ANÁLISES DE CONJUNTURAEsporte

Esporte como instrumento de inclusão social de refugiados no Brasil

Nas últimas décadas, o fluxo migratório e as questões sociais têm se agravado, em decorrência de crises internas. De acordo com o último relatório publicado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), somavam-se 70,8 milhões de pessoas que foram forçadas a emigrar de seus países de origem ao final de 2018, como resultado de perseguição, conflito, violência, ou violação dos direitos humanos.

No Brasil, são 11.231 pessoas em situação de refúgio reconhecido, tendo como origem, em sua maioria, a Síria (51%). Apenas em 2018, a Polícia Federal recebeu 80.057 mil solicitações de refúgio, sendo 61.681 provenientes de venezuelanos (77%). No ano anterior, em 2017, a proporção era de 33.866 solicitações totais de refúgio para 17.865 de venezuelanos (52%).

Apesar de enfrentar algumas resistências pontuais e protestos em cidades fronteiriças, a sociedade civil brasileira, com apoio de organismos internacionais, se articulou a fim de promover ações para dar as boas vindas e incluir os novos entrantes nas rotinas sociais locais. Desde então, o esporte, mais uma vez, vem cumprindo um importante papel nesta construção.

Parceiro estratégico do governo, o ACNUR fornece apoio e incentiva as práticas inclusivas, como a “Operação Acolhida”, lançada em março de 2018 para prestar assistência emergencial para acolhimento de refugiados* e migrantes da Venezuela. No evento de comemoração de um ano da operação em Roraima, dentre outras atividades, foram promovidas competições de várias modalidades esportivas envolvendo times mistos de brasileiros e venezuelanos.

Venezuelanos caminham pelo acampamento de refugiados em Boa Vista

O Chefe do Estado Maior da Força-Tarefa Logística Humanitária para o Estado de Roraima e organizador do evento, coronel Roger Herzer, reforçou na oportunidade que “um evento que tenha como plano de fundo o esporte, mas com a intenção principal de promover essa interação entre sociedade civil e venezuelanos, posso dizer que o objetivo foi alcançado”.

Grandes clubes também aderiram à causa e buscam ser referência dentro e fora de campo. O último campeão brasileiro (temporada 2019), Flamengo, participou de um jogo de futebol amistoso na Arena da Amazônia com jogadores veteranos contra um time manauara** formado por atletas locais e imigrantes venezuelanos. A renda arrecadada pela bilheteria foi doada para os abrigos de refugiados vulneráveis de Manaus.

Outro exemplo da utilização do esporte como suporte à inclusão social foi uma ação que articulou organismos internacionais. Oswaldo Dias, venezuelano que mora no Brasil há décadas, contou com o apoio do ACNUR e da União Europeia para organizar o “Futebol Show”, evento que colocou frente a frente equipes do Brasil, Venezuela e Haiti, formadas por refugiados.

O troféu levantado pela equipe haitiana – em momento comemorado fraternalmente com os demais jogadores – ficou em segundo plano diante do propósito do evento. Segundo Dias, “um jogo formado por jogadores refugiados e migrantes estimula ainda mais a solidariedade entre os povos, o intercâmbio cultural, criando uma verdadeira irmandade”.

Disciplina e respeito, dogmas fundamentais das artes marciais, foram princípios trabalhados pelo mestre Elke Júnior (mais conhecido como Tigrão) para promover a inclusão dos refugiados. Sua academia de jiu-jitsu, com 9 anos em atividade, fica em Pacaraima/RR – cidade que faz fronteira com a Venezuela –, e tem 65 alunos, dos quais 25 vieram do país vizinho. Tigrão defende que “o jiu-jitsu trabalha a disciplina, respeito e companheirismo, e em um contexto onde duas nacionalidades se misturam, isso é essencial para se desenvolver uma convivência respeitosa e pacífica”.

Arena da Amazônia em Manaus

O projeto recebeu uma doação de kimonos e bebedouros do ACNUR, mais uma vez em parceria com a União Europeia. Rafael Levy, Chefe do escritório do ACNUR em Pacaraima, complementa Tigrão ao dizer que “o esporte é um ótimo vetor para quebrar barreiras entre as duas populações e promover uma convivência pacífica”, e enaltece o trabalho da academia de jiu-jitsu ao dizer: “durante as aulas, não só as crianças, mas as famílias acabam se conhecendo e convivendo em um ambiente seguro. Essa troca que é facilitada pelo esporte se espalha para as outras esferas da vida e da comunidade”.

Em janeiro (2020), o ACNUR teve seus esforços reconhecidos e foi homenageado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) graças ao trabalho de apoio a refugiados e comunidades de acolhida por meio do esporte. O COI já se mostrou adepto à causa quando, em 2016, outorgou a participação de atletas refugiados nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos na edição do Rio de Janeiro.

Por mais que não faltem exemplos da utilização do esporte a favor da inclusão social, ainda há muito o que fazer para se conquistar o objetivo principal de mitigar as diferenças. As atividades promovidas e apoiadas pelo ACNUR geram resultados positivos e, por conseguinte, demonstram que estamos no caminho certo.

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Nota:

* Por refugiados, entende-se “pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um grupo social específico ou opinião política e não podem ou não querem valer-se da proteção de seu país. Segundo a Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997, são também refugiadas as pessoas obrigadas a deixar seu país de nacionalidade devido a grave e generalizada violação de direitos humanos”.

** Manauara significa pessoa nascida na cidade de Manaus, capital do estado do Estado do Amazonas, situado na região norte do Brasil.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Refugiados venezuelanos em Boa Vista/RR”(Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1e/Venezuelan_refugees_in_Boa_Vista%2C_Brazil_2.jpg

Imagem 2 Venezuelanos caminham pelo acampamento de refugiados em Boa Vista” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/66/Venezuelan_refugees_in_Boa_Vista%2C_Brazil_1.jpg

Imagem 3 Arena da Amazônia em Manaus” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c2/Manaus_aerea_arenaamazonia.jpg

About author

Pós-graduado em Gestão de Negócios Internacionais pela Business School São Paulo (BSP), Bacharel em Relações Internacionais no Centro Universitário Fundação Santo André - Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas. Bolsista pelo CNPq em 2009 com o projeto de iniciação científica "A Soberania Nacional em face dos Tratados Bilaterais: A Questão do Tratado de Itaipu". Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Atitude e Ideologias Políticas, atuando principalmente nos seguintes temas: integração, direito, democracia, segurança e negociação internacional. Em sua carreira, conquistou o cargo de Gerente de Negócios Internacionais. Está em contato com o comércio exterior, aprofundando seu conhecimento e focando suas habilidades para os procedimentos de importação. Já participou de diversas feiras internacionais, representando sua empresa, tendo a função de estreitar o relacionamento com fornecedores, investidores e clientes estrangeiros, além de trabalhar a marca da empresa e conquistar distribuições em diferentes continentes.
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