ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Israel passará por terceira eleição em menos de um ano

No dia 11 de dezembro, os membros do Knesset, Parlamento de Israel, votaram uma medida para dissolver novamente o mandato do legislativo, abrindo espaço para a realização da terceira eleição seguida no país no ciclo de um ano. O novo pleito deverá ocorrer em março de 2020.

A atual legislatura, o 62º Knesset, foi eleita no mês de setembro (2019), após um fracasso prévio conduzir o Parlamento à uma dissolução e novas eleições visando à construção de uma maioria forte.

A Coalizão Azul e Branco, liderada pelo General reformado das Forças de Defesa de Israel, Benjamin Gantz, foi considerada vencedora ao obter a maior bancada, com 33 deputados, nas últimas eleições. Ainda assim, não está próximo de conseguir formar a maioria necessária de 61 membros do Parlamento para nomear um Primeiro-Ministro.

De uma maneira geral, havia a expectativa entre a população que Gantz pudesse construir um amplo diálogo com setores afastados do Likud e de parcelas tradicionais da direita israelense. Entretanto, Gantz não foi capaz de garantir uma aliança com setores como Partido Trabalhista e a Lista Unida Árabe. O general da reserva informou o Knesset em 21 de novembro que não conseguiria compor uma maioria.

O membro do Knesset, Benjamin Gantz, discursa nas Colinas de Golão

Antes de Gantz, o presidente de Israel Reuven Rivlin havia incumbido o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de formar um governo. O Likud, Partido de Netanyahu, assegurou 32 assentos no Parlamento, mas não foi capaz de chegar a um acordo com o Kahol Lavan ou outras forças políticas. Dentre os fatores que tornaram as negociações mais difíceis são apontadas exigências consideradas difíceis de cumprir, como a manutenção de Netanyahu no cargo ou concessão de imunidade parlamentar, enquanto o mesmo enfrenta um processo judicial por corrupção.

Atendendo a um pedido de Netanyahu, o Knesset já havia optado por antecipar a eleição e dissolver o Parlamento no final de 2018. Desta maneira, o Primeiro-Ministro esperava adiantar as eleições, que idealmente ocorreriam em outubro (2019), para evitar uma série de eventos que poderiam desgastar sua imagem, como uma maior exposição pública de Benny Gantz ou abertura de um processo por corrupção.

Até a realização do novo pleito, Israel terá passado 18 meses sob um governo provisório. O Knesset, sem o comando de um governo consumado, não tem poder para votar leis de relevância nacional (como as relativas à Defesa e Infraestrutura), tampouco para sugerir ou votar mudanças no orçamento do país.

A presente situação pode levar o Likud a remover uma liderança partidária através do voto pela primeira vez em sua história. Convencido de que a figura de Bibi (como atual Primeiro-Ministro é popularmente conhecido) é prejudicial a figura do Partido, o deputado Gideon Sa’ar contestou a liderança de Netanyahu.

Gideon Sa’ar discursa no anúncio das Eleições Primárias do Likud

No dia 16 de dezembro, Sa’ar apresentou ao Partido um pedido para eleições internas, que devem ocorrer no dia 27 de dezembro, amanhã. Ao comentar sobre as eleições internas do Partido, Sa’ar afirmou que “um voto em Netanyahu é um voto para o próximo líder da oposição”.

De acordo com pesquisa eleitoral realizada pelo Canal 12 de Israel, um novo pleito aumentaria a vantagem do Kahol Lavan, que aparece conquistando 35 assentos. O Likud não cresce nestas pesquisas, permanecendo com os mesmos 32 deputados que possui hoje.

Ainda assim, a garantia de uma solução para o impasse não se apresenta neste cenário. Uma vez que o bloco de centro-esquerda (somados Kahol Lavan, Trabalhista e a União Democrática) garantiria 45 votos no Parlamento, enquanto uma coalizão de direita (Likud unido aos Partidos ultra ortodoxos: Shas, Judaísmo Unido na Torá e Hayamin Hehadash) alcançaria um total de 54 votos.

Alianças e concessões para a Lista Árabe Unida (13 assentos) ou com o Partido sionista secular, Yisrael Beitenu (8 assentos) se tornariam essenciais para alcançar uma maioria se este cenário se confirmar nas urnas em março de 2020.

Nos próximos meses os Partidos deverão apresentar à população capacidade de construir uma maioria sólida o suficiente para formar um governo. Dentre as novidades que podem se apresentar, está um final antecipado para o ciclo de 10 anos de Netanyahu no poder. Entretanto, se um impasse político for mantido, novas alianças podem emergir e mudanças ainda mais profundas na realidade política israelense podem ocorrer.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1A sede do Knesset, em Jerusalém” (FontePágina oficial do Knesset no Facebook): https://www.facebook.com/TheKnesset/photos/p.2577655508987395/2577655508987395/?type=1&theater

Imagem 2O membro do Knesset, Benjamin Gantz, discursa nas Colinas de Golão” (FontePágina oficial de Benjamin Gantz no Twitter@gantzbe): https://twitter.com/gantzbe/status/1207305058746032128

Imagem 3Gideon Saar discursa no anúncio das Eleições Primárias do Likud” (FontePágina Oficial de Gideon Saar no Twitter @gidonsaar): https://twitter.com/gidonsaar/status/1206653788456673281

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
Related posts
ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A Rússia vence disputa na OMC contra a União Europeia

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel da Rússia na modificação da lei de espiões do Reino Unido

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Investimentos em infraestrutura será crucial para recuperação econômica na América Latina e Caribe

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Diplomacia das máscaras: o papel da China no contexto da Covid-19 e os países emergentes

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!
Powered by