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Governo de Essebsi deverá ter a segurança nacional como questão política chave nos próximos anos

Em um breve olhar pela história, observa-se que os direitos humanos são conquistados a partir de uma tríplice base econômica, política e social de sustentação: taxas satisfatórias de renda per capita, ausência de guerras/conflitos e instituições públicas democráticas[1]. Não à toa, o período em que maiores direitos foram conquistados – o sufrágio universal em diversos países e a luta por maiores direitos civis às mulheres, negros, indígenas e LGBT’s, por exemplo – foi justamente após a segunda guerra mundial, período onde regimes democráticos e economias industriais se consolidaram em várias nações do mundo.

Entre os países que presenciaram intensos protestos em prol dos direitos humanos no Norte da África em 2011, somente a Tunísia viu ser consolidado um sistema político realmente democrático, com vistas a ampliar os direitos individuais nos próximos anos. Dessa maneira, inserida em uma parte do continente onde o autoritarismo e o extremismo religioso prevalecem, a Tunísia aparece como verdadeiro porto seguro aos ideais liberais e democráticos.

Entretanto, os recentes ataques a turistas, em sua maioria de origem europeia, ameaça esta imagem[2][3], levantando a questão de entender em que medida o governo tunisiano combaterá grupos extremistas remanescentes nos país sem impor medidas de segurança autoritárias, algo que levará por água abaixo as recentes conquistas sociais.

Na realidade, entender se o Governo do atual presidente Béji Essebsi – eleito democraticamente em dezembro do ano passado – será capaz de manter sua popularidade e apresentar um plano efetivo de combate aos grupos terroristas.

O ataque aos turistas na praia de Sousse, há duas semanas, bem como a sua repercussão na mídia internacional, apontam a magnitude da questão a ser lidada por Essebsi. Dias após a ação, agências de turismo reportaram significativa queda na venda de pacotes turísticos à região, ou mesmo o cancelamento de viagens já marcadas: a Associação de Viagens Alemã, por exemplo, divulgou que cerca de 40% dos alemães que haviam marcado uma viagem à Tunísia neste verão europeu cancelaram os seus planos[4].

A expressiva importância do setor turístico à economia tunisiana leva a induzir que a resposta do governo de Essebsi deverá ser intensa. O choque na demanda por pacotes turísticos após o ataque na praia de Sousse aparece como relevante perturbação econômica, capaz de reduzir ainda mais as miúdas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto nos últimos anos.

A resposta do Governo tunisiano após o ataque a Sousse foi imediata: na semana passada mandou fechar dezenas de mesquitas ao redor do país, acusando-as de propiciar discursos extremistas[5]. Também outra medida já aprovada é a permissão concedida à polícia em reter um suspeito de terrorismo por quinze dias sem advogado; antes do ataque à Sousse, eram seis dias[5].

O Governo luta por colocar em prática medidas que demonstram aos turistas e aos investidores internacionais a estabilidade política e social desse país, e que tanto o ataque à Sousse quanto o ataque a turistas no Museu Nacional de Bardo, em março, não passaram de meros pontos fora da curva.

Contudo, a linha divisora entre policiamento efetivo e autoritarismo é obscura e práticas antidemocráticas de vigilância podem surgir à qualquer momento caso as medidas já tomadas não evitem que maiores ataques sejam executados.

Soma-se que o combate ineficiente aos terroristas remanescentes pode significar não somente a perda de apoio popular ao Governo de Essebsi, mas também a emergência de um governo autoritário, cujo repertório de legitimação esteja baseado na manutenção da ordem social abalada pelos ataques terroristas. Isto, de certo, poria fim às conquistas sociais arduamente conquistadas na Primavera Árabe, em 2011.

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Imagem (FonteBusiness News):

http://www.businessnews.com.tn/beji-caid-essebsi–je-suis-le-garant-contre-le-retour-de-lomnipotence,520,50781,3

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Banco Mundial”:

http://www.worldbank.org/en/news/feature/2013/09/24/Economic-Development-Equal-Rights-for-Women

[2] Ver The Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/jul/03/mediterranean-crises-tunisia-greece-france-italty-migration-tourists-summer-holiday

[3] Ver The New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/07/01/world/africa/gunman-at-tunisian-beach-hotel-trained-with-museum-attackers.html?ref=africa&_r=0

[4] Ver The Washington Post”:

http://www.washingtonpost.com/world/africa/tourists-recount-horror-of-terror-attack-on-the-beach/2015/06/27/49209f2e-1c4d-11e5-bed8-1093ee58dad0_story.html

[5] Ver “Estado de S. Paulo; Internacional; Visão Global: ‘A Tunísia e o Terrorismo’, de Hugh Taylor. Quinta-feira, 2 de junho de 2015”.

              

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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