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Em meio a protestos contra a conjuntura econômica e política, sul-africanos vão às urnas

As respostas de uma enquete feita pelo portal de notícias sul-africano News 24 diz muito sobre o cenário atual às vésperas das eleições desta quarta-feira (7 de maio): 91% dos sul-africanos dizem não confiar no Governo[1]. Entretanto, torna-se ainda mais preocupante quando a insatisfação é tamanha a ponto de converter-se em protestos e, em alguns casos, em atos violentos: na mesma pesquisa, mais de 85% responderam ser contra qualquer regulação governamental que impeça a transmissão de propagandas políticas que incitem a violência[1].

Há pouco mais de 20 anos, o Congresso Nacional Africano (CNA)partido do presidente Jacob Zuma– era uma das principais frentes revolucionarias na África do Sul. Este partido exerceu papel crucial na reivindicação de maiores direitos civis aos negros, sendo que, para isso, não faltaram confrontos sangrentos, mortes e prisões, como a de Nelson Mandela. A segregação racial deveria ser derrubada.

Atualmente, o inimigo é outro. Se outrora se cantava “shoot the boer[2] (“atire no boer”, onde boer é uma expressão utilizada para referir-se aos fazendeiros brancos, detentores dos diretos civis naquela época), agora muitos negros proclamam que “black boers cause us worries” (“boers negros nos causam preocupação”)[2].

Em uma democracia ampla – tanto na esfera política, através do sufrágio universal, como na esfera econômica, através de um livre mercado – o mérito exerce papel fundamental na manutenção da ordem. Em teoria, todos devem obter chances iguais de crescer e se desenvolver, ocupando posições correspondentes à habilidade individual.

Entretanto, na prática, a África do Sul vivencia um momento onde brancos e alguns negros da classe média continuam a ocupar os cargos mais importantes – como foi relatado no CEIRI NEWSPAPER mês passado[3] –, renegando à maioria da população liberdades substantivas que lhe garantiriam oportunidades iguais no mercado de trabalho e na sociedade civil.

Por isso, “black boers” – referência clara ao presidente negro Jacob Zuma – também geram preocupações à população, pois eles foram ineficazes na promoção de uma sociedade de direitos amplos. A ausência de oportunidades, evidenciada por uma das maiores desigualdades sociais do planeta[4], é um dos principais fatores de descontentamento.

Em meio às escassas e precárias condições de trabalho, a conquista dos direitos civis é claramente posta em segundo plano pelas gerações mais novas: somente um terço das pessoas de 18 e 19 anos – indivíduos que não participaram diretamente do fim do apartheid – irão votar nas eleições de hoje[5].

Para um cidadão negro sul-africano é difícil distinguir se a condição de vida era pior antes do apartheid ou nos dias de hoje. Em 1994, a expectativa de vida na África do Sul era de 62 anos; atualmente ela é de 56 anos[5][6]. O baixo crescimento econômico evidencia a falta de dinamismo da economia sul-africana: desde 1994 o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, 3,3% ao ano, ao passo que a economia africana como um todo cresceu 4,8% anualmente. Assim, a empregabilidade é baixa, o que faz com que cerca de 25% dos sul-africanos estejam desempregados[5], sendo que 33,6% dos jovens entre 18 e 25 anos também estão desocupados[7][8].

A corrupção é outra clara fonte de insatisfação. Recentemente, veio a público que foram gastos mais de 22 milhões de dólares na reforma da casa do presidente Zuma, que incluía a construção de uma piscina e de um anfiteatro. Segundo autoridades, tal reforma foi feita com o intuito de aumentar a segurança da casa do Presidente[9].

Indignados com a conjuntura econômica e política atual, os sul-africanos foram às ruas[10]. A África do Sul tem, em média, 32 protestos por dia[9]. Todos, em sua maioria, pacíficos, mas não é raro que alguns destes terminem em repressões por parte da polícia, como foi o caso do protesto de Marikana. Nesta situação, 34 operários de uma mineradora foram mortos por policiais[11].

As pesquisas de opinião também apontam para uma queda significativa na taxa de aprovação desde o início do mandato de Zuma. Em 2009, 77% da população aprovava o Governo atual, ao passo que na última pesquisa, em 2014, essa taxa caiu para 46%. No que diz respeito às políticas adotadas, 54% dos sul-africanos em 2009 acreditavam que o país estava indo na direção correta; atualmente, essa taxa caiu para 34%[9].

Dessa forma, muitos especialistas esperam pela primeira vez um resultado não favorável ao CNA nas eleições de hoje[5][9]. Coube aos partidos de oposição durante o período de campanha transformar a insatisfação geral em mais votos aos seus representantes. A Aliança Democrática (AD) – que governa atualmente a Província de Cabo Ocidental[12] – espera aumentar a sua representatividade política, ao passo que o partido de extrema-esquerda, Guerreiros da Liberdade Econômica, participa das eleições gerais pela primeira vez e tenta se firmar como uma alternativa ao CNA e à AD.

A verdade é que pela primeira vez a África do Sul vai às urnas depois da morte de Nelson Mandela. Conforme apontam os observadores, se este foi fundamental para o fim do apartheid e para a conquista do sufrágio universal, cabe agora ao cidadão sul-africano utilizar deste seu direito civil conquistado e eleger representantes que sejam, da mesma forma que foi Mandela, eficazes em atender as reivindicações populares para construir um futuro de liberdade ampla à África do Sul.

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Imagem (FonteVoice of America):

http://www.voanews.com/content/tough-election-test-ahead-for-south-african-government–120859259/160876.html

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Fontes consultadas:

[1] VerNews 24”:

http://www.news24.com/Elections/Vote

[2] VerThought Leader”:

http://www.thoughtleader.co.za/chrisrodrigues/2010/04/05/on-revolutionary-songs/

[3] VerCEIRI NEWSPAPER”:

https://ceiri.news/relatorio-aponta-que-os-negros-ocupam-menos-de-20-de-cargos-de-direcao-na-africa-sul/

[4] VerCIA: World Factbook”:

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/sf.html

[5] VerThe Economist”:

http://www.economist.com/news/middle-east-and-africa/21601533-south-africa-better-place-1994-it-going-wrong

[6] VerWorld Bank data per country”:

http://data.worldbank.org/country/south-africa

[7] VerOECD, Employment and Inequality outcomes in South Africa”:

http://www.oecd.org/employment/emp/45282868.pdf

[8] VerFinancial Times”:

http://www.ft.com/intl/cms/s/2/be6cf4d4-ca7e-11e3-8a31-00144feabdc0.html#axzz3035TrpBs

[9] VerThe Telegraph”:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/10637531/South-Africas-unpopular-Jacob-Zuma-makes-a-final-plea-for-power.html

[10] VerAl Jazeera”:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2014/03/south-africa-wave-discontentment-2014312131838235849.html

[11] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/02/14/world/africa/south-african-protests-target-broken-promises.html?_r=1

[12] VerNews 24”:

http://www.news24.com/Elections/Results

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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