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Grécia e Turquia retomam conversas para resolver antigas pendências

O Ministro das Relações Exteriores da Grécia, Georgios Katrougalos, anunciou que visitaria a Turquia na última quinta-feira (21 de março de 2019). Desde a tentativa de golpe no país islâmico, em 2016, a relação entre gregos e turcos, que sempre foi tensa, se deteriorou. Entretanto, fatos recentes mostram uma reaproximação dos países que são aliados militares da OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte), mas rivais históricos, sobretudo pelas disputas insulares no Mar Mediterrâneo, que duram até hoje.

A situação do Chipre é um exemplo nesse sentido. Trata-se de uma pequena ilha no Mar Mediterrâneo, localizada ao sul da Turquia e a oeste da Síria e do Líbano. Ali existem dois países, sendo um amplamente reconhecido pelas Nações Unidas (ONU), a República do Chipre; e o outro é a República Turca do Chipre do Norte, reconhecido apenas pela Turquia. Desde a década de 1960 existe na ilha uma missão da ONU para o restabelecimento da paz, mas o desentendimento entre Grécia e Turquia sobre esse tema é fundamental para a continuação desta questão.

Mapa do Chipre

Apesar da rivalidade, Katrougalos alegou que também é do interesse da Grécia que a Turquia seja membro da União Europeia. Este é um pleito dos turcos de longa data, mas nunca aceito pela entidade política regional da Europa. Inclusive, este foi um tema bastante aventado durante a crise migratória europeia em 2015, em que a Turquia teceu um acordo com a UE para ajudar a resolver a situação. Apesar deste discurso do Ministro, é pouco provável pensar que a Turquia deva, de fato, entrar na UE, devido à forte resistência dentro do Bloco, principalmente em função da religião islâmica e pela proximidade turca com a Rússia.

Uma possibilidade desta reaproximação reside no encontro que deverá ocorrer em abril (2019) entre representantes de ambos os governos para tratar de disputas limítrofes no Mar Egeu. Desde antes do advento da Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (CNUDM, 1982), existe um impasse entre os países, uma vez que as ilhas gregas situadas próximas à costa turca limitam a navegação, bem como a explotação de recursos por parte da Turquia em suas águas jurisdicionais. Como esperado, a Grécia é signatária original da Convenção de Montego Bay, como também é conhecida a CNUDM; e a Turquia jamais firmou esse compromisso.

Ilhas gregas no Mar Egeu

Entretanto, na contramão desse processo, Grécia e Israel estão conversando sobre um plano israelense de instalar um radar marinho na Ilha de Creta, localizada ao sul da península grega, justamente para monitorar atividades de navegação na região, envolvendo não só os dois países, mas também a República do Chipre, cuja maioria populacional é de cipriotas gregos. Chamado de “Long Horizon”, este radar alcança um raio de 600 km ao seu redor, auxiliado por veículos aéreos não tripulados (VANTs). Sendo assim, ele tem capacidade não apenas de observar a região de interesse entre as partes, mas também as águas turcas e até mesmo o território do país.

Os entraves políticos de Grécia e Turquia possuem um caráter desestabilizador na região. Apesar de ambos pertencerem à mesma aliança militar que conta também com a participação dos Estados Unidos da América, maior garantidor da OTAN, as tensões são presentes e dificultam avanços nas conversas envolvendo a situação do Chipre, bem como outras políticas relacionadas ao Oriente Médio. Se houver sucesso nos próximos encontros entre os representantes governamentais das duas nações, será possível endereçar resoluções assertivas no que diz respeito ao Chipre. Do contrário, seria apenas mais uma tentativa frustrada de solucionar os problemas da região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Mapa de Grécia (azul) e Turquia (vermelho)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Turkey-greece.svg

Imagem 2Mapa do Chipre” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:EEZ_border_between_North_Cyprus_and_Turkey.jpg

Imagem 3Ilhas gregas no Mar Egeu” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aegean_Sea_with_island_groups_labeled.gif

About author

Bacharel em Defesa e Gestão Estratégica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM/EGN). É pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura, participando da produção do Boletim Geocorrente, ambos da mesma instituição. Suas principais áreas de interesse envolvem as políticas de Defesa do Reino Unido, com enfoque na Marinha; Brexit e movimentos separatistas europeus; questões marítimas globais; e Geopolítica.
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