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Etiópia dá início à exploração e produção de hidrocarbonetos

Na semana passada, o Primeiro-Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, anunciou novos investimentos para impulsionar a exploração e produção de hidrocarbonetos no país. Argumenta-se que receitas advindas do petróleo e do gás natural impulsionarão a economia nacional a novos níveis de produtividade e de vendas externas, dando continuidade ao processo de crescimento econômico.

Como principal parceira do Estado neste projeto está a corporação chinesa Poly-Gcl Petroleum Group, a qual tem conduzido uma série de testes e coletas de amostras para estimar a capacidade produtiva das reservas selecionadas. A presença desta empresa reforça o papel crucial que a China tem desempenhado nos principais projetos desenvolvidos pelo Governo etíope, desde os parques industriais ao redor do país até as grandes obras de infraestrutura.

Ampla maioria das reservas situa-se na região de Cinile, na porção nordeste e dentro da província de Somali. Essas também se encontram próxima de Djibuti, ponto pelo qual será distribuída a produção de hidrocarbonetos, tendo em vista que a Etiópia não possui acesso ao mar. Em realidade, o governo de Ahmed tem como um dos seus principais projetos a construção de um oleoduto desde Cinile até a nação vizinha, a fim de escoar a produção para os mercados internacionais. Estima-se que a construção deste empreendimento seja iniciada agora, em setembro de 2018, e que seja concluída em 2021.

Segundo dados do próprio Governo, acredita-se que, em um primeiro momento, tanto a exploração de petróleo como a de gás natural gere receitas que se aproximem a 1,2 bilhão de dólares. No entanto, com uma capacidade de aproximadamente 7 bilhões de metros cúbicos de gás, a previsão é que a geração total de receitas seja futuramente de 8 bilhões de dólares.

O que importa é a forma como o país utilizará os recursos [gerados com a exploração de petróleo e gás] (…). Às vezes, as receitas podem ser fonte de conflito, tal como se presenciou em outros países. Na verdade, o que vem primeiro é a garantia da distribuição justa e igualitária da riqueza, bem como a promoção de um senso de unidade nacional. Dessa maneira, o país poderá desenvolver o seu potencial e fazer um bom uso destes recursos para sustentar a continuidade do desenvolvimento econômico da nação”, declarou Ahmed.

Atualmente, a economia etíope está atrelada, essencialmente, ao setor agropecuário. Em menor grau, despontam as exportações de produtos manufaturados, os quais dependem de uma mão de obra extremamente barata, bem como de reduzida tecnologia para a produção. Com o petróleo e gás, o Governo espera estimular a emergência de uma indústria local que se integre à cadeia produtiva a partir da oferta de máquinas e equipamentos úteis às companhias do setor petrolífero. Neste sentido, se faz clara a tentativa do Estado de “modernizar” a sua economia a partir de uma crescente participação dos hidrocarbonetos na pauta de exportações.

No entanto, entendido a partir de outra perspectiva, este processo revela como o desenvolvimento econômico é um fenômeno social atrelado à crescente utilização de combustíveis fósseis. Dificilmente se consolidaram, ao longo da história, processos de geração de riqueza a partir de atividades com baixa emissão de carbono. Não à toa, a industrialização no mundo ocidental está intimamente associada como causa principal do aquecimento global contemporâneo. Neste sentido, as projeções sobre uma futura exploração dessas commodities na Etiópia reiteram esse padrão.

Para além de sua dimensão ambiental, a tentativa de diversificar a economia através da emergência de um setor petrolífero pode ser contraditória, bem como não atingir os resultados esperados pelos formuladores desta política. Ao contrário, há um iminente risco de consolidação de uma dependência econômica desta commodity: dado que o aumento futuro dos gastos públicos será sustentado pelo acréscimo na geração de receitas que a exploração de hidrocarbonetos permitirá, o Governo poderá se deparar com uma intransponível crise fiscal em um contexto possível de choque externo nos preços.

Esta é a conjuntura atual de Angola, por exemplo, a qual enfrenta uma severa recessão econômica devido à queda nos preços internacionais do petróleo. Dessa maneira, a efetiva diversificação da economia a partir das receitas esperadas será um movimento crucial para reduzir futuras recessões geradas pela dependência nessas commodities.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Petróleo e gás são tidos pelo Governo etíope como essenciais para a continuidade do crescimento econômico” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jack-up-rig-in-the-caspian-sea_1.JPG

Imagem 1PolyGcl Petroleum Group será a principal corporação envolvida na futura produção de petróleo, reforçando a centralidade chinesa na economia etíope” (Fonte):

http://en.polygcl-petro.com/site/about

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