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NOTAS ANALÍTICASSegurança Internacional

Emirados Árabes Unidos e Irã realizam reunião para tratar sobre Segurança Costeira

Na terça-feira, dia 30 de julho, uma missão dos Emirados Árabes Unidos desembarcou no Irã para discutir segurança marítima. Membros dos serviços de Guarda Costeira e diplomatas dos Emirados buscam pontos de identidade e cooperação entre os dois países.

O encontro é um marco em uma relação conduzida por intensa rivalidade política. Os Emirados Árabes Unidos apoiaram uma extensão das medidas restritivas ao Irã, alinhados com os Estados Unidos na suspensão dos efeitos do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, do inglês Joint Comprehensive Plan of Action)*. 

Os príncipes de Abu Dhabi ainda mantêm tropas no Iêmen para combater as milícias Houthi, declaradamente pró-Irã, e usam palcos internacionais para fazer severas denúncias contra o regime dos aiatolás. O episódio de maior tensão entre os países se deu recentemente, quando o Irã foi acusado de ter parte na sabotagem de quatro cargueiros no porto de Fujeira, nos Emirados.

A República Islâmica também é muito crítica da postura do vizinho. De acordo com a afirmação feita à Al-Jazeera pelo conselheiro do Supremo Líder do Irã para assuntos de Defesa, Hossein Denghan, os Emirados Árabes tornaram-se “uma base estadunidense para atacar a segurança nacional iraniana”.

A última vez que uma reunião semelhante ocorreu foi no ano de 2013. Os Emirados Árabes Unidos buscam se envolver como pivô de diálogo, reforçando sua posição de porto seguro no Golfo. Apesar da retórica, quase 29% dos US$ 71,5 bilhões (aproximadamente R$ 272,63 bi, de acordo com a cotação de 31/07/2019) exportados em 2018 pelo Irã passaram por portos do país vizinho. A balança comercial entre ambos fechou julho de 2018 em US$ 1,75 bilhão (aproximadamente 6,67 bilhões de reais).

Os objetivos da reunião não se tornaram públicos, mas, segundo o Hareetz, fontes do governo iraniano confirmam que a discussão pode incluir cooperação técnica, vistos e conexões marítimas. Segundo afirmação à Agência de Notícias da República Islâmica apresentada pelo comandante da guarda-costeira dos Emirados, General de Brigada Mesabh Al-Ahbabi, a cooperação deve focar na decisão e operação conjunta dos países na extensão de suas fronteiras marítimas, visando combater primordialmente o tráfico de drogas e contrabando.

De acordo com as expectativas gerais, o diálogo deve centrar no controle do Estreito de Hormuz. A região é objetivo de uma sensível disputa entre os países, uma vez que estes disputam as fronteiras de seu território marítimo sobre as águas da passagem, tanto pelo direito (de jure) quanto pelo controle direto (de facto). Além disso, os dois países disputam o controle de três ilhas na região, as Ilhas Tunb e Abu Masa.

Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a jurisdição das águas

Anualmente, quase 25% do gás natural consumido em todo o planeta e mais de um terço do petróleo bruto consumido no mundo atravessa esta região. Esta quantidade representa cerca de 21 milhões de barris de petróleo ao dia. O governo em Teerã afirmou repetidas vezes não descartar a possibilidade de negar o uso do acesso por completo, impossibilitando navios comerciais de cruzarem as águas na região.

Os diálogos de alto nível vêm sendo celebrados por ambos países como primeiro passo para uma política de segurança comum. O chanceler iraniano Mohammad Javad Zariff celebrou a atitude dos Emirados como uma mudança política, que espera levar à diminuição da influência de figuras como John Bolton e Benjamin Netanyahu na região.

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Nota:

* O Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), popularmente conhecido como “Acordo do Irã”, foi firmado em 14 de julho de 2015 entre a República Islâmica do Irã e o P5+1 das Nações Unidas (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia + Alemanha). O acordo estabelece que o Irã controlaria seu projeto de enriquecimento e armazenamento de urânio em troca de combustível para pesquisa e suspenção de sanções. Sob a gestão de Donald Trump, os Estados Unidos denunciaram o acordo em maio de 2018.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O BrigadeiroGeneral Qasem Rezaee, Comandante da Guarda da Fronteira da Polícia do Irã, cumprimenta o Comandante da Guarda Costeira dos Emirados Árabes Unidos, General de Brigada Mohammad Ali Mesbah AlAhba” (FonteAgência de Notícias da República Islâmica IRNA): https://en.irna.ir/news/83418325/Iran-UAE-vow-to-strengthen-diplomatic-border-ties#gallery

Imagem 2Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a jurisdição das águas” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/ae/Strait_of_hormuz_full.jpg/555px-Strait_of_hormuz_full.jpg

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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