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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Israel e os atores palestinos do conflito

Há anos Israel combate os palestinos, mas estes não agem como um grupo unificado, que se comportaria como um exército nacional ou uma milícia coesa de um país a exemplo que ocorre na Síria neste momento. O Estado israelense enfrenta vários grupos com visões políticas diferentes e contraditórias, diferindo na visão sobre como deve ser um Estado palestino. Deve-se ser religioso, existindo variações sobre ele e com desejos de um Emirado, ou se deve ser um Estado laico, oscilando entre uma perspectiva socialista e um Estado democrático de estilo ocidental. A seguir, será apresentado um resumo que procura identificar e apontar as ideias centrais de cada um dos principais grupos que neste momento travam batalhas com Israel.

Inicialmente, deve-se falar do “Movimento de Resistência Islâmica” ou “Hamas” (acrônimo árabe para “entusiasmo”), graças aos conflitos recentes que incendiaram a região. Na verdade, o Hamas não é um grupo guerrilheiro ou entidade semigovernamental. É um grupo islâmico sunita de redes de suporte à população palestina que atua basicamente na área de Gaza, onde obteve sua maior aceitação. Sob seu guarda-chuva está a maioria das obras assistenciais neste espaço, tais como campos de férias, asilos, orfanatos, outros tipos de entidades assistenciais e, principalmente, as madraças, as escolas religiosas onde a juventude é formada e influenciada por seus preceitos.

O movimento surgiu logo após a primeira Intifada, iniciada em 1989. Devido ao seu caráter anti-israelense, a “Organização para a Libertação da Palestina” (OLP) não queria aceitá-lo como um partido apto às eleições de 2007. Por pressões árabes, o Hamas não só participou como ganhou com ampla maioria o embate legislativo ao Parlamento. Entretanto o Fatah, de Yasser Arafat, não aceitou a derrota, o que levou a uma guerra civil, que foi observada com cuidado pelos israelenses. O Fatah, que é forte na Cisjordânia – a área mais rica da Palestina – manteve-se no poder nesta região, mas foi massacrado militarmente em Gaza em uma revolta deflagrada pelo Hamas e seu braço armado, na qual membros do Fatah foram degolados ou atirados do alto de prédios.

O apelo popular do Hamas tem diminuído vertiginosamente devido às condições de vida estarem contrastando com as da Cisjordânia, sem contar no seu constante envolvimento em ataques de guerrilha contra Israel, os quais recebe respostas sempre superiores tanto quantitativa como qualitativamente aos ataques sofridos, tornando a população vulnerável ao confronto, já que, geralmente, os ataques feitos pelo Hamas ocorrem por meio de lançamentos de foguetes originários dos centros urbanos locais.

O braço armado do Hamas chama-se “Brigadas Izz ad-Din al-Qassam”, cujo objetivo é a eliminação do Estado de Israel, embora seu líder, Khaled Mashal, tenha acenado com um reconhecimento deste, no caso da restauração das fronteiras de 1967. Apesar de as “Brigadas Izz ad-Din al-Qassam” constituírem o braço armado do Hamas, elas são um ente separado que não recebe ordens nem anuncia suas decisões com antecedência.

Outro grupo importante é o “Movimento da Jihad (Guerra Santa) Islâmica na Palestina”, organização sunita formada por membros da “Irmandade Muçulmana” e baseada na homônima egípcia. Ele segue o mesmo objetivo do Hamas, cujo interesse é destruir o Estado de Israel, e posiciona-se contra qualquer acordo com este. Tinha sede em Damasco até pouco tempo, quando iniciou a revolta na Síria, envolvendo-se inclusive em combates em apoio ao governo Assad. É um grupo sem a expressão que o Hamas possui. Apesar de compartilhar do seu objetivo, ele é independente e chegou a entrar em combate com este em vários momentos de tréguas, tanto unilaterais como bilaterais. Também possui sua rede de jardins de infância, campos de férias, hospitais, farmácias e ONGs que dão suporte aos desassistidos. No entanto, como tem certa independência, é considerado um grupo rebelde, sendo um transtorno ao Hamas, já que convive no mesmo campo e toma suas próprias decisões, incluindo disparos de foguetes contra Israel, mesmo quando o Hamas está em meio a negociações de paz com a denominada “entidade sionista”. Além disso, quando há negociações, geralmente aceita os acordos temporários de não agressão entre os seus ideólogos e o Governo israelense. As ações mais famosas do grupo foram o aprisionamento de Gilad Shalit(1), o qual foi libertado agora em 2011 (após anos de negociações) e a explosão de uma filial em Jerusalém da rede americana de pizzarias Sbarro. Estima-se que possua dez mil membros ativos em postos de combate.

