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ISIS e o novo contexto de segurança no Líbano

Em nota analítica de maio de 2014[1], observou-se que o Líbano vinha vivenciando, nos meses antecedentes, uma drástica queda nos ataques terroristas em seu território, algo que vinha atuando como grande desestabilizador do sensível equilíbrio sectário do país desde o segundo semestre de 2013. No entanto, esse cenário apresenta-se agora completamente diferente.

Na última sexta-feira, 1o de agosto, iniciaram-se confrontos na cidade libanesa de Arsal, próxima à fronteira com a Síria[2], depois que o Exército libanês capturou Abu Ahmad al-Jumaa, ex-líder do Exército Livre da Síria, que posteriormente declarou fidelidade ao grupo islâmico sunita ISIS, sob a acusação de planejar ataques a postos militares libaneses[3].

Carine Tobey e Suzanne Kianpour, da BBC, já haviam alertado, em meados do mês passado (julho de 2014), que os meses de calmaria no Líbano haviam chegado ao fim, à medida em que o país passava a sofrer novos ataques, seguidos de prisões de suspeitos homens-bomba[4].

Ainda assim, embora confrontos e bombardeios vindos da Síria já viessem por vezes perturbando a paz na fronteira sírio-libanesa, a tomada de Arsal por membros do ISIS na segunda-feira desta semana, 4 de agosto, constitui o mais sério episódio de transbordamento do conflito sírio no Líbano[5]. Arsal ainda não foi declarada parte do califado do ISIS, mas o grupo já estabeleceu check-points na cidade[6].

A tomada de Arsal parece ter atraído grande atenção não só da mídia, mas também da comunidade internacional. Na segunda-feira, o Conselho de Segurança da ONU, com seus 15 países membros, expressou “apoio às Forças Armadas Libanesas e às Forças Internas de Segurança em sua luta contra o terrorismo[7].

Além disso, o Vice Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores francês afirmou que a França estava “totalmente comprometida em dar suporte ao Exército libanês, um pilar da estabilidade e da unidade no Líbano[8], ao passo que o primeiro-ministro Tammam Salam urgiu que a França acelerasse o envio de armas ao Exército Libanês, compradas em acordo de 3 bilhões de dólares, financiados pela Arábia Saudita[9][7]. Enquanto a França prometeu uma resposta rápida, o Governo saudita foi além e doou 1 bilhão de dólares para “fortalecer a segurança” no país[9].

Todavia, o fortalecimento das capacidades das Forças Armadas constitui apenas um dos fatores necessários para enfrentar a nova ameaça. Enquanto o Exército libanês descreveu o ataque a Arsal como parte de um plano de longa data para invadir o país, que busca fazer uso estratégico das divisões sectárias entre muçulmanos xiitas e sunitas no Líbano como vantagem[10], o novo contexto de segurança traz consigo a pergunta: conseguirá Arsal unir o Líbano?[11].

No momento, o complexo sistema político libanês tem respondido com apoio unânime ao Exército[10]. Ainda assim, como observou Carol Malouf, o movimento jihadista na Síria, de forma geral, ganhou o apoio de clérigos sunitas no Líbano, que contam com um grupo afiliado à al-Qaeda, o Jabhat al-Nusra[6]. Consequentemente, além de uma necessidade militar, parece haver uma necessidade política de superar partidarismos faccionais que inviabilizaram a eleição de um Presidente[12][10].

Simultaneamente, o país, que até agora se apresentou como o maior recebedor de refugiados vindos da Síria, começa a apresentar fluxos migratórios internos, enquanto libaneses e também refugiados sírios fogem do conflito na cidade Arsal[13], lar de 40 mil libaneses e mais de 120 mil refugiados[6].

Esse cenário parece especialmente preocupante para refugiados sírios que se enquadram agora num contexto de migração secundária, considerando que testemunhas afirmaram que autoridades libanesas não estão permitindo que refugiados sírios se realojem em cidades mais ao interior do país[5].

Assim como em nota analítica de maio[1] apontou-se que o clima de relativa paz não deveria obliterar as necessidades de refugiados sírios no Líbano, o cenário atual e as preocupações com fortalecimento militar e união política não devem se sobrepor à necessidade de atender àqueles que fogem do conflito com o ISIS – dessa vez, não apenas refugiados sírios, mas também cidadãos libaneses.

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ImagemSoldados libaneses se dirigem a Arsal, na última segunda-feira, 4 de agosto” (Fonte):

http://www.nytimes.com/2014/08/05/world/middleeast/isis-lebanon-syria.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

https://ceiri.news/o-pragmatismo-libanes/

[2] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/08/04/world/middleeast/fighters-from-syria-kill-lebanese-soldiers-in-battle-over-border-town.html

[3] Ver:

http://www.thewire.com/global/2014/08/isis-gains-first-ground-in-lebanon/375558/

[4] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-28292345

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/08/05/world/middleeast/isis-lebanon-syria.html

[6] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/lebanon/11011806/Islamic-State-terrorists-claim-first-stake-in-Lebanon.html

[7] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/08/un-backs-lebanon-military-action-arsal-20148565541833505.html

[8] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28657223

[9] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/08/saudis-give-1bn-lebanon-amid-fighting-20148654551988154.html

[10] Ver:

http://rt.com/news/178084-islamicstate-lebanon-iraq-attack/

[11] Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/08/terror-groups-worsen-lebanese-frailty.html

[12] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Lebanon-News/2014/Aug-01/265684-no-signs-of-election-of-new-president-western-diplomat.ashx#axzz39d88WQve

[13] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28640618

About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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