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AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Estados Unidos e Irã: Oriente Médio em um novo capítulo de tensão

Após Washington anunciar em maio de 2018 a retirada unilateral do acordo que culminou no desmantelamento do Programa Nuclear Iraniano, conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA, na sigla em inglês), e que fora assinado pelo grupo de nações intitulado P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China, mais a Alemanha), existia a possibilidade apontada por críticos da saída estadunidense do Acordo de que Teerã poderia restabelecer rapidamente sua capacidade nuclear.

Nesse período, apesar da oposição da União Europeia, as sanções impostas pelos norte-americanos em novembro desse mesmo ano, e apoiadas por algumas empresas da Zona do Euro, acarretaram no recrudescimento da venda de petróleo iraniano em aproximadamente 1,5 milhão de barris/dia.

Tal posicionamento inicial, fruto de uma promessa de campanha do presidente Donald Trump, ganhou novos contornos, com a Casa Branca aumentando a pressão nos últimos meses sobre a República Islâmica, ao anunciar novos mecanismos que oneram países que compram o petróleo bruto iraniano.

O objetivo, de acordo com membros da administração Trump, é por fim a atividades desestabilizadoras que o país persa promove no Oriente Médio, a incluir: o apoio ao grupo Hezbollah no Líbano; a assistência aos rebeldes Houthis no Iêmen; o patrocínio ao regime de Bashar al-Assad na Síria e as milícias xiitas no Iraque; assim como o restabelecimento de voos diretos Teerã-Caracas, retomados como parte do processo de apoio ao regime do presidente Nicolás Maduro.

Conferência de Imprensa do Grupo P5+1 e República Islâmica do Irã, em julho de 2015

Apesar de todos os investimentos, o retorno financeiro é considerado baixo e auxilia no aprofundamento da crise interna. A inflação de aproximadamente 50%, moeda em colapso, persistentes paralisações de trabalhadores, um crescente movimento pelos direitos das mulheres, recentes enchentes que mataram mais de 75 pessoas e causaram em torno de US$ 3 bilhões em danos (aproximadamente, 12,3 bilhões de reais, conforme a cotação de 17 de maio de 2019), além da praga de gafanhotos que ameaça 300.000 hectares, ou cerca de US$ 9 bilhões das terras agricultáveis do país (Em torno de 36,9 bilhões de reais, conforme a mesma cotação), ampliam a pressão ao Aiatolá Ali Khamenei, o Líder Supremo do país. Esse contexto viabiliza uma campanha cujo objetivo principal é acelerar o colapso econômico iraniano e a mudança do regime.

Para tal iniciativa ser bem-sucedida, observadores internacionais creem que reforçar as bases de apoio à posição de Israel como principal parceiro geoestratégico e ampliar os laços entre o Estado judeu com os países árabes que se opõem ao Irã, com os Estados do Golfo, Arábia Saudita e Egito, forçará o Líder Supremo e o presidente Hassan Rouhani a optarem por três cenários distintos:

1. Um acordo com a administração Trump: esse acordo inviabilizaria qualquer iniciativa de cunho militar e poderia restabelecer as conexões comerciais essenciais para a retomada econômica da nação;

2. Aguardar pelo pleito presidencial estadunidense em 2020: autoridades estadunidenses que participaram do Acordo de 2015 na administração de Barack Obama sugeriram ao chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif que Trump é um Presidente fraco e que, provavelmente, não será reeleito, o que abriria espaço para retomada do JCPOA em janeiro de 2021. Contudo, para analistas consultados, exercer tal “paciência estratégica” é considerada arriscada pelo Aiatolá.

3. Promover uma contra escalada: outra parcela de analistas pontuou a possibilidade do enfrentamento direto, ou seja, reiniciar o programa nuclear. Entretanto por ser o único país do sistema internacional a combater simultaneamente três ameaças de guerra, contra Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita, essa possibilidade se torna a mais remota, justamente pelo fato de o enredo contextualizado por Washington ser semelhante ao testemunhado em 2003, quando a invasão ao Iraque foi justificada pela existência de um arsenal de armas químicas e biológicas.

Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, em discurso em setembro de 2015

Embora a opção militar pela República Islâmica não seja considerada, analistas apontam que a limitação de forças convencionais, em uma eventual ofensiva externa, poderia ser superada por uma rede de forças xiitas que se estende do Afeganistão ao Líbano e incluem segmentos das milícias xiitas iraquianas e do Hezbollah, que controla o sul do Líbano e tem milhares de mísseis balísticos apontados para Israel.

Em complemento, o Irã também poderia mobilizar homens-bombas dedicados a causa xiita e ao nacionalismo propagandeado pelo regime, o que faria essa escalada militar resultar em um cenário sem precedentes.

No aspecto econômico, à instabilidade gerada pela retórica inflamada entre Washington e Teerã tende a manter a oferta e os preços do petróleo em consonância com os tempos mais recentes.

