fbpx
NOTAS ANALÍTICAS

“Europa não é sinônimo de Bruxelas”: Margaret Thatcher e a União Europeia

Margaret ThatcherI want my Money back!”* é sem dúvida uma das frases mais conhecidas de Margaret Thatcher enquanto “Primeira-Ministra do Reino Unido”, proferida durante um discurso feito ao tentar renegociar as contribuições de seu pais à “União Europeia” (UE)[1].

Com a sua morte, no último dia 8 de abril, as autoridades em Bruxelas escolheram atentamente as palavras ao descrever a “Dama de Ferro”. Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu mencionou sua “personalidade marcante” enquanto que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, relembrou suas contribuições e reservas ao projeto europeu[2]. Thatcher sempre foi uma figura polêmica, líder política de opiniões fortes e conhecida eurocética** nos corredores de Bruxelas, sendo capaz de tudo menos de causar indiferença por onde passava.

Em sua relação com a então “Comunidade Econômica Europeia” (CEE), os primeiros anos de Thatcher ficaram marcados por disputas a respeito das contribuições do “Reino Unido” (UKUnited Kingdom) para o orçamento europeu. Passou quatro anos negociando até que, finalmente, obteve de volta o “seu dinheiro”, que veio na forma do famoso “rebate” britânico. Para a consecução desse “rebate”, Thatcher fora figura chave, pois alegou que o UK era o segundo maior contribuinte para o orçamento europeu, na frente da França e atrás apenas da Alemanha, e não recebia o suficiente em políticas comunitárias, especificamente a Política Agrícola Comum, o maior gasto do bloco naquela época[3].

Nos anos seguintes, passou a criticar os avanços no projeto europeu no que tangia à transferência de soberania do UK à Europa (ou Bruxelas). Como crítica dos avanços da UE em domínios como a integração monetária, em um dos seus mais famosos discursos, proferido na cidade belga de Bruges, em 1988, Thatcher afirmou que era inaceitável diminuir o tamanho do Estado britânico para ver tal Estado ser reimposto à nível europeu, como um superestado exercendo controle a partir de Bruxelas[4].

Conforme apontam especialistas, é errado crer que Thatcher apenas atrasava a integração regional europeia, visto que muitos estudiosos mencionam seu importante papel ao apoiar uma futura integração dos países da Europa Central e do Leste, que faziam parte da União Soviética na época, à UE. Assegurou também a implementação do chamado “Ato Único Europeu” que, dentre outras medidas, previa o ano de 1992 como limite para completar o “Mercado Único”, o qual envolveu medidas como a remoção de barreiras à livre circulação de trabalhadores e a harmonização de normas técnicas nacionais[5].

É importante ressaltar que a própria “Europa” fora responsável, em parte, por sua saída do Parlamento britânico, quando Thatcher se recusou a apoiar o fortalecimento das instituições comunitárias, proposto pelo então presidente da Comissão Européia Jacques Delors. Neste momento ela perdeu apoio de importantes membros de seu gabinete[6].

Sua influência nas relações do UK com a UE pode ser percebida hoje em dia. O próprio atual Primeiro-Ministro, o também conservador David Cameron, reconhece que sempre que negocia algo em Bruxelas é o “rebate” britânico de Thatcher que ele defende[7].

No entanto, o que se observa é um “Reino Unido” cada vez mais eurocético e distante das discussões mais importantes do bloco, que não quer apenas “seu dinheiro” de volta, mas também seus poderes, sua soberania e um referendum. Parte dos analistas começa a confluir para a posição de que esse, sim, foi o maior legado de Thatcher.

———————–

* “Eu quero meu dinheiro de volta!”

** Eurocético é um termo comumente utilizado para descrever pessoas que vêem ressalvas à integração europeia.

———————–

Imagem (Fonte):

https://ceiri.news/wp-content/uploads/2013/04/thatcherms0311_468x7772.jpg

———————–

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.euractiv.com/uk-europe/thatcher-european-legacy-news-518957
[2] Ver:

http://go.bloomberg.com/euro-crisis/2013-04-09/brussels-and-mrs-thatcher/

[3] Ver:

http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=631739
[4] Ver:

http://www.euractiv.com/uk-europe/thatcher-european-legacy-news-518957

[5] Ver:

http://www.euractiv.com/uk-europe/thatcher-european-legacy-news-518957

[6] Ver:

http://www.euractiv.com/uk-europe/thatcher-european-legacy-news-518957

[7] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/politics/margaret-thatcher/9980360/Margaret-Thatcher-Conflict-over-Europe-led-to-final-battle.html

About author

Mestre em Estudos Europeus pela Universidade Católica de Louvain e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade da Amazônia - UNAMA. Estagiou durante um ano na Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia onde atuou na área de promoção do Comércio Exterior do Estado do Pará e, ao mesmo tempo, trabalhou como voluntario no GADE, grupo interessado em promover o voluntariado no Estado do Pará. Sempre interessado por integração europeia, realizou pesquisas envolvendo temáticas sobre a Política Agrícola Comum Europeia e sua relação com o livre-comércio e também sobre a evolução do Mercado Único e do setor de serviços da União Europeia. Morou seis meses em Varsóvia onde foi estudante Erasmus na Warsaw School of Economics.
Related posts
ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Fundo Monetário Internacional estima crescimento da economia chinesa em quase 2%, contrariando tendência mundial

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Conselho Europeu se reúne para tratar de ação conjunta europeia para combater a COVID-19

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

As cidades mais caras da América Latina

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!