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Europa se prepara para sair da quarentena

Quase 4 meses depois do primeiro caso de Covid-19 diagnosticado em Paris, no dia 25 de janeiro de 2020, e após uma rápida expansão pelos países do Bloco, especialmente Itália e Espanha, a União Europeia (UE) aos poucos acorda de um pesadelo que manteve em letargia praticamente toda atividade na região, despertando em um cenário conturbado, cheio de divisões e indecisões.

O pior já passou” – ao menos é a mensagem que as autoridades tratam de transmitir à população que aos poucos se prepara para retomar a normalidade. A tão temível curva de contágio finalmente foi superada e o número de casos positivos é inferior as altas médicas e recuperados. Os hospitais aos poucos voltam a ter leitos disponíveis nas UTIs e os testes realizados confirmam essa redução.

Mas, a volta à normalidade será lenta e gradual, dividida em 3 ou 4 fases, conforme a situação de cada país e região afetada, levando em consideração não somente as taxas de contágio, mas também fatores demográficos, produtivos e sociais. Sem embargo, o Estado de Alarme promulgado em diversos países, e que deve ser aprovado pelos respectivos Congressos, deixou de estar ativado entre maio e junho deste ano (2020), sem outras renovações.

Fases do fim da quarentena Espanha – Fonte: Lavoz.es

Em localidades cujo índice de contágio é inferior a 1 (ou seja, cada pessoa contagiada transmite em média a somente outra pessoa), e conforme suas dinâmicas locais, o processo pode ser agilizado. Ilhas, comunidades rurais e pequenas cidades são as primeiras da lista. Nas grandes cidades, tudo vai depender do número de casos, da taxa de contágio e da evolução da epidemia.

As medidas tomadas a nível nacional são referentes à geração de um cronograma e à cessão de competências, e se concentram principalmente no ambiente político e econômico. Os países do Bloco devem agora enfrentar os efeitos da paralisação econômica que assolou a Europa, eliminou diversos empregos e afetou setores inteiros. Um cenário semelhante ao da Crise Financeira Internacional, porém com o agravante da Guerra Comercial Sino-Americana e dos efeitos do pós-Brexit.

O fundo econômico para a recuperação da União Europeia é uma das muitas ferramentas que os Estados estão litigando na tentativa de minimizar o cenário, assim como políticas de ajuda ao campo, subvenções e programas de distribuição de renda, embora todo esforço, quando colocado na prática, deva levar os países a uma delicada situação financeira, devido à elevada dívida pública, à desvalorização das moedas emergentes, à redução dos preços das commodities e à demanda de produtos industrializados.

Detalhe Plano de Recuperação Econômica da EU – Fonte: Comissão Europeia

Cientes desse panorama desafiador, a União Europeia preferiu se manter a uma certa distância das tensões entre Estados Unidos e China, principalmente no que se refere a pandemia provocada pela Covid-19. Uma “neutralidade” já questionada pela gestão Trump, que busca no populismo e no nacionalismo sua reeleição, ainda que o país americano tenha superado 1 milhão de contagiados.

O europeu aos poucos se sente livre da monotonia da quarentena, mas preso no pesado fardo que deverá levar em suas costas na tentativa de recuperar a economia e a estabilidade da região.

Como contraponto a essa necessidade de gerar uma coesão e ação conjunta dentro do Bloco, o discurso eurocético e de extrema direita ganha força novamente, apelando para o sensacionalismo, sem estabelecer o equilíbrio necessário entre direito e obrigação dos Estados dentro da União Europeia. Aproveitam-se da situação de anomia para estimular uma forte rejeição à globalização, à migração, à integração econômica e à cooperação econômica, como se os países da Europa fossem os antigos senhorios e pudessem ajudar somente àqueles vassalos oriundos do local, ainda que, por outro lado, muito sejam os setores que sentem a falta dos estrangeiros, sejam eles como turistas, ou como trabalhadores do campo, cuja ausência ameaça as colheitas.

Talvez, não somente o cidadão deva acordar após a hibernação da quarentena, mas também os Estados e a própria União Europeia, que devem aproveitar a saída desta trágica situação para fortalecer tanto a integração como a conscientização social e os chamados valores europeus.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa Coronavirus” (Fonte): https://who.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/ead3c6475654481ca51c248d52ab9c61

Imagem 2 Fases do fim da quarentena Espanha Fonte: Lavoz.es” (Fonte): https://www.lavozdegalicia.es/default/2020/04/29/00121588115121646896457/Foto/CalendarioDesescalada-01.jpg

Imagem 3 Detalhe Plano de Recuperação Econômica da EU Fonte: Comissão Europeia” (Fonte): https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/2020-03-30_economy_response.png

About author

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.
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