O mais expressivo grupo é o “Movimento de Libertação Nacional Palestino”, acrônimo Fatah (algo como “vitória”, em árabe). É o maior partido político palestino, cujo ícone ainda é o falecido Yasser Arafat. É o partido no poder central, reconhecido pelos vizinhos e pela ONU. Entretanto, não foi quem venceu as últimas eleições o que levou à revolta desencadeada pelo partido Hamas, que ao fim deste processo tomou o poder no enclave de Gaza, em um banho de sangue.

O Fatah é um partido laico com ligações de esquerda – os chamados “movimentos populares de libertação” dos anos 60 do século XX. Embora laico, sofre alguma influência da “Irmandade Muçulmana” egípcia (a mesma que também influencia o Hamas), de maneira a manter no seu credo a prevalência da cultura islâmica, o caráter primordialmente nacionalista, e a perspectiva anti-ocidental, embora descarte a ideia religiosa que influencia o adversário político palestino.

O braço armado do Fatah, o Tanzim, é uma milícia criada pelo próprio Arafat para atuação laica e antirreligiosa, baseada nas estruturas e filosofias políticas do Ba’ath, o partido republicano pan-arábico que atua em vários países, tais como na Síria da família Hafez e no (antigo) Iraque da família Hussein.

Apesar dos “Acordos de Oslo(2), o Fatah não retirou de sua carta de princípios o desejo de acabar com o sionismo e erradicá-lo da Palestina, tanto cultural, como econômica e fisicamente, além de trabalhar para conter a emigração judaica para a área com o apoio dos países de origem destes imigrantes.

Após o estabelecimento da “Autoridade Nacional Palestina”, muitos de seus membros passaram a integrar as forças de segurança oficiais, embora se mantenham leais à sua origem. Atualmente, o Fatah é visto como um Partido cujos membros estão envolvidos em fraudes e corrupção. Há suspeitas envolvendo o nome de seu ícone, o falecido Arafat, pois este sempre viveu como líder político e, desde que fundou o Fatah, nunca exerceu alguma função de comércio ou engenharia (sua formação acadêmica). Sua família estava falida financeiramente e sua viúva Suha e filho Zahwa residem em um palácio na França.

Um quinto grupo constitui as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa”. Ele é o braço armado do Fatah depois que este renunciou à guerrilha, sendo sustentado por ele financeiramente e ideologicamente. Tem poucas atividades militares (ou terroristas), mas é importante devido a sua conexão e dependência do Fatah.

A “Organização para a Libertação da Palestina” (OLP), fundada em 1964 e baseada nos princípios de Gamal Abdel Nasser Hussein, foi o berço do órgão legislativo, o “Conselho Nacional Palestino”. Embora tenha aceitado em 1993 as “Resoluções 242 e 338 da ONU(3) relativas aos “Acordos de Madri de 1991(4), anulado os itens contrários ao assunto, tenha aceitado a existência de Israel e o fim das atividades terroristas, nenhuma das entidades que sejam membros tanto da OLP quanto do CNP, deixaram de eliminar estes itens de suas cartas de princípios. A OLP é reconhecida por Israel e mais de cem estados membros das Nações Unidas como a representante do povo palestino.

No atual momento, ela só tem um papel relevante por que é a autoridade reconhecida pelas “Nações Unidas”, da mesma forma que seus membros, pois, com o ascensão do Hamas em Gaza, por um processo que muitos consideram um “Golpe de Estado”, a sua representatividade ficou restrita à Cisjordânia.

Pode-se destacar também a “Frente Popular para a Libertação da Palestina” (FPLP) que foi o segundo grupo mais importante da OLP até os anos 80. Basicamente, é um grupo armado nacionalista como o Fatah, mas é marxista-leninista e confronta o Hamas em termos de membros. É contrária à solução de dois Estados e, ao invés, deseja a criação de um Estado laico no mesmo formato da Bósnia-Herzegovina. Seu grupo armado, as Brigadas Abu Ali Mustapha foi o primeiro a sequestrar aviões como meio de coerção.

