News” que o dia “25 de Janeiro” não pode ser celebrado sem que o verdadeiro espírito da Revolução seja regenerado. Segundo ele: “o dia 25 e Janeiro foi esquecido e nós estamos de volta à estaca zero. Nossos protestos não são permitidos e qualquer um que se oponha ao exército está sendo varrido do mapa. É por isso que devemos retomar o que a Revolução demandou inicialmente em 2011[2]

Outro grupo que planeja marcar presença nas ruas do Egito para este fim é o “Movimento Jovem 6 de Abril”. Fundado em 2008, o grupo representou uma das principais oposições a Hosni Mubarak e ficou conhecido por utilizar como ferramentas as mais variadas redes sociais. No atual “Governo Militar”, o grupo também tem sofrido com falta de liberdade de expressão. Seis de seus membros foram presos nos últimos dias por distribuir panfletos que chamavam para a “Terceira Revolução” no aniversário da “Revolta de Janeiro de 2011”.

A organização condenou as prisões em uma Declaração, na qual afirmou que a repressão da juventude por simplesmente distribuir panfletos é em si um convite claro para a rebelião contra as injustiças cometidas pelos atuais governantes[3].

Em meio às expectativas de celebração – por parte do Governo e da Oposição – das manifestações na “Praça Tahrir” em Janeiro de 2011, o Presidente deposto Mohamed Morsi passou por um julgamento nesta semana. Ele foi retirado do poder em julho de 2013 pelo Exército, que foi incitado por manifestações populares a atuar contra seus poderes na Presidência do país.

O movimento contra o primeiro Presidente eleito do Egito representou uma grande questão para a sociedade. Tendo sido apoiado – e pedido – por parte expressiva da população egípcia, o ato é considerado altamente antidemocrático. Por um lado, Morsi foi acusado de abuso de poder, repressão e violência, adicionando, ainda, o caráter islamita fundamentalista de seu partido político, o que significou grande ameaça para setores seculares da sociedade. Por outro, ele foi eleito democraticamente e sua deposição deixou um grande senso de injustiça para o Egito e para o mundo. Além disso, deixou uma enorme interrogação: estariam os militares garantindo sua estadia no poder?

Remontando à história do país, o primeiro “Golpe Militar” do Egito contemporâneo ocorreu em 1952, sob os auspícios do general Muhammad Naguib. Dois anos depois, Gamal Abdel Nasser o retirou do poder e se tornou uma das figuras de liderança mais aclamadas do mundo árabe. Após sua morte, em 1969, Nasser foi sucedido por Anwar Al-Sadat, assassinado em 1981 depois de assinar os “Acordos de Camp David” com Israel. Hosni Mubarak era o vice presidente de Sadat e esteve no poder desde então até o início de 2011, marcando quase seis décadas de regime militar no Egito.

Ao longo deste período, os militares tornaram-se um setor de especial importância no país, ocupando cargos públicos, regendo boa parte da economia e desfrutando de vantagens sociais.

Quando as manifestações contra Mubarak se intensificaram na “Praça Tahrir”, o Exército tomou uma medida quase inesperada: voltou-se para o lado da população pela renúncia do então Presidente. Assumiu o “Governo de Transição”, instaurou eleições parlamentares e, posteriormente, presidenciais.  Mohamed Morsi foi o vencedor, à frente da “Irmandade Muçulmana”, grupo de oposição que ganhou mais força e organização durante os anos do “Governo Militar” no país. Morsi ficou no poder por um ano, tendo assumido no dia 1o de julho de 2012 e deposto no dia 3 de julho de 2013. Desde então, a “Presidência do Egito” está novamente sob controle militar.

O atual Governo se afirma como sendo de transição. Em dezembro de 2013, um rascunho da nova Constituição foi aprovado pelos membros da Assembleia Nacional”. Na última quarta-feira, dia 29 de Janeiro, a Lei sobre as Eleições presidenciais foram alteradas por Mansour. O Presidente interino declarou que elas serão precedidas por Eleições parlamentares e a discussão a respeito do assunto poderá se estender até o dia 9 de fevereiro[4].

No julgamento que passou esta semana, Mohamed Morsi esteve encarcerado em uma cela de vidro à prova de som, sendo permitido que se dirigisse à Corte após levantar a mão. Logo no início do processo, Morsi seguiu gritando: “eu sou o Presidente da República, como posso estar sendo mantido em uma lixeira por semanas?[5]. A uma certa altura do julgamento, foi permitido que os jornalistas escutassem o que se passava na cela de vidro e os outros acusados começaram a cantar “abaixo com o regime militar![5]. Após este ocorrido o Juiz cortou o som[5]

Três anos após a histórica renúncia de Hosni Mubarak, conquistada pela população apoiada pelos militares, a questão que fica é se algum ganho realmente foi conseguido. Aparentemente, o setor militar conseguiu se manter no poder, reprimindo e censurando os partidos islâmicos de oposição, especialmente a Irmandade Muçulmana”. Este grupo, por sua vez, mantém seu papel de principal organização opositora, assim como o foi na época de Nasser, Sadat e Mubarak.

Deve-se destacar que Morsi também recebeu severas críticas por parte de uma série de setores populares, foi acusado de violência e assassinato. Ao longo de seu período na Presidência, as prisões por censura foram muitas, bem como a repressão da oposição à “Irmandade Muçulmana”. No entanto sua retirada do poder representou um golpe sobre o primeiro Presidente eleito na história do país e o Governo prossegue nas mãos do mesmo setor desde a “Revolução Egípcia de 1952”.

Atualmente, o Egito sofre com grave crise econômica, resultado principalmente da falta de investimento externo e da queda do turismo. Os setores populares estão altamente divididos e polarizados e a violência aumentou muito no país nos últimos anos, possivelmente como resultado não somente de embates políticos, mas também da crescente taxa de desemprego.

No entanto, não se pode esquecer o fato de que regimes democráticos são, na realidade, muito singulares em relação a cada pais e o Estado-Nação, em si, tanto quanto a idéia de “Estado Democrático de Direito” são fenômenos relativamente recentes na história do “Oriente Médio”. A conquista da Democracia, por sua vez, é realmente um processo que envolve desacordos, aprendizagem, busca por lideranças e briga pelo poder. Olhando em retrospectiva, o caso do Egito não seria tão anormal em seu primeiro processo de busca democrática por parte de forças populares. E, como se depreende das observações de grande parte dos analistas, possivelmente, a quebra do status quo do regime militar de seis décadas, passando pela experiência de primeiras eleições democráticas, pela formação de grupos politizados e por manifestações foram grandes conquistas, que podem ser vistas como primeiros passos que devem ser celebrados pela sociedade enquanto o começo de uma jornada muito maior.

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Imagem (Fonte):

http://www.theatlantic.com/international/archive/2013/04/former-tahrir-square-star-now-sings-against-morsi/274524/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25874370

[2] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/perspective/analysis/2014/01/25/Three-years-on-Egypt-has-little-to-celebrate-on-Jan-25-.html

[3] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContentPrint/1/0/92196/Egypt/0/Egypts-April–denounces-fresh-arrests,-warns-of-th.aspx

[4] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/92975/Egypt/Politics-/Egypt-presidency-puts-amended-presidential-electio.aspx

[5] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25924027

About author

Mestranda em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especializada em Relações Internacionais Contemporâneas (PUC-Rio). Com foco em política no Oriente Médio, participou da “The Israeli Presidential Conference – Facing Tomorrow” - sob os auspícios de Shimon Peres - nos anos de 2011 e 2012, tendo realizado outros cursos na área em Israel.
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