EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Europa e os muros do século XXI

O muro de Berlim foi um marco na história da humanidade, representando, em cada um dos seus tijolos, as divergências e o extremismo que dividiram o mundo e que até hoje permeiam nossa realidade. Quase 30 anos após sua queda, assistimos inertes a construção de novas barreiras e vemos que o discurso de segregação e divisão continua ecoando no panorama internacional. Seja nos discursos do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, seja em território palestino, o mundo continua levantando suas barreiras e gerando divisões.

Na Europa, o passado volta a se repetir, mas, desta vez, em uma escala e proporção continentais. A diferença é que, agora, a barreira é construída para isolar o continente do fluxo de imigrantes e refugiados vindos da sua periferia, sendo, esta, uma tentativa de criar uma ilha de bem-estar e prosperidade, rodeada pelo insucesso das nações vizinhas do norte da África, Oriente Médio e do leste Europeu.

A instabilidade da zona periférica da Europa começou com a Primavera Árabe e se intensificou após o início dos conflitos na Síria, gerando um fluxo massivo de imigrantes e refugiados que arriscam suas vidas diariamente tentando entrar por um dos pontos de acesso ao continente. A sociedade europeia divide-se entre os solidários aos refugiados e os contrários a sua recepção.

Um fator importante para compreender a problemática dos refugiados e imigrantes na Europa é que os países que atuam como fronteira em sua maioria foram afetados duramente pela crise econômica que se alastrou pelo mediterrâneo nos últimos anos, de modo que não conseguiriam absorver esse fluxo de pessoas e o impacto das mesmas em suas debilitadas economias.

Por outro lado, a distribuição e absorção dos refugiados pelos demais países do Bloco é muito deficiente e o sistema de cotas proposto pela União Europeia gera mais discussões que consensos, principalmente em países presididos por partidos mais à direita. Dessa forma, um refugiado deve transpassar diversos territórios com políticas diferentes sobre o processo de asilo e migração, antes de chegar ao idílico coração da União Europeia, ficando muitos deles pelo caminho.

Frente a essa situação, a solução encontrada pelos países fronteiriços foi cercar a Europa e, dessa forma, reduzir o número de pessoas que entram em território europeu. Desde o início da crise migratória, mais de 235 km de cercas e muros foram construídos: 175 Km ao longo da fronteira entre Hungria e Sérvia; 30 Km ao longo da fronteira entre Bulgária e Turquia, que será ampliado para 130 km; 18,7 Km nas cidades espanholas de Ceuta e Melilla; e 10 km na região de Evros (Grécia), próximo à fronteira com a Turquia.

Diariamente ocorrem enfrentamentos nos muros e cercas da União, representando isto uma luta entre o sonho de uma vida melhor e o desespero por não ter nada a perder, frente ao temor ao desconhecido e a falta de empatia das autoridades fronteiriças. 

Mesmo com o inverno, o número de refugiados não para de aumentar, para desespero dos países que atuam como portas da União (e para o incômodo daqueles que se localizam em seu seio, longe das cenas chocantes registradas todos os dias), que afirmam estar dispostos a receber um determinado número de pessoas, sabendo que, a cada passo, e em cada país por onde passa um refugiado, as chances dele chegar ao coração da União vai diminuindo, pois são muitas as barreiras que devem transpor.

Paradoxalmente, a União Europeia, criada com o intuito de integrar seus povos e sua economia, levanta barreiras que lhe separa do resto do mundo e da realidade de milhões de pessoas que clamam todos os dias as suas portas.

———————————————————————————————–

Imagem (Fonte):

http://www.doralnewsonline.com/doralfinal/wp-content/uploads/2015/10/1184593.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
Related posts
Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

Reunião de Alto Nível sobre os direitos da mulher é realizada durante a Assembleia Geral da ONU

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Evo Morales e Rafael Correa fora das eleições na Bolívia e no Equador

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Repressão à greve de professores aumenta preocupação com repressão na Jordânia

ÁSIACOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

China promete fornecer mais tropas para as operações de paz das Nações Unidas

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!