Contudo, Arábia Saudita e outros membros da OPEP, como Emirados Árabes Unidos têm a intenção de cortar as exportações de petróleo iraniano e inundar o mercado, porém podem ocasionar em riscos. Ao encorajar a política de Trump, os dois países visam não apenas enfraquecer o rival regional, como obter lucro financeiro, à medida que o preço do barril aumenta exponencialmente com as exportações.

O Iraque deseja que os países membros do bloco não tomem iniciativas unilaterais até a reunião de junho próximo (2019). Já a Líbia, com o retorno dos pesados combates em seu território, teme que suas exportações sejam colocadas em risco e não devem perpetrar nenhuma ingerência no cenário da OPEP contra o Irã. 

A perspectiva na Venezuela é considerada um dos piores cenários. Com a maior reserva comprovada de hidrocarbonetos, já não conta com a mesma capacidade de produção, hoje menos de um milhão de barris/dia, e novas sanções de Washington tendem a ampliar a turbulência política e a crise econômica no país sul-americano, o que inviabiliza também a possibilidade de maior pressão contra a ofensiva aos persas.

Em Beijing há pouco interesse na mudança do regime em Teerã, haja vista que é o único país na região rico em energia, sobre o qual Washington não tem uma posição segura. Na Índia, em meio a uma eleição geral, o atual primeiro-ministro Narendra Modi tem pouco interesse em tomar medidas que aumentem os preços dos combustíveis.

Embora haja interesse mútuo na cooperação em detrimento do conflito, Trump e Khamenei entendem que o caminho diplomático passa pela escalada das ameaças mútuas, algo que observadores apontam que resultará em prejuízos, principalmente ao povo iraniano, assim como aos demais povos do Oriente Médio onde Teerã exerce forte influência.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Muro da antiga Embaixada dos Estados Unidos em Teerã” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/mayhlen/8236713685/in/photolist-dxRj1V-qLgWqC-dxRjwD-pyM9Vv-W2p6GY-5fkMV9-fevnx2-Wq3i9F-5fgqh8-mkgPCW-mkiAXS-Wq3i1z-mkg3zZ-mkg4Ai-3e8mfT-mkdU84-mkdGYu-6Kz2LN-mkfMER-7R6PZD-7aZE3Y-px1VPj-dxWMQd-st9aHY-mkf7VX-mkiW73-mkfDk2-mkdTqm-mkc6GF-mkhZu6-sUAeRy-mkf7TF-4VUdi9-mkhAVF-mkchkp-mkhek5-mkfV4i-6Kz2JL-4VPXbH-mkdBEU-a21tUq-mkeJDn-mkdLKi-mkebjk-r8EBUx-rkWq8B-phuC7H-f6XDz2-aDczbH-phz1d6

Imagem 2Conferência de Imprensa do Grupo P5+1 e República Islâmica do Irã, em julho de 2015” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/unisvienna/19069822374/in/photolist-v48PNW-3TrU1d-v47zYH-v4hcpK-BGdp1w-vHx5fd-A3jMVt-cwHLkE-Z4R1GE-upELvo-c8hsx3-DaXsJ7-w3Ewed-CGjvLi-zBvUTm-25B8q9q-H5ZfiC-CkzRAy-EtsTr8-Kkh6L7-xefQy9-YrnXqx-ZpFJCp-NzKK4y-2cxJm6o-xR8U6X-xR8UmB-v3FPBp-vQX2qf-23WMTMo-y9jEEg-xR8TWt-xR3gNq-wFxWAa-xp3PuK-w4mXbQ-Cm5dr1-wsbEgX-ws32bm-x7rx3s-xQQQkp-xmP1nN-xmJey7-xR2njj-qZTfLb-xbL8QX-rZ6S5J-xSMqUv-BAPZda-B8uRbS

Imagem 3Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, em discurso em setembro de 2015” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/30525164571/in/photolist-NvprWT-MFbLax-NA11qd-NzZZQA-NA11ns-cZEWQS-6CzBLB-efCsMR-W26hGG-4TxVkU-UwxGAC-6zsCWU-6zsCYo-6zoxCp-6z8UTr-6zoxLR-phuC7H-6z8UP4-6zoxG4-phz1d6-2fr3o5x-cWeUAU-pwYdXd-9r1Va1-9hzbpY-djmPHF-2fhPHNK-4N4LHJ-ZJ3f3b-4EDyvR-6Ak9UU-6P7UW4-cWeWLj-cRzNCL-fEpyou-cWeWyN-aCyT2L-cUQVS7-cUR1cS-pjUd2Z-cWeXb3-3D7VoU-6ySLpB-cWeV9J-cUQXDs-4TDoHc-24dL3u2-cWeXp9-7zeRop-cWeWbh

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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