ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Futebol no Oriente Médio a caminho da Copa em 2022

O futebol no Oriente Médio não é estranho às manchetes das páginas de esportes no Ocidente. As transferências milionárias de grandes jogadores em vias de se aposentarem na Europa, ou de jovens promessas tentando escapar da incerteza do mercado na América do Sul são temas recorrentes de projeção e debate. 

A decisão da Federação Internacional de Futebol, Associação (FIFA, da sigla em francês de Fédération Internationale de Football Association) de conceder a sede da Copa do Mundo de Futebol Masculino em 2022 para o Qatar suscitou os mais diversos tipos de reação. O investimento entre US$ 6-8 bilhões* para construir novos estádios e a mudança da competição para dezembro demonstram até onde o país estava disposto a ir para ser sede do evento.

A empreitada do Qatar acontece no marco mais amplo de uma disputa regional. O uso do esporte é uma ferramenta para alcançar prestígio internacional, bem como consolidar-se em posição de vantagem frente a vizinhos como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Apesar da disputa regional e do bloqueio imposto ao Qatar, esses países necessitaram replicar imagens da Al-Jazeera para transmitir a Copa do Mundo de 2018 em seus territórios. A relação com o público pode ser ainda mais difícil, caso as restrições de viagens se mantenham enquanto o país sedia o maior evento de futebol no planeta.

Logo da Copa do Mundo de 2022, que será realizada no Qatar

Para além da realização da Copa do Mundo de Futebol, o Estado catari investiu na melhora dos resultados esportivos. Com uma seleção composta de jogadores que nasceram em 10 países diferentes, sagrou-se campeão da Copa da Ásia em 2019, se impondo a adversários no esporte e na política, como o país-sede Emirados Árabes Unidos. Também garantiu uma participação na Copa América, que ocorre no Brasil entre junho e julho de 2019.

De elemento fortalecedor de identidades nacionais, facilitador para mobilizações políticas, até espaço de disputa, o futebol é um fator extremamente presente na vida das pessoas. Por conta disso, é uma ferramenta de soft power tão almejada.

Entretanto, não somente devido a transações milionárias o esporte se destaca, ele possui, também, um lugar histórico na região, carregado de significados indenitários e políticos. Como em muitos lugares do mundo, futebol e política conectam-se em mais de um aspecto, e o esporte expressa muito sobre as sociedades e sua organização.

Durante os eventos da Primavera Árabe, torcidas organizadas foram um ponto central de organização de protestos no Egito e na Tunísia. Para alguns analistas, o ambiente político repressivo encontrava um alívio nos estádios. O jornalista James M. Dorsey também afirmou ao portal Play the Game que a experiência dos torcedores nas disputas de rua foi essencial para manter coesão no princípio dos protestos. Outro exemplo que pode ser citado, é que, em contraposição à discussão que se arrasta faz décadas quanto ao reconhecimento do Estado Palestino em distintos fóruns internacionais, o país faz parte da FIFA desde 1998.

Jogador segura bandeira do Qatar após vitória sobre os Emirados Árabes Unidos na Copa da Ásia

Uma recente disputa tem acontecido no órgão, que é o pedido por parte da Federação Palestina, que demanda punições à Israel por estabelecer uma série de clubes baseados nos assentamentos localizados nos territórios da Faixa de Gaza e promover estas equipes no campeonato nacional israelense.

Outro exemplo de embate político envolvendo o futebol e as relações entre estes dois povos veio logo antes da realização da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. A agenda preparatória da seleção da Argentina incluía um jogo amistoso em Jerusalém, contra a seleção israelense. A pedido da Autoridade Nacional Palestina e diversas organizações, Lionel Messi e seus companheiros desistiram de cumprir com a agenda no Oriente Médio.

Os estádios no Oriente Médio também têm sido espaços para disputas envolvendo questões de gênero. Depois de anos de pressão, mesmo após uma lei assinada pelo então presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2006, o público feminino passou a ser aceito nos estádios do Irã, algo que ocorreu  a partir de outubro de 2018. 35 anos após a Revolução Islâmica decretar que a presença de mulheres nos estádios contrariava princípios religiosos, a decisão foi comemorada como uma expansão das liberdades civis.

Apesar dos vultuosos investimentos de ricos setores do Oriente Médio em grandes clubes europeus aumentar a cada ano, o papel social do esporte também tem tido crescente importância. Como afirmou o jornalista James M. Dorsey ao “The Mint”, na região é “a única instituição que pode rivalizar – ao evocar tanta paixão – com a religião”, permitindo ao esporte ser um espaço de realização, ou também influenciar sentimentos.

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Nota:

* Aproximadamente entre 23,5 e 31,4 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 31 de maio de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto da Seleção Nacional do Qatar durante a Copa da Ásia em 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Qatar_national_football_team.jpg

Imagem 2Logo da Copa do Mundo de 2022, que será realizada no Qatar” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Qatar_2022_Logo.png

Imagem 3Jogador segura bandeira do Qatar após vitória sobre os Emirados Árabes Unidos na Copa da Ásia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/61/Ali_Afif_%286376451251%29.jpg/1600px-Ali_Afif_%286376451251%29.jpg

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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