ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Horizontes de Misericórdia no Sínodo para a Família

Decorreu no Vaticano, entre 4 e 25 de outubro, a XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, subordinada ao tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. De acordo com o significado etimológico, a palavra Sínodo tem origem no vocábulo grego “sýnodos” e significa “fazer juntos o caminho” ou “caminhar juntos”. No dia 15 de setembro de 1965, o Beato Paulo VI apresentou, aos participantes no Concílio Vaticano II, o Motu Próprio Apostolica SollicitudoPreocupação Apostólica –, que instituía o Sínodo como novo instrumento de aconselhamento pontifício[1]. Quando convocado pelo Papa, o Sínodo é uma reunião periódica e consultiva dos Bispos da Igreja Católica (incluindo os das Igrejas Orientais Católicas), destinado a tratar de assuntos relativos à Igreja Universal, que decorre com caráter de colegialidade entre os participantes.

Numa época de profunda crise moral, como é a que estamos vivendo, a família – encarada como comunidade fundamental de fiéis –, em suas diferentes configurações[2], tem constituído o centro de muitas das reflexões da Igreja Católica. Deste modo, teve lugar, entre 5 e 19 de outubro de 2014, no Vaticano, a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos. Tendo por tema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, o Sínodo Extraordinário constituiu a reunião preparatória do Sínodo de 2015 e, no desejo do Papa Francisco, ele se destinou a promover “a reflexão e o caminho da comunidade da Igreja: com a participação responsável do episcopado das diversas partes do mundo[3].

No final dos trabalhos, Francisco decidiu tornar público a Relatio Synodi, o documento com que se encerraram os trabalhos sinodais. Por indicação papal, a Relatio Synodi, publicada com o título A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo[4], constituiu o lineamenta, isto é, o documento preparatório destinado a encorajar, nas dioceses de todo o mundo, a discussão e o inventário pastoral para o Sínodo de 2015.

A abertura do Sínodo para a Família decorreu na Basílica de São Pedro, na qual, durante a eucaristia concelebrada pelos 270 Padres sinodais, o Papa sublinhou que “o matrimónio não é utopia da adolescência, mas um sonho sem o qual a sua criatura estará condenada à solidão. De fato, o medo de aderir a este projeto paralisa o coração humano[5]. Sem cair na tentação de sucumbir aos desígnios do espírito do tempo, cumpre à Igreja Católica afirmar, aqui e agora, à luz de suas propostas, aquelas que são as verdades de sempre. Neste sentido, lembrou Francisco, “a Igreja é chamada a viver a sua missão na verdade que não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes[6]. Neste sentido, na linha do anunciado no Evangelho de São João[7], o Papa enfatizou: “A verdade que protege o homem e a humanidade das tentações da auto-referencialidade e de transformar o amor fecundo em egoísmo estéril, a união fiel em ligações temporárias. ‘Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade’ (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 3)”[8].

No que diz respeito aos católicos divorciados e recasados, os Padres Sinodais enfatizaram a necessidade de haver um discernimento cuidadoso na consideração de que áreas da liturgia, pastoral e institucional da Igreja, podem ser efetuados por aqueles católicos[9]. Se, em alguns países, os divorciados e recasados são inquiridos para se absterem da comunhão mas, também, de ensinarem a catequese e de serem padrinhos ou madrinhas, o Relatório final do Sínodo dos Bispos ao Santo Padre Francisco os encoraja a fazerem um exame de consciência, perguntando-se “como eles se comportaram em relação aos seus filhos quando a união conjugal entrou em crise; se eles se sentiram tentados a se reconciliar; qual é a situação do parceiro abandonado; que consequências tem a nova relação para o resto da família e para a comunidade de fiéis; que exemplo ela oferece aos jovens que devem se preparar para o casamento. Uma reflexão sincera pode reforçar a confiança na misericórdia de Deus, que não é negada a ninguém[10]. Por outro lado, se no Sínodo de 2014 o tópico da homossexualidade constituiu um dos assuntos mais controversos, particularmente no documento final, outro tanto não aconteceu este ano. O tema da homossexualidade foi quase que completamente removido, excetuando o parágrafo que alude ao cuidado pastoral das famílias que vivem com pessoas que têm tendências homossexuais[11].

O documento final do Sínodo também apoia os ensinamentos da Igreja relativamente aos assuntos da vida, nomeadamente aqueles que dizem respeito à contracepção e ao aborto. No parágrafo 33 do Relatório do Sínodo lemos que “a vida humana é sagrada porque, desde seu início, ela envolve ‘a ação criadora de Deus’ e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim[12]. Conforme os Padres Sinodais, “a revolução biotecnológica no campo da procriação humana introduziu a habilidade de manipular o ato gerador, tornando-o independente da relação sexual entre homem e mulher[13]. Submetendo-se a essa manipulação, “a vida humana e a paternidade se tornaram realidades modulares e separáveis, assunto principalmente das vontades e desejos dos indivíduos ou dos casais, não necessariamente heterossexuais e regularmente casados[14]. Dado que, se para a Igreja Católica, somente “Deus é o Senhor da vida desde seu início ao seu final[15], então, “ninguém, em nenhuma circunstância, pode reivindicar para si próprio o direito de destruir diretamente um ser humano inocente[16].

