ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

Itália adere à iniciativa chinesa, apesar da pressão de Washington e Bruxelas

Em 2013, Pequim lançou a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), projeto internacional de construção de infraestruturas de transporte, telecomunicação e energia, cujo objetivo é utilizar o “cinturão” para ligar a China à Europa através da Ásia Central e da Rússia, e a “rota” para conectar a China ao continente europeu, por meio do Mar do Sul da China e do Oceano Índico. Até o momento, mais de 100 países e organizações internacionais assinaram acordos de cooperação com os chineses para desenvolver o projeto.

A Itália será um dos poucos Estados da União Europeia (UE) a conceder apoio formal à ICR, apesar da oposição dos Estados Unidos e da UE. O documento deverá ser assinado este mês (Março), durante a visita à Itália do Presidente chinês, Xi Jinping, no dia 22. A Casa Branca afirmou que a inclusão da Itália nos planos chineses não beneficiará o país economicamente e pode prejudicar significativamente a sua imagem internacional.

Conforme destacou o Jornal de Negócios,o Subsecretário do Ministério do Desenvolvimento Econômico da Itália, Michele Geraci, apontou que “as negociações ainda não terminaram, mas é possível que sejam concluídas a tempo para a visita de Xi. Também procurou justificar a decisão do governo italiano, explicando: “Queremos ter a certeza de que os produtos ‘Made in Italy’ podem ter mais sucesso em termos de volume de exportação para a China, que é o mercado que mais cresce no mundo”.

China em vermelho, os membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em laranja. Os 6 corredores propostos

O desconforto de Washington e Bruxelas frente à adesão italiana à iniciativa chinesa decorre do fato de que enxergam a ICR como uma tentativa de construção de uma nova ordem internacional por uma grande potência cujo sistema político e de valores consideram como profundamente diferente do ocidental. Além disso, também consideram que os Bancos e instituições financeiras chinesas estão concedendo vultosos empréstimos para os projetos lançados no âmbito da Iniciativa, o que coloca as nações beneficiárias em risco de