fbpx
AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Eleições venezuelanas tendem a esvaziar e destruir a estratégia de Maduro

A realização das eleições na Venezuela, ocorrida ontem, domingo, dia 20 de maio de 2018, pode acarretar em significativa perda política para o atual presidente venezuelano Nicolás Maduro, em seu projeto de continuidade no poder, ao menos até o início de 2025, já que esta eleição se deu para o mandato cujo início será em 2019, com duração de seis anos, mesmo que o pleito tenha ocorrido agora, no meio 2018.

O mandatário é contestado em várias instâncias nacionais e internacionais desde que assumiu o poder no país, afirmando-se ter ascendido ao cargo sob condições suspeitas, ou mesmo por meios fraudulentos na eleição que o galgou ao cargo em 2013, apesar de seus partidários afirmarem terem lhe dado votos suficiente, os quais permitiram-no chegar de forma legítima à função. A questão é que o pleito do qual participou foi visto pela Oposição, por analistas internacionais e autoridades de vários países como inadequadas ou frágeis, no que refere às exigências mínimas para garantir lisura, dentro de um regime democrático.

Nicolás Maduro

Neste momento, pelos dados disseminados na mídia e pelas declarações de autoridades e participantes do processo eleitoral, a história parece se repetir em termos de questionamentos, com mais elementos sendo colocados à mesa com o objetivo de apresentar que as eleições realizadas ontem, ao invés de legitimarem a presença de Maduro no poder, apenas deslegitimarão qualquer continuidade, tanto dele, o mandatário, quanto possivelmente do bolivarianismo no país.

O Governo venezuelano apresentou ao mundo como um critério respeitável para legitimação internacional do evento a presença de 200 observadores, dentre eles o ex-presidente da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero (Partido Socialista Operário Espanhol), e de personalidades, jornalistas e políticos europeus, como o ex-presidente do Senado da França, Jean-Pierre Bel (Partido Socialista), que ocupou este cargo entre 1o de outubro de 2011 e 30 de setembro de 2014, tendo sido o representante da Presidência da França para a América Latina durante o governo de François Hollande (também do Partido Socialista), o qual, por sua vez, deve-se destacar, vem sendo figura internacional de destaque na defesa do ex-presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva. Tais quais os nomes citados, há outros convidados de renome, que são personalidades respeitadas pelo governo Maduro.

Pelo que tem sido disseminado por segmento específico da mídia, os observadores estão centrando o foco na alegação do direito de o povo votar, com uma crítica indireta à recusa por parte dos opositores de participar do pleito. Tal argumento tem sido o mais usado por Zapatero, uma personalidade com alto grau de visibilidade, que tem se apresentado também como um partidário do diálogo e da abertura da Europa com o governo Venezuelano. Um outro ponto no qual estão focando é o sistema de urnas eletrônicas que, conforme afirmam estes observadores, está entre os mais seguros e avançados do mundo, e vários têm destacado que tal modelo de urna pode ser utilizado em muitos outros países.

Exemplificando a primeira situação, Zapatero afirmou, logo após reunir-se com Maduro: “Há setores da oposição que não vão votar, os respeito profundamente. Mas agora vai falar o povo da Venezuela. É bom que os cidadãos se expressem [nas urnas]. Isso trará, sem dúvida, novas possibilidades para esse país”. Além disso, mostrando suas convicções de que a Governo venezuelano irá retomar as negociações com a Oposição, declarou: “Falamos com o presidente sobre a possibilidade de abrir uma nova etapa do diálogo depois das eleições de domingo. Não detalhamos o lugar nem quem vai participar. Em minha opinião, a participação deve ser aberta”. E, referindo-se ao diálogo com a Europa, afirmou: “a necessidade de um diálogo mais fluído. (…). Depois do dia 21 de maio, esperamos que comece uma etapa de aproximação, na qual prevaleça o diálogo em vez das sanções. (…). Uma pergunta que já fiz várias vezes é: por que a Europa dialoga com o Irã, por que é partidária do diálogo, e se comparta assim com a Venezuela?”.

No segundo caso, o foco nas urnas, um jornalista da Itália, cujo nome citado nas fontes é Luca, manifestou que “Esse é um processo eleitoral muito importante para a Venezuela e para a América Latina. O povo aqui manda uma mensagem ao mundo e também ao meu país. Na Itália, ainda votamos com cédula de papel, não temos sistema eletrônico. O sistema venezuelano é muito interessante, porque não há fraude, não há possibilidade de mudar, manipular o nome dos candidatos. É um sistema que pode ser exportado para o mundo inteiro”.

Os críticos, no entanto, trazem elementos que acrescentam fatos ao entendimento do processo, dentre eles que há mais de 14 mil centros de votação e alegam que se identificou a presença de aliados do chavismo em 85% das seções eleitorais, algo que, conforme declaram, viola o acordo realizado entre os participantes, antes das eleições, mesmo porque significaria uma forma de pressão sobre os eleitores, já que 16 milhões de pessoas dependem do assistencialismo do Estado.

Carnet de la Patria

Outra denúncia que precisa ser verificada é que, conforme consta na mídia, foram instalados “pontos vermelhos” nas ruas, perto das seções eleitorais. Tais pontos consistem em tendas onde estão presentes aliados do chavismo, membros do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), e, nelas, os cidadãos que possuem o “Carnet de la patria” (Carnê da Pátria, ou Carteira da Pátria) apresentam suas carteiras antes de votar, para garantirem o benefício prometido pelo governo.  As carteiras são o documento através do qual se garante os benefícios e auxílios governamentais, ou seja, é por meio delas que os cidadãos têm acesso aos programas sociais, e, segundo foi informado, Maduro prometeu “prêmios” a quem apresentasse a Carteira e fosse votar, razão pela qual tinham de passar por este lugares para mostrar que foram às urnas.

Segundo os denunciantes, em síntese, se não fossem votar, o que provariam mostrando a carteira nos “pontos vermelhos”, perderiam o bônus de 10 milhões de bolívares (muito dinheiro para o pobre venezuelano), além de poderem perder outros benefícios, conforme diz a Oposição. Dentre os principais acusadores estão Henri Falcón e Javier Bertucci, que disputaram contra Maduro nas eleições, destacando que Falcon, em quem se acreditava que possuía condições de enfrentar o Presidente e até mesmo vencer a disputa, foi membro do PSUV que partiu para a Oposição e, dento desta, discordou do boicote à eleição de ontem, tal qual foi decidido pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal frente opositora na Venezuela. Nas palavras de Falcon: “Prometeram 10 milhões de bolívares (US$ 12, pela cotação do mercado negro, 4 vezes o salário mínimo*) a quem registrar seu voto nos ‘pontos vermelhos’. Não podemos vender nossa dignidade”.

Representantes do Grupo de Lima no Palácio de Torre Tagle (Perú) durante um encontro oficial

Além dessas questões que envolvem o processo eleitoral, que, segundo afirmam os críticos, não pôde ser coberto adequadamente pelos observadores convidados pelo Governo, há o fator do grande número de abstenções, que, de acordo com o que foi apontado pelo jornal brasileiro o Estado de São Paulo, chegou a 54%, ou seja, teve participação de 46% do eleitorado, havendo ainda fontes que chegam a afirmar que a Oposição tem elementos para declarar ter ocorrido presença de menos de 30% dos eleitores, e outras que dizem ter sido menor ainda a participação, com menos de 20%, como é o caso do Grupo de Lima**, que declara ter ocorrido a participação de apenas 17,04%, já que dizem que os observadores declaram que a abstenção foi de, ao menos, 82,96%.

Dessa forma, independentemente do percentual exato, o processo de legitimação deverá estar totalmente esvaziado, pois, confirmada que a presença na votação foi inexpressiva, mesmo que Maduro seja reeleito com percentual significativo de votos, comparativamente falando, estes terão sido obtidos dentro de margem irrelevante ou insignificante de votantes, algo que trará mais perdas para sua credibilidade internacional e apoio interno que vantagens por ter conseguido se reeleger.

