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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Escalada da tensão entre palestinos e israelenses em meio a pandemia

O aumento de casos de coronavírus vem apresentando uma série de desafios para governos ao redor do mundo, a situação não é diferente no Oriente Médio e se soma a questões já existentes, como os históricos problemas entre israelenses e palestinos.

Tanto Israel quanto a Palestina vêm enfrentando dificuldades em implementar planos eficazes de combate à pandemia causada pela Covid-19. A presente situação preocupa os governantes das duas partes e, apesar deste cenário adverso apresentar o risco de crises mais profundas e novos problemas, alguns analistas enxergam oportunidade para cooperação.

No caso palestino, a separação física do território controlado resulta em fator complicador. A população vem reagindo de maneira distinta: enquanto em Gaza medidas de isolamento social são cumpridas, a população na Cisjordânia tem resistido ao cumprimento de medidas mais rigorosas.

Como consequência desta situação, a Palestina registra, hoje, 342 casos confirmados de Coronavírus (sendo 325 destes na Cisjordânia e somente 17 na Faixa de Gaza) e as únicas duas mortes confirmadas até o presente momento no país também ocorreram na Cisjordânia.

O governo israelense tomou uma série de medidas rigorosas ao princípio das contaminações no país. Hoje, com mais de 15.400 contaminados e 202 mortes por Covid-19, encontra dificuldade em manter as medidas restritivas e de isolamento social.

A exemplo de outros locais ao redor do globo, o reduzido número de mortes e a diminuição na velocidade dos contágios levou a um amplo debate social, acrescido da descrença por parte de alguns setores quanto à magnitude do impacto da doença e à necessidade de medidas tão rigorosas.

Uma parcela dos opositores das medidas afirma que o impacto econômico gerado pelas restrições de mobilidade não se justifica frente ao presente cenário. Também existe entre uma parcela da população e dos membros do Knesset a desconfiança quanto aos motivos que levam o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a sustentar uma quarentena rigorosa. Muitos acreditam que isto o ajudou tanto a impor a formação de um governo de coalizão, quanto a atrasar investigações de corrupção contra si.

A população tem expressado descontentamento com medidas tomadas pelo governo, tais como a exclusão de comunidades judaicas ultra ortodoxas, que levou a um alto grau de infecção entre esta parcela da população, e o uso do rastreamento digital para controlar a adesão à quarentena e pacientes infectados pelo coronavírus. Em março, o gabinete de Netanyahu havia aprovado uma diretriz que permitia ao Shin Bet – Serviço de Segurança Geral – rastrear dados telefônicos para monitorar pessoas infectadas pelo coronavírus, em decisão do dia 26 de abril, a Corte Suprema de Israel determinou a suspensão destas ações até haver legislação sobre o uso interno desta tecnologia tradicionalmente aplicada em ações de contraterrorismo.

Em meio a este cenário já complexo, outros problemas se apresentam para a cooperação na região. Após mais de um ano e meio de instabilidade política, o Knesset, Parlamento israelense, e grupos políticos no país estão próximos de encontrar um acordo. No dia 20 de abril, os líderes do Likud, Benjamin Netanyahu, e da aliança Azul e Branco (Kahol Lavan), Benjamin Gantz, chegaram a um acerto para a formação de um novo governo. Dentre as agendas políticas que as lideranças consideraram de comum acordo está a ampliação e sistematização dos assentamentos na Cisjordânia.

Este entendimento, que pode produzir um avanço nas políticas para anexação de certas regiões reclamadas por palestinos, criou uma tensão ainda maior entre as partes. Em declaração, a Autoridade Palestina afirmou que pode sair de acordos bilaterais já existentes se o avanço da anexação se concretizar, afirmando que “a aceleração da expansão dos assentamentos, associada ao avanço devastador da Covid-19, pode incendiar a situação e destruir qualquer esperança para a paz”.

Nickolay Mandlenov, Coordenador Especial para os Processos de Paz do Oriente Médio das Nações Unidas, declarou em conferência ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que o “reconhecimento da interdependência pode – se houver vontade política, traduzir-se em processo tangível para a resolução do conflito”.  Entretanto, a declaração não reflete em totalidade as ações políticas concretas na região.

Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino

Autoridades palestinas, entretanto, têm se queixado do endurecimento de políticas de segurança de Israel durante o período. Dentre os relatos estão ataques de forças israelenses a centros de saúde e postos de distribuição de mantimentos em território palestino.

O Ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, suspendeu testes na Faixa de Gaza para pressionar os palestinos a devolver prisioneiros israelenses e cooperar em outros aspectos. Em discurso ao Conselho de Segurança, o representante da Autoridade Palestina frente às Nações Unidas, Riyad Mansour, acusou as Forças de Defesa Israelenses de desbaratar esforços para o combate à pandemia em território palestino. As políticas de segurança israelenses também vêm, segundo afirmações de autoridades palestinas e organismos internacionais, atrasando a chegada de suprimentos básicos e equipamentos médicos aos organismos de saúde palestinos.

No dia 7 de abril, uma série de agências internacionais (como a Oxfam e a Human Rights Watch) assinaram um memorando conclamando que Israel deve “assumir suas responsabilidades em apoiar o sistema de saúde palestino, tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia”.

Aproveitando a escalada da tensão e a necessidade de apoio logístico, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, entrou em contato com o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, para anunciar o envio de equipamentos e suplementos médicos para a Palestina. O governo turco busca criar mais identidade com povos árabes da região. Segundo Haniyeh, Erdogan afirmou que turcos e palestinos “são o mesmo povo e compartilham das mesmas causas”. 

Ao mesmo tempo que representa a oportunidade de reconhecimento da interdependência e da criação de mecanismos de cooperação na região, a crise provocada pela pandemia pode apresentar uma oportunidade de reaproximação e mudança política. Dada a realidade dos dois países, é notório que a falta de uma solução integrada da pandemia pode prejudicar ambos os lados, pelos riscos de contágio e impactos.

Também para Israel, a falta de sensibilidade à crise enfrentada pelos palestinos pode aumentar a influência de atores regionais que não estão alinhados a seus interesses diretos e podem, ao ganhar simpatia dentro de autoridades políticas e da população palestinas, encontrar representantes

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Médicos prestam condolências a cidadão palestino falecido em consequência da Covid19 no Hospital Hugo Chávez, em Ramallah, Palestina” (FontePágina oficial do PrimeiroMinistro da Autoridade Palestina no Twitter, Dr. Mohammad Shtayyeh@DrShtayyeh): https://twitter.com/DrShtayyeh/status/1248642219206205440

Imagem 2Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino” (FontePágina Oficial da Missão do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas na Palestina no Twitter@ochaopt): https://twitter.com/ochaopt/status/1252888404519522304/photo/1

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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