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Grupo terrorista Al-Shabaab almeja influenciar a mídia internacional

Enquanto a história da caça ao leão for contada pelos caçadores, os leões serão sempre perdedores”, com base nesse provérbio africano, estudo recente publicado pelo Centro de Comunicação Estratégica da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) analisa a eficácia do grupo terrorista Al-Shabaab em tentar influenciar a mídia internacional por meio da utilização de redes sociais, principalmente o Twitter, construindo, dessa forma, sua própria narrativa sobre os acontecimentos.

Mapa da Somália

Ainda que a relação entre extremismo e internet seja comumente associada ao autoproclamado Estado Islâmico (EI), pode-se afirmar, conforme a pesquisa, que o Al-Shabaab, organização somali que atua na região do Chifre da África e cujo nome significa “A Juventude”, em árabe, é precursor de várias estratégias no âmbito do ciberespaço que futuramente seriam utilizadas também pelo EI.

Com base na chamada “Propaganda pelo Ato”, ou seja, na realização de ataques que possam servir de inspiração para futuros atentados, o estudo aponta que o Al-Shabaab produz conteúdo midiático especificamente elaborado para alcançar a mídia internacional, como vídeos que se destinam aos programas televisivos de notícias dos grandes conglomerados de comunicação, e o divulga por meio de suas contas nas redes sociais.

Robyn Kriel, a autora do estudo, afirma que, nessas iniciativas midiáticas, o grupo se preocupa em moldar o tipo de narrativa que será elaborada sobre os ataques, sendo positiva a “cobertura que leva ao aumento da notoriedade para o grupo, mais credibilidade no palco do terrorismo global, um surto de recrutamento, um aumento do apoio público para a diáspora somali, bem como o apoio da população local”.

Nesse sentido, no ataque ocorrido em setembro de 2013 a um centro comercial no Quênia, os integrantes do Al-Shabaab, ao postar a ofensiva em tempo real pelo Twitter, conseguiram dar visibilidade internacional às suas demandas contra a presença de tropas quenianas na Somália, além de tornar evidente, segundo Kriel, o despreparo das forças do Quênia, uma vez que, comparativamente, as próprias comunicações do governo queniano sobre o atentado se mostravam desatualizadas ou incorretas, gerando, assim, uma publicidade internacional negativa em relação à resposta do governo daquele país ao ataque.

Ataque do Al-Shabaab ao centro comercial Westgate, no Quênia, em 2013

No mesmo sentido, em 2016, ao atacar uma distante base militar do Quênia no sul da Somália, o Al-Shabaab, por meio do compartilhamento de notícias no Twitter sobre o atentado, acabou servindo de fonte de informações para a imprensa internacional, já que as informações do governo queniano se mostraram, novamente, imprecisas.

Ainda conforme a autora, a utilização pioneira de contas no Twitter pelo grupo começou por volta de 2010, com postagens em inglês para aumentar o apelo à imprensa internacional e a possibilidade de recrutamento de futuros jihadistas. Devido às dificuldades de segurança e de infraestrutura para o envio de jornalistas para o país, essas contas passaram a servir de fontes de informação para a imprensa internacional, com jornalistas as seguindo e frequentemente interagindo com os seus respectivos usuários.

Assim, Robyn Kriel assevera que, ao enfocar a noção de veracidade e de se contrapor às comunicações oficiais do governo queniano, acusando-as de inverídicas, o Al-Shabaab potencializa a sua própria legitimidade local e internacionalmente, atitude que os próprios jihadistas consideram imprescindível para a defesa da sua causa. A autora conclui que os opositores ao grupo, inclusive a comunidade internacional, também precisam perceber a relevância desse processo de construção de legitimidade para combater o Al-Shabaab.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo do AlShabaab ” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Al-Shabaab_(militant_group)#/media/File:ShababLogo.png

Imagem 2 Mapa da Somália” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Somalia#/media/File:Somalia_-_Location_Map_(2011)_-_SOM_-_UNOCHA.svg

Imagem 3 Ataque do AlShabaab ao centro comercial Westgate, no Quênia, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Westgate_shopping_mall_attack#/media/File:Smoke_above_Westgate_mall.jpg  

                                                                                              

About author

Mestre em Relações Internacionais (UEPB), especialista em Direito Internacional e Comércio Exterior (UnP) e bacharel em Relações Internacionais (UnP). É professor universitário e coordenador acadêmico, interessa-se por temas como: Cooperação Internacional em Ciência, Teconolgia e Inovação; Diplomacia Científica; Technopolitics e Peace Innovation.
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