As taxas de crescimento da China no fim do século XX e na primeira década do século XXI estiveram entre as maiores do mundo. O país passou de uma posição secundária na economia global para ator importante, tornando-se o segundo maior PIB do planeta. Apesar das posturas firmes de defesa do livre-comércio e de ambiciosos projetos de investimento em infraestrutura, a China está desacelerando seu crescimento, com taxas inferiores a 7% ao ano. O menor ritmo de progresso econômico gera impactos políticos nos âmbitos doméstico e internacional.

Companhia Chinesa de Ferrovias

No plano doméstico, pesquisas indicam que há provável correlação entre o menor crescimento e o aumento dos protestos nos últimos anos. No entanto, ainda não há investigação suficientemente aprofundada que permita estabelecer se as manifestações ocorreram por causa da desaceleração ou se a causaram. John Dinardo e Kevin Hallock analisaram as greves nos EUA entre 1925 e 1937 e concluíram que elas provocaram perdas significativas no valor de ações de indústrias. Os dados obtidos até o momento sobre o contexto chinês indicam aumento de greves desde 2016 e concentração na província de Gungdong*, o que não implica necessariamente a validade da conclusão sobre os EUA dos anos 1930 para a China contemporânea, já que a reação das bolsas de valores aos protestos foi bastante discreta. 

No plano internacional, a desaceleração chinesa significa menor margem de manobra nas negociações para solucionar a guerra comercial com os EUA. A economia do país asiático é muito dependente de suas exportações e os Estados Unidos são seu principal parceiro comercial. As tarifas impostas sobre U$ 34 bilhões de produtos chineses dificultam ainda mais a retomada do alto ritmo de crescimento. Segundo a analista Renee Mu, “Quando mais tempo a China permanecer nessa guerra comercial, mais ela irá perder; o mesmo vale para os EUA. A desaceleração do crescimento chinês pode torná-la menos resiliente do que antes: o PIB do terceiro trimestre cresceu 6.5%, menos do que os esperados 6.6%”. Dessa forma, aumenta-se o risco de que os estadunidenses consigam impor suas exigências aos chineses.

O projeto da Nova Rota da Seda** também é afetado pelas menores taxas de crescimento do país asiático. Os valores investidos em infraestrutura crescem cada vez menos desde 2011, com tendência de desaceleração ainda mais expressiva nos próximos anos. A menor disponibilidade de recursos para investir prejudica sobremaneira o projeto, já que este tem um custo muito elevado. Como a iniciativa é uma das bases da política externa do presidente Xi Jinping, a demora na concretização de avanços pode prejudicar a estratégia de inserção internacional da China.

A economia chinesa impacta diretamente o grau de influência do país no sistema internacional. A sua ascensão está muito vinculada a seu poderio econômico, que permite estabelecer relações de confiança e até mesmo de aliança com determinados países, por meio da ajuda ao desenvolvimento e de investimentos em infraestrutura. A capacidade de influenciar as relações internacionais pode, portanto, ficar prejudicada com a desaceleração econômica.

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Nota:

* Província do sul da China, próxima das regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau.

** Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Industrial e Comercial da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_China

Imagem 2 Companhia Chinesa de Ferrovias” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_China

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/10/a-slowing-chinese-economy-means-more-instability/

[2] Ver:

http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/001979390205500202

[3] Ver:

https://maps.clb.org.hk/strikes/en#201804/201810/10539

[4] Ver:

https://www.forbes.com/sites/panosmourdoukoutas/2018/10/25/america-should-let-china-lose-the-trade-war-gracefully/

[5] Ver:

https://www.abc.net.au/news/2018-06-14/china-growth-stumbles-on-weaker-industrial-production-and-inves/9870214