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No contexto das Relações Internacionais, uma das considerações mais discutidas entre autores clássicos e observadores é se “a guerra é a política por outros meios”*. Esses últimos quatro anos de conflitos na Síria** lançam luz sobre essa possível interpretação do fenômeno, bem como sobre reflexões e modelos, que, entre erros e acertos, viabilizam uma ampla discussão sobre os rumos de um sistema internacional que vários especialistas consideram como um modelo político, econômico e social já saturado, o qual viabiliza a ferramenta “guerra” como instrumento alternativo à diplomacia para eventuais mudanças.

Em um novo capítulo da deterioração do Oriente Médio e como parte fundamental da nova equação, especialista apontam que a Rússia tomou uma posição definitiva que preocupa Washington, em especial o Departamento de Defesa (DoD, na sigla em inglês), com o constante fluxo de equipamentos militares russos entrando na Síria por Latakia, intensificando o cenário de que Moscou almeja participação mais assertiva em apoio ao regime do presidente Bashar al-Assad.

Segundo o PortaVoz do Pentágono, capt. Jeff Davis, a instalação de Latakia funcionará como base operacional para aviação de carga e navios de desembarque de tanques. Ainda de acordo com o PortaVoz, algumas dessas remessas incluíam unidades de Tanques T90 e peças de artilharia, posicionados defensivamente em torno do complexo.

No plano político, o acréscimo explícito de mais uma força militar no desgastado terreno sírio, segundos observadores, visa forçar o caminho para a mesa de negociações entre Obama e Putin, possivelmente na reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, na próxima semana.

Neste contexto, no entanto, uma expansão militar russa para resguardar o reduto alawita de Bashar al-Assad e auxiliar na contenção do Estado Islâmico tem seus riscos. O primeiro é a probabilidade de insurgentes do Islamic State Of Iraq and alSham (ISIS) iniciarem o processo de desestabilização em regiões sensíveis no Cáucaso e na Ásia Central, zonas de influência do Kremlim, que são herança da União Soviética. Um segundo risco iminente é a colisão com os Estados Unidos e seus aliados (FrançaInglaterra e países do Conselho de Cooperação do Golfo), que, desde meados de 2014, promovem incursões áreas para bombardear posições dos fundamentalistas.

No âmbito diplomático, a colisão já ocorreu, pois Washington interpreta o fato como algo semelhante ao que acontece na Ucrâniauma movimentação rápida que não permitiu tempo hábil de resposta. Desta forma, Moscou impõe força à Casa Branca que se veria na posição de negociar divisão de papéis, nos moldes de uma ampla Coalizão AntiEstado Islâmico que foi proposta por Putin. Por fim, há ainda a posição de Israel, que não irá tolerar armas avançadas no arsenal sírio, as quais poderiam colocar em perigo a segurança do Estado judeu.

A guerra como alternativa à política expõe na Síria antagonismos em que Estados Unidos, Rússia, Irã, Arábia Saudita, ChinaÍndia e Europa deveriam ser partes integrantes de uma unidade para desmantelar o inimigo comum, porém eles discordam em como fazê-lo, dado o interesse intrínseco que cada ator tem na região, bem como as disputas políticas, culturais, religiosas e econômicas que monopolizam os debates e o tempo de resposta, que é cada vez mais escasso e impõe pelas armas o futuro de milhões de pessoas.

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* Na obra clássica de Carl von Clausewitz, “Da Guerra” (com várias traduções e edições em português) está a afirmação conclusiva de que “A Guerra é a continuação das relações políticas por outros meios”, algo que gerou várias interpretações, dentre elas a de que “a Guerra é a política por outros meios”. Tal entendimento é muito contestado, pois igualaria guerra e política na perspectiva de Clausewitz, algo que especialista recusam (dentre eles o Dr. Rodrigo dos Passos, professor de relações internacionais na UNESP e renomado conhecedor do tema, sendo autor de tese sobre Clausewitz e Gramsci; e o Dr. Marcelo Suano, especialista em Pensamento Militar, com tese sobre o Pensamento Político e Militar Brasileiro). No entanto, esta forma de considerar política e guerra está presente em artigos, discursos de lideranças e análises, independente de a frase clasewitziana referir-se às relações políticas e não à política, propriamente dita. A questão é que os observadores, analistas e, principalmente, os líderes, ao considerarem a questão dessa última forma, independente de Clausewitz, obrigam-nos a discuti-la com tal significação. Ademais, a ideia presente no artigo é mostrar como a Guerra está sendo vista pelos líderes como instrumento de mudança na órbita política, confundindo-se com ela (Conclusões baseadas em aulas com Rodrigo dos Passos e entrevista com Marcelo Suano)

** Que subtraiu centenas de milhares de pessoas e deflagrou uma situação sem precedentes em todo o subcontinente e, agora, em outras regiões, em especial na Europa.

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Imagem (Fonte):

https://foreignpolicymag.files.wordpress.com/2015/09/t-90.jpg?w=960&h=460&crop=1

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Fontes Consultadas:

Ver:

https://www.foreignaffairs.com/articles/what-obama-gets-right

Ver:

https://www.foreignaffairs.com/articles/what-obama-gets-wrong

Ver:

http://foreignpolicy.com/2015/09/14/this-satellite-image-leaves-no-doubt-that-russia-is-throwing-troops-and-aircraft-into-syria-latakia-airport-construction/

Ver:

http://foreignpolicy.com/2015/09/14/pentagon-russia-still-expanding-military-in-syria/

Ver:

http://nationalinterest.org/feature/it-or-not-america-russia-need-cooperate-syria-13863

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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