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Europa enfrenta nova onda de Covid19 e de tensões regionais

Embora a União Europeia já não seja o foco principal da pandemia de Covid19 desde junho de 2020, os efeitos econômicos, novos surtos e a escalada das tensões regionais estão longe de ser algo do passado.

Após um ciclo de normalização das atividades, com o fim do Estado de Emergência decretado pelos principais países do Bloco e a abertura progressiva das fronteiras internas e algumas externas, a União Europeia sofre uma nova onda de surtos da Covid19 em países como a Espanha, onde em apenas um dia houve mais de 1.600 novos casos da doença, além do incremento de casos na França, que registrou 3.000 casos, também em apenas um dia,  e na Alemanha.

A livre circulação de pessoas pelo território espanhol é apontada como a principal causa da proliferação de novos surtos no país Ibérico, que volta a ser o principal foco da doença no continente, uma vez que grande parte dos cidadãos usam o mês de agosto para viajar, sendo este o principal período de verão do país, além do fato de a Espanha ser um dos mais escolhidos destinos turísticos da Europa e porta de entrada ao continente. Muitos dos novos casos são importados de outras regiões e se expandem rapidamente, mesmo com o incremento das medidas sanitárias.

Desde o fim do Estado de Emergência, cabe aos governos locais a gestão e controle das políticas de combate à doença em seu território, o que levou algumas regiões a decretar novamente a quarentena ou a restringir o funcionamento de diversos locais e cancelar eventos. Na Galiza (região norte da Espanha), o uso da máscara é compulsório e está proibido até mesmo fumar na rua.

Algumas fronteiras, tais como a da França e Espanha, voltaram a ter um intenso controle e foram parcialmente fechadas, assim como muitos países aumentaram os controles de acesso. Turistas europeus que viajam a destinos com novos surtos, a exemplo da Espanha ou Grécia, devem fazer testes da doença e quarentena em seu regresso à países como Reino Unido ou Suíça, e muitas autoridades desaconselham as viagens internacionais.

Praia dividida em parcelas para evitar contágios na Espanha

Embora o aumento do número de casos em cidades como Madri e Barcelona já superem as cifras do começo da pandemia, sua distribuição assimétrica pelo território espanhol inibiu o governo central de decretar uma nova quarentena nacional, embora especialistas apontem já para uma segunda onda com possibilidades de novo colapso do sistema sanitário.

Ainda assim, o anúncio de uma vacina patenteada pela Rússia foi visto com desconfiança dentro da União Europeia, pelo fato de que a mesma, segundo apontam as autoridades sanitárias, não cumpriu com os protocolos internacionais de validação científica e demonstração de resultados. Por outro lado, continuam as investigações de novas vacinas em praticamente todos os Estados do Bloco e países vizinhos.

Porém, não somente o regresso da Covid19 assola a Europa. Os fluxos migratórios no Mediterrâneo e no leste da Europa se incrementam durante o verão no hemisfério norte, sendo um perigo adicional nesta pandemia, pela falta de controle sanitário de grande parte dos imigrantes que chegam ao território.

No panorama político, as tensões crescentes entre a Grécia e a Turquia colocam em evidência o atrito de interesses do Bloco e dos países participantes da OTAN, além das políticas territoriais conjuntas. A esse panorama é preciso também adicionar o incremento da instabilidade nos países do leste Europeu, com a recentes eleições na Belarus e o bloqueio de verbas do União Europeia para a Polônia, devido às suas políticas discriminatórias contra a população LGBTQIA+ e sua saída do Acordo de Istambul, além do incremento do discurso de extrema direita na região, que se confronta com os objetivos da União Europeia.

Aumenta atividade militar no Mar Egeu (Grécia e Turquia)

As negociações do Brexit também fazem parte do difícil cenário político neste segundo semestre de 2020, onde as economias da União Europeia estão enfraquecidas após os resultados da pandemia.

Alemanha, Itália, França e Espanha acumulam perdas importantes no seu PIB, com uma recessão superior à da Crise Financeira Internacional. O desemprego e a redução da demanda interna e externa ameaçam a produção de diversos países e o plano de recuperação econômica pode não ser suficiente para resolver a situação. A desvalorização de moedas dos países emergentes afeta mais ainda a competitividade da Europa, por haver um aumento considerável da valorização do Euro e, consequentemente, dos produtos produzidos na região.

A situação econômica volta a ser discutida no Parlamento europeu, onde existem diversos impasses em relação ao orçamento da União. Por outro lado, a transição energética fomentada pelo Bloco busca reduzir a dependência de países terceiros e reduzir os custos de produção. Sem embargo, a mesma é desigual e acaba afetando países com menos fôlego financeiro, aumentando ainda mais as assimetrias internas, de modo que a Europa não enfrenta somente uma segunda onda de Covid19, mas, também, uma segunda onda de todos os temas que permearam a economia e a política da região durante o primeiro semestre de 2020, em um cenário internacional cada vez mais complexo e marcado pelo incremento do atrito entre Estados Unidos e China, ambos importantes parceiros econômicos dos europeus.

A capacidade de gestão e futuro do Bloco é o que está em jogo, fazendo com que este seja um momento divisor de águas, quando o fracasso levaria ao colapso de todo o continente e o sucesso a uma nova transição da região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Europa Unida contra Coronavirus” (Fonte):

https://static3.ideal.es/www/multimedia/202005/04/media/1424505332.JPG

Imagem 2 Praia dividida em parcelas para evitar contágios na Espanha” (Fonte):

https://e00-marca.uecdn.es/assets/multimedia/imagenes/2020/05/23/15902592567560.jpg

Imagem 2 Aumenta atividade militar no Mar Egeu (Grécia e Turquia)” (Fonte):

https://www.alertageo.org/wp-content/uploads/2020/08/grecia-turquia.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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