ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Esquecemos as crianças da Síria?

Segundo novo relatório elaborado por investigadores das Nações Unidas”, nos últimos três anos as crianças sírias têm sofrido com assassinato, tortura, abuso sexual, detenções e recrutamento obrigatório. Sem contar com a condição geral de seu país. O novo Documento foi apresentado para o “Conselho de Segurança” na semana passada, quando representantes do Governo sírio e da oposição se reuniram na Suíça, sob os auspícios da ONU. É o primeiro estudo realizado propriamente sobre as consequências do conflito que ocorre no país para as crianças e abrange o período de março de 2011 a novembro de 2013.

Embora as “Nações Unidas” tenham condenado publicamente tanto o Governo quanto a Oposição na Síria de graves violações às crianças, este foi o primeiro relatório entregue ao “Conselho de Segurança”. Segundo a análise, mais de dez mil crianças já foram assassinadas e muitas estão feridas ou desapareceram. Em sua declaração a respeito do assunto, o “Secretário Geral da ONU”, Ban Ki-moon pediu aos dois lados do conflito para que protejam os direitos infantis. Segundo ele, o sofrimento das crianças sírias é “indescritível e inaceitável[1].

A respeito da taxa de estupro, na fase inicial do conflito, quando começaram a ocorrer as manifestações para a derrubada do presidente Bashar al-Assad, a maior parte da violência sexual contra as crianças no país foi cometida por membros do Exército, serviços de inteligência e milícias a favor do Governo. Após este período, com o aumento da luta armada, os grupos de oposição se tornaram mais organizados e passaram também a cometer um maior número de estupros em crianças.

Quando falamos aqui de violência sexual, não se refere somente ao ato de estuprar uma criança. Segundo o relatório entregue ao Conselho de Segurança”, crianças foram presas e detidas com adultos, mal tratadas e torturadas por forças do governo em campanhas de aprisionamento, que foram intensas ao longo de 2011 e 2012. Nestas situações, uma série de abusos sexuais ocorreram e, de acordo com o relato de testemunhas, a agressão em relação às crianças incluiu o espancamento com cabos de metais, chicotes e bastões de madeira e metal, choques elétricos nos genitais, violência sexual – estupros e ameaças de estupros – ameaça e simulação de execuções, privação de sono, queimaduras com cigarros, confinamentos em solitárias e exposição à tortura de parentes. As testemunhas ainda afirmam que este tipo de violência, incluindo a sexual, foi usada para forçar confissões ou pressionar algum familiar a se render. 

Semana passada, em Genebra, o Governo sírio negou qualquer detenção de crianças. O vice-chanceler Fayssal Mekdad acusou as forças de oposição de sequestro, sumiço e assassinato de crianças. De acordo com os investigadores da ONU, não foi possível corroborar as alegações de violência sexual infantil por parte da oposição, por falta de acesso a informações necessárias[2].

Outro relato grave reportado pelo documento das Nações Unidas refere-se ao recrutamento – muitas vezes compulsório – de crianças por parte de organizações rebeldes. Dentre elas, o Exército Livre da Síria”, apoiado por muitos países do Ocidente. Grupos da oposição utilizam as crianças para posições de apoio e de combate, em sua maioria garotos entre 12 e 17 anos de idade. De acordo com o relatório, nos últimos três anos meninos desta faixa etária, principalmente, foram treinados e armados para combater ou para vistoriar checkpoints.

O relatório adiciona que muitas das adesões não forçadas aos grupos armados foram incentivadas pela perda de seus pais ou outros familiares. Além disso, a pressão por parte de parentes e comunidades, junto com a mobilização política que tomou o país, serviram de forte estímulo para o envolvimento de crianças ao “Exército Livre da Síria” e outros grupos filiados.

Os investigadores da ONU não reportaram ter encontrado documentos formais a respeito do recrutamento de crianças por parte das “Forças Armadas” do Governo. No entanto, foi relatado que tropas do Exército e grupos de milícia a favor do presidente Assad intimidaram e apreenderam jovens garotos para servir em checkpoints e em incursões armadas. Alguns destes jovens, abaixo dos 18 anos.

Ainda de acordo com a análise entregue às Nações Unidas”, milhares de crianças foram mortas, torturadas e mutiladas ao longo dos últimos três anos na Síria. Uma das grandes questões – se é que se pode enumerar questões frente à tamanha desgraça em pleno século XXI – é que este tipo de atrocidade não tem um único responsável. As crianças sofrem e morrem durante ataques aéreos por parte do Exército, protestos contra o atual Governo, por armas químicas e embates armados. A violência infantil é perpetuada pelos dois lados do conflito – Governo e grupos de oposição. Os investigadores afirmam, ainda, que possivelmente as organizações rebeldes realizaram uma série de execuções.

Muitas crianças também foram utilizadas como escudos humanos em choques entre os grupos conflitantes e centenas morrem pela fome e em decorrência da baixíssima condição de vida existente atualmente na maior parte do país.

As “Nações Unidas” não esclareceram quais os tipos de documentos ou os métodos utilizados pelos investigadores em tal análise. A representante especial de Ban Ki-moon para crianças e conflitos armados, Leila Zerrougui, irá atualizar diplomatas a respeito do relatório na próxima semana.

A compreensão de que esta é uma realidade atual e bem conhecida pelo cenário internacional é muito difícil. Enquanto mais de dez mil crianças já foram assassinadas na Síria – de forma brutal – e outras continuam sofrendo com exatamente as mesmas acusações trazidas por tal relatório da ONU, nada de efetivo está sendo feito por parte dos países que assistem a este cenário indescritível de desumanidade. Críticas são feitas, milhares de análises e artigos como este são escritos ao redor do mundo, mas as crianças e toda a população da Síria necessita urgentemente de atitudes mais enfáticas.

Diante do quadro, questiona-se até quando se estudará os genocídios, as guerras, os assassinatos em massa na história que nos assustam e não se aprenderá nada com isso? Pior, se deixará que eventos como estes – com suas especificidades – se repliquem no presente. Enquanto governantes da maior importância se limitam a repreender tanto Governo quanto Oposição, uma série de organizações não-governamentais em diversos locais têm se mobilizado para tentar auxiliar com ajuda humanitária e recursos primários. Porém, como tem sido ressaltado pela comunidade internacional, já é passada a hora de o mundo agir de fato e de forma oficial para que o massacre que acontece atualmente em relação a crianças, jovens, adultos e idosos – homens e mulheres – termine de vez. Os observadores passivos de um conflito estão fazendo uma escolha. Todos os países têm, hoje, responsabilidade pela situação na Síria

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Imagem (Fonte):

http://worldnews.nbcnews.com/_news/2013/03/13/17294280-children-shot-at-tortured-and-raped-in-syria-report-says?lite

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2014/02/04/un-report-syria-child-abuse_n_4725833.html

[2] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/02/05/world/middleeast/at-least-10000-children-killed-in-syria-un-estimates.html?_r=0;

Ver também oRelatório das Nações Unidas”:

http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N13/627/07/PDF/N1362707.pdf?OpenElement

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Ver ainda:

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/05/syria-children-maim-torture-assad-forces-un

Ver ainda:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/02/05/U-N-report-details-unspeakable-suffering-of-Syrian-children.html

Ver ainda:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-26046804

Ver ainda:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/02/un-decries-child-abuse-syria-2014253588210756.html

About author

Mestranda em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especializada em Relações Internacionais Contemporâneas (PUC-Rio). Com foco em política no Oriente Médio, participou da “The Israeli Presidential Conference – Facing Tomorrow” - sob os auspícios de Shimon Peres - nos anos de 2011 e 2012, tendo realizado outros cursos na área em Israel.
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