Encerrando neste momento, podemos ainda falar da “Frente Popular para Libertação da Palestina – Comando Geral” (FPLP-CG), grupo que se separou da FPLP por considerá-lo muito político e pouco ativo militarmente. Ele é patrocinado pela Síria e é ligado umbilicalmente ao partido Baath sírio, pois seu secretário-geral, Ahmed Jibril, é um ex-soldado do Exército sírio. Distanciou-se de Arafat por sua acomodação ao elaborar o “Programa de Dez Pontos” que basicamente pregava a criação da pátria nacional palestina e a destruição de Israel. Consta que seus membros estão lutando na guerra civil da Síria em apoio ao seu exército governamental.

Estes são alguns dos grupos que transitam na área considerada palestina. Eles combatem e negociam tanto com Israel como entre si, constituindo forças que problematizam a política da região e tornam complexo processo de pacificação do conflito palestino-israelense, bem como a criação de um “Estado da Palestina”, já que há interesses individuais e autônomos dos grupos que se confrontam e impedem uma ação comum em busca da estabilidade regional.

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(1)Soldado israelense capturado em meados de 2006 e libertado em 2011 em troca de mais de mil prisioneiros palestinos – a maioria com ligações ao Hamas.

(2) Acordos que colocaram fim na intervenção israelense no sul do Líbano, que reconheceram alguns direitos palestinos e a existência de Israel, embora os mesmos líderes palestinos falem de uma pátria entre o (mar) Mediterrâneo e o (rio) Jordão, ou seja, sem o Estado de Israel. Também foram estabelecidos os malfadados “bantustões”*, ou áreas de influência, onde haveria maior ou menor independência das forças de segurança palestinas – patrulhas independentes, compartilhadas ou exclusivas do exército israelense.

* Termo para designar os territórios semiautônomos para segregação dos nativos africanos na época do apartheid.

(3)Resoluções que colocaram fim às guerras de 1967 e 1973 entre árabes e Israel.

(4)Conversações envolvendo o início do processo de paz, após a Guerra do Kwait (quando Arafat cometeu o erro político de apoiar Sadam) e o último encontro entre EUA e a antiga “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas” (URSS). Discutiu-se o início dos acordos de paz, envolvendo as duas potências da época, o Estado de Israel e os países árabes, sem, no entanto, contar com a presença oficial da OLP, que fora representada pela Jordânia.

Fonte consultadaPrograma de Dez Pontos do Arafat: http://unispal.un.org/UNISPAL.NSF/0/BA7A9909F792340F8525704D006BDAF1

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Apresentamos este artigo de Ricardo Varnier, colaborador voluntário do BLOG CEIRI, que apresenta esclarecimentos acerca dos principais grupos palestinos que negociam e combatem em Gaza e na Cisjordânia, além das demais regiões fronteiriças ao Estado de Israel.

O artigo, pelo caráter explicativo, cumpre com a finalidade de auxiliar no esclarecimento de questões relevantes da política internacional, objetivo do CEIRI NEWSPAPER, e propicia reflexões aos leitores do site, bem como debates que podem ser desenvolvidos com o autor do artigo, aqui postado como Análise de Conjuntura.

As dúvidas e contraposições são bem vindas para serem tratadas diretamente com ele, que, além de realizar estudos de política internacional, viveu experiência significativa, quando morou em Jerusalém e freqüentava a rede americana de pizzarias Sbarro no mesmo período em que houve a explosão do local, em atentado realizado pelo“Movimento da Jihad Islâmica na Palestina”.

Sabemos que o tema tratado é extremamente complexo, bem como sensível, e acreditamos que será tratado de forma respeitosa por todos, pois, como trabalhadores pela Paz e pelos Direitos Humanos, defendemos que ambos os povos precisam ter seu espaço para viver e também precisam ter preservados os direitos de se organizarem pacificamente num Estado próprio que, em contrapartida, deve respeitar a existência e soberania dos demais.

Conselho Editorial do “CEIRI NEWSPAPER” e do “BLOG CEIRI

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