Cidades-sede das Reuniões de cúpula do G20

Hoje, segunda-feira, dia 21, o G-20 (o Grupo das vinte maiores economias do mundo) está reunido em Buenos Aires, na Argentina, para debater assuntos referentes à economia mundial e já se sabe que haverá ampla contraposição ao resultado eleitoral venezuelano, ainda que assunto do Grupo não seja este, e mesmo com a posição do Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, que declarou ser favorável a Maduro. Da mesma forma, também se sabe que o resultado será recusado pelos EUA, Canadá, União Europeia, pela Colômbia e demais membros do já citado Grupo de Lima, grupo de países criado em 2017, o qual trata da crise venezuelana, e quatro deles estão presentes no G-20, além dos EUA.

Nesse sentido, a realização do pleito eleitoral, que não foi apenas para Presidente, mas para os Conselhos Legislativos das 23 entidades federais e dos 335 Municipais, deverá se constituir como mais um fator agravante da instabilidade política da Venezuela, tanto que os opositores estão declarando que seja considerada a derrota de Maduro, bem como a deslegitimação do Governo, e Falcón não está reconhecendo o resultado, afirmando que outra eleição precisa ser realizada no final deste ano (2018).

De certo, já se está desvalorizando internacionalmente todo o processo eleitoral devido a baixa participação, independentemente do que o governo apresentar como índice de presença nas urnas, mas devido também à pouca representatividade da eleição e ao fato de ter ocorrido a participação de observadores que não tiveram condições de cobrir a eleição de forma ampla, bem como graças às acusações de quebra dos acordos, uso da máquina para angariar votos e as consideradas ameaças veladas de Maduro, como ocorreu no caso em que declarou “votos o balas, paz o violencia”, quando, em discurso, queria afirmar que o caminho da pacificação era a eleição, mas usou termos que os opositores consideraram ameaçadores e discursaram dizendo que ele indicava que usará de violência, se necessário.

Além disso, o governo e o processo eleitoral vêm recebendo contraposição inclusive da centro-esquerda pela região, como foi o caso da Carta Aberta de 54 personalidades chilenas, entre elas muitos deputados do Partido Socialista, que foi assinada e disponibilizada no site do Partido Liberal do Chile, demonstrando que há uma convergência entre a centro-direita e a centro-esquerda sobre o que o Governo Maduro pode estar representando em termos políticos.

Nesse sentido, as eleições que ocorreram, mais que uma forma de garantir a continuidade de Nicolás Maduro, poderá ser um avanço maior para se chegar rapidamente no limite da sobrevida do atual Governo, que se estendeu de forma imprevisível desde que assumiu o poder, logo depois da viagem de Hugo Chávez para o tratamento de câncer, em 2012, e culminou com a sua morte, no início de 2013, quando assumiu interinamente a Presidência e depois foi em seguida eleito Presidente, sob muitos questionamentos.

———————————————————————————————–

Nota:

* As informações são confusas, pois as conversões não correspondem ao que foi dito, levando-se ainda em conta que a relação com o Bolívar já não se aplica, uma vez que está vigendo o Bolívar Fuerte. Atualmente, o salário mínimo na Venezuela, de acordo com as fontes governamentais, em 30 de abril, era de 2.555,550 bolívares, ou, s 2.555,55 bolívares fortes, convertido para os valores da atual moeda. O site de conversão do Banco Central do Brasil, por exemplo, não apresenta a conversão seja para o dólar, seja para o Real brasileiro, e outros sites também não conseguem fazer a conversão.

** Fazem parte do Grupo: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Perú, unindo-se posteriormente Guiana e Santa Lúcia. Deram apoio as declarações do Grupo: Barbados, Estados Unidos, Granada, Jamaica e Uruguai.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira da Venezuela” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuela

Imagem 2 Nicolás Maduro” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuelan_presidential_election,_2018

Imagem 3 Carnet de la Patria” / Exemplo (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuelan_presidential_election,_2018

Imagem 4 Representantes do Grupo de Lima no Palácio de Torre Tagle (Perú) durante um encontro oficial” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Grupo_de_Lima

Imagem 5 Cidadessede das Reuniões de cúpula do G20” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Reuniões_de_cúpula_do_G20

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
Related posts
AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Rumos geopolíticos entre Rússia e EUA, após as eleições norte-americanas

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Movimento #EndSARS na Nigéria

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

França, Europa e o apogeu da intolerância

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Após um ano de protestos populares e de sua própria renúncia, Hariri retorna ao posto de Premier no Líbano

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!