ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Guerra na periferia da Europa e da Rússia

Azerbaijão e Armênia são duas pequenas nações no leste europeu, já no limite do continente e no começo da área geográfica da Ásia, situados em pleno Cáucaso. A região, ao longo da história, serviu de passo para diversas culturas, sendo a mesma habitada desde o começo do neolítico e disputada centímetro a centímetro. Atualmente, é dívida principalmente por Geórgia, Azerbaijão e Armênia, os quais atuam como um tapume para o mundo asiático e fronteira entre o mundo ocidental e oriental, embora amplamente influenciadas por ambos e se decantando ora por um ora pelo outro. Ressalte-se que, além desses três países, fazem parte da região: Inguchétia, Adiguésia, Cabárdia-Balcária, Carachai-Circássia, Ossétia do Norte, Krai de Krasnodar e Krai de Stavropol – repúblicas russas.

As disputas de poder marcaram de forma diferente cada um dos três Estados. A expansão da União Soviética, as pressões da Turquia e do Irã fizeram da região um ponto de tensão constante, que embora mantivesse nos últimos anos uma certa calma, jamais deixou a latente pressão característica da região.

Assim mesmo, seus valiosos recursos e oleodutos, uma fonte de riqueza, principalmente para o Azerbaijão, sempre foram cobiçados pela expansão do Bloco europeu, que já negociava com cada uma das nações sua futura adesão. Porém, divergências culturais, históricas e políticas sempre dificultaram a adesão desses Estados ao cenário internacional sem permanecer na sombra dos interesses das potências da região.

Conflito de Nagorno-Karabakh: 1988–1994 (Guerra de Nagorno-Karabakh); 1994–presente (violência esporádica, especialmente confrontos fronteiriços)

A tensão entre Armênia e Azerbaijão, cuja disputas territoriais foram sempre complexas, chegaram ao seu auge no domingo passado, dia 27 de setembro de 2020, quando ambos países declararam lei marcial e entraram em conflito direto, havendo acusações dos dois lados em relação a quem começou a contenda.

A Rússia, principal player regional, decretou o cessar imediato das agressões, já a União Europeia instou à convocação do grupo de Minsk (Rússia, Estados Unidos, França e OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa*) a instaurar o diálogo.  A Turquia, cuja tensa relação com a Armênia ficou conhecida no mundo inteiro devido ao holocausto por ela realizado, decretou total apoio ao Azerbaijão.

Embora longe dos centros de decisão da União Europeia e mais próximos a Moscou, uma guerra na região poderia se alastrar facilmente a outras áreas tensas no espaço de influência russo e colidentes com o Bloco europeu, tais como Belarus, cujo presidente Lukashenko não foi reconhecido por Bruxelas.

Imagens da Guerra de Nagorno-Karabakh (1988–1994)

Os atritos nessa região, na atual conjuntura que enfrenta a Europa, pode reacender ou fortalecer a instabilidade em toda periferia leste, fazendo com que seja mais difícil uma recuperação do Bloco. Assim, mesmo para a Rússia o conflito supõe uma nova amostra de que sua influência na região, embora importante, pode se ver sobressaltada à cada momento, ou levar indiretamente a uma escalada de tensões entre as grandes potências.

Além disso, o começo do inverno no hemisfério norte aumenta o eco de qualquer evento nessa área, pela forte dependência das grandes nações, lembrando que Azerbaijão é um grande produtor de gás, entre outros recursos energéticos.

Com relação ao embate entre Armênia e Azerbaijão, o território disputado é o passo fronteiriço de Nagorno Karabaj, uma região foco de tensões contínuas entre os dois países. Ao problema gerado pelo conflito na área se acrescentam outros, tais como a instabilidade em outros países da Europa do Leste, os fluxos migratórios de inverno, a tensão entre Grécia e Turquia, fora a Covid-19 que avança com força por todo o Bloco europeu, que já atua em sua segunda onda.

Acrescente-se ainda que as eleições em novembro, nos Estados Unidos, podem produzir um vácuo de poder, cujo impacto, caso se produza, resultaria em uma tempestade perfeita em plena periferia europeia, por isso, mostra-se como fundamental controlar as tensões o quanto antes possível. Ao que tudo indica, 2020 definitivamente pode ainda demorar a se encerrar, apesar de já estarmos em outubro.

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Nota:

* A OSCE é formada nos dias atuais por 57 países, em sua totalidade da Europa (inclui a Federação Russa e os Estados da União Europeia), da Ásia Central e da América do Norte (Canadá e Estados Unidos). É um organismo regional, disposto de acordo com o Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Localização da área em conflito” (Fonte):

https://eurasianet.org/sites/default/files/media/image/NK%20map.png

Imagem 2 Conflito de Nagorno-Karabakh: 19881994 (Guerra de NagornoKarabakh);

1994presente (violência esporádica, especialmente confrontos fronteiriços)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_de_Nagorno-Karabakh#/media/Ficheiro:AZ-qa-location-en.svg

Imagem 3 Imagens da Guerra de NagornoKarabakh (19881994)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Nagorno-Karabakh#/media/Ficheiro:Karabakhwar01.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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