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ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

From Russia With Love[1]

É a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida? Para o escritor irlandês Oscar Wilde a resposta para tal questão é simples: “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida…”. Os analistas, apesar de se preocuparem mais com o conteúdo científico de suas argumentações, ainda assim respeitam os literatos e indagam sobre suas enunciações. Neste caso interrogam: será que Wilde tinha razão?

No dia 15 deste mês (janeiro de 2013) teve início, em Stuttgart, o julgamento do suposto casal de agentes que vive na Alemanha há de 20 anos. Segundo a acusação, repassando informações estratégicas à “Agência de Inteligência” russa[2]. O Sr. Andreas Anschlag, de 54 anos, juntamente com sua esposa, a Sra. Heidrun Anschlag, 48 anos, mudaram-se para a Alemanha há mais de 20 anos. Em suas identidades, declaradas pelos acusadores como falsas[3], constam que ambos nasceram na “América do Sul”, embora tenham entrado no país portando passaportes austríacos. Nos últimos anos, viveram em uma pequena cidade alemã, Meckenheim, com cerca de 24.000 habitantes, perto da antiga capital da então “Alemanha Ocidental”, a cidade de Bonn. De acordo com o conteúdo do processo, nenhum de seus vizinhos suspeitou da verdadeira natureza do casal. Aparentemente, o sobrenome Anschlag – que em alemão significa “golpe”, “batida”, “trama”, “conspiração”* – não levantou suspeitas.

Em outubro de 2011, o Sr. e a Sra. Anschlag foram presos, após o “Serviço de Inteligência” alemão[4] ter sido informado da existência de supostos espiões russos através do serviço de inteligência norte-americano que havia, por sua vez, recebido tal informação de um desertor(a) russo(a)**, de acordo com o que foi divulgado.

Andreas, engenheiro mecânico, fora detido a 200 km de sua moradia, já sua mulher, dona-de-casa, fora presa na residência, em um momento digno dos grandiosos filmes de espionagem. No momento em que os policiais adentraram a casa do casal, de acordo com a procuradoria, Heidrun estava sentada a sua mesa recebendo mensagens codificadas através de um aparelho que operava por frequência de ondas curtas.

Após mais de um ano de investigações, tem início o julgamento na Alemanha. De acordo com os autos***, o casal atua como espiões no país por mais de 20 anos (Andreas chegou à Alemanha em 1988, já sua esposa, em 1990) sob o comando, primeiramente, da antiga “União Soviética” e, posteriormente, da “Federação Russa”.

Os procuradores federais acusam ambos de espionagem (primeiro caso desde o término da “Guerra Fria”, em 1991) e de falsificação de documentos. Ademais, são acusados de repassar planos e informações estratégicas da “União Européia” (UE) e da “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) a Moscou. O escritório da Procuradoria afirma: “Os acusados tiveram a tarefa de reunir informações sobre a estratégia política e militar da UE e da OTAN, bem como aspectos políticos relevantes de segurança das relações entre Alemanha, UE e OTAN com a Rússia”**.

De acordo com o jornal de Berlin, “Die Welt”, o Sr. e a Sra. Anschlag estavam recrutando, ensinando e administrando outros agentes que viviam na Alemanha e em países vizinhos, criando uma de rede agentes****. Ainda segundo os acusadores, um deles fora identificado: o funcionário do “Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos”, o diplomata Raymond Poeteray, que foi preso no início de 2012, também acusado de repassar informações e documentos da UE e da OTAN, entre 2008 e 2011.

A procuradoria declarou que as informações eram trocadas através de “dead letter drops”*****. Os relatórios eram enviados por satélite, além do uso de um portal de vídeos na Internet, o “YouTube”, para a troca de mensagens secretas. Heidrun comunicava-se com seus superiores através de comentários codificados no portal de vídeos utilizando o nome Alpenkuh1 (“Alpen” em alemão significa “Alpes”; “Kuh”, por sua vez, significa “vaca”).

O advogado de defesa, Horst-Dieter Pötschke, ainda não definiu sua estratégia em relação ao caso, evitando dar respostas conclusivas sobre a veracidade das acusações. O “advogado dos espiões”, como é conhecido, defendeu diversos ex-agentes durante os anos 70 e 80. Seu caso mais famoso deu-se na defesa de Günter Guillaume, espião da antiga “Alemanha Oriental” que se infiltrou na então “Alemanha Ocidental”, tornando-se um funcionário próximo ao Chanceler Willy Brandt. No primeiro dia do julgamento, os acusados utilizaram seu direito de permanecer em silêncio. Se condenados, poderão receber uma sentença de até 10 anos de prisão.

O Governo alemão realizou, tempos atrás, um pedido de troca ao governo russo. A negociação envolvia a troca do casal Anschlag por agentes alemães detidos na Rússia. Embora tal negociação ainda não tenha obtido sucesso, especula-se na mídia que, ao final do julgamento, os acusados serão enviados ao seu país de origem, conquanto não se saiba em troca de quem. “Meus clientes não perderam a esperança de que este tipo de troca ainda será possível após a decisão do tribunal”***, declarou o advogado, numa forma em que indiretamente acata as acusações.

Durante seus anos na Alemanha, o casal teve uma filha. Estudante de medicina, a Srta. Anschlag afirmou as autoridades de que não sabia dessa possível vida dupla de seus pais. Novamente, é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida? Neste caso, de acordo com uma das vizinhas do casal, “de repente, tínhamos este thriller de espionagem acontecendo bem fora de nossa janela – era melhor do que os filmes”***.

Estudiosos acadêmicos da área afirmam que, independente das questões tratadas, deve-se destacar que as atividades de Inteligência ocorrem em todos os Estados, sendo comum profissionais do meio de todos os países aturarem no mundo inteiro coletando informações para nortear os planejamentos estratégicos e condutas diplomáticas dos Governos de suas sociedades de origem.

Conforme apontam observadores, o fato, em si, não perturba a ordem internacional, uma vez que apenas acentua prática corriqueira das atuações dos Estados, tanto que, conforme divulgado, o casal, caso condenado (já que está sob investigação e até o momento são acusações) poderá ser trocado por agentes alemães que estão na Rússia, ressaltando-se ainda o comportamento do Estado russo que evita tornar fatos comuns da política entre Estado em shows midiáticos, quando caso similares ocorrem em seu território. Interpretam os analistas que este comportamento sério e correto é uma forma de impedir que problemas de Política internacional e diplomacia virem palco para delírios públicos e estórias sensacionalistas, criando situações que podem desdobrar-se em contenciosos verdadeiros.

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[1] Obs: o título desta análise é uma referência ao segundo filme (1963) da série cinematográfica protagonizada pelo personagem James Bond, agente secreto do governo britânico.

[2] Atualmente, o “Serviço Federal de Segurança da Federação Russa” (FSB).

[3] No termo técnico “história cobertura”, ou “história de cobertura”, como falam alguns.

[4] O BundesnachrichtendienstBND, em português “Serviço Federal Informações”, ou “Serviço Federal Inteligência”. Como se trata de uma atividade de Estado, esta última tradução se mostra melhor).

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Fontes consultadas:

* Ver:

Tochtrop, Leornardo. Dicionário alemão-português. Rio de Janeiro: Globo, 7ª Ed., 1987.

** Ver:

http://www.dw.de/two-suspected-russian-spies-go-on-trial-in-germany/a-16521759

*** Ver:

http://www.dw.de/court-tries-couple-in-suburban-spy-thriller/a-16520144

**** Ver:

http://en.rian.ru/crime/20130117/178846883.html

***** Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Dead_drop

 

About author

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.
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