No discurso conclusivo do Sínodo, proferido no dia 24 de outubro, o Papa Francisco apontou as conclusões da reunião, indicando a misericórdia como sendo o caminho futuro, para a Igreja: “O primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor[17].

Segundo o Santo Padre, “para a Igreja, encerrar o Sínodo significa voltar realmente a ‘caminhar juntos’ para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia de Deus[18]. Hoje, cabe à Igreja propor o caminho da compaixão, mais do que apontar os erros e ditar condenações aos que prevaricaram. Neste sentido, no domingo, dia 25, durante a homilia da missa de encerramento do Sínodo para a Família, Francisco salientou que devemos “pôr o homem em contato com a Misericórdia compassiva que salva. Quando o grito da humanidade se torna, como o de Bartimeu, ainda mais forte, não há outra resposta senão adoptar as palavras de Jesus e, sobretudo, imitar o seu coração. As situações de miséria e de conflitos são para Deus ocasiões de misericórdia. Hoje é tempo de misericórdia![19].

Tal como assinalou Elise Harris, da Agência Católica de Notícias, o documento final do Sínodo apoia fortemente os ensinamentos da Igreja, assim como valora positivamente a beleza da vida familiar[20]. Em contrapartida, o Sínodo que acaba de terminar se inscreve num caminho longo, no qual os obstáculos nem sempre estiveram ausentes. Se, por um lado, o debate teológico em torno das propostas sinodais tem sido diferenciado, ao longo de seu meio século de existência, por outro lado, o Sínodo de 2015 se insere no ciclo de abertura eclesial iniciado durante Concílio Vaticano II que, mediante a liberdade e a fidelidade à palavra de Cristo, permitiu que a assembleia tivesse decorrido num clima de perfeita sintonia de ideais.

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Imagem Bispos debateram, no Sínodo, as problemáticas das famílias contemporâneas, com destaque para a situação dos católicos recasados” (Fonte):

http://www.cath.ch/newsf/le-synode-ouvre-au-pape-des-pistes-en-faveur-des-divorces-remaries/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/sinodo-e-comunhao

[2] Tendo em vista a nova realidade sociológica das famílias, o mundo contemporâneo concedeu-lhe uma polissemia que nenhuma outra época histórica, anterior à nossa, conheceu. Temos, assim, a família consagrada – aquela que, para os católicos, é inspirada na Sagrada Família, resultando do sacramento do matrimônio –; a família contratualizada – que, sob o ponto de vista jurídico, resulta do casamento civil, celebrado em Cartório –; a família comunitária – na qual todos os adultos que compõem o agregado familiar são responsáveis pela educação das crianças –; a família monoparental – aquela que é composta por um dos progenitores, ou pai, ou mãe, a partir da morte, abandono, divórcio, ou pela decisão de a mulher ter um filho de modo independente – e, ainda, a família homoafetiva – constituída por um casal, ou pessoa sozinha, homossexual, que tenha uma ou mais crianças a seu cargo.

[3] Ver:

http://www.arquidiocesedepassofundo.com.br/site/node/193

[4] Ver:

SÍNODO DOS BISPOS – XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA, A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo – Lineamenta, São Paulo, Paulinas, 2015, 67 (4) págs. Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20141209_lineamenta-xiv-assembly_po.html

[5] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20151004_omelia-apertura-sinodo-vescovi.html

[6] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20151004_omelia-apertura-sinodo-vescovi.html

[7] Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”, Jo 8, 32.

[8] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20151004_omelia-apertura-sinodo-vescovi.html

[9] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/final-synod-document-strongly-backs-church-teaching-beauty-of-family-life-37584/

[10] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

[11] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/final-synod-document-strongly-backs-church-teaching-beauty-of-family-life-37584/

[12] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

[13] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

[14] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

[15] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

[16] Ver:

http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/24/relat%C3%B3rio_final_do_s%C3%ADnodo_em_italiano/1181850

Cf., igualmente, SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Instrução Donum Vitæ, Introd., 5.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19870222_respect-for-human-life_po.html

Ver Também:

SANTO JOÃO PAULO II, Evangelium Vitæ, 53.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.html

[17] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151024_sinodo-conclusione-lavori.html

[18] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151024_sinodo-conclusione-lavori.html

[19] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20151025_omelia-chiusura-sinodo-vescovi.html

[20] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/final-synod-document-strongly-backs-church-teaching-beauty-of-family-life-37584/

About author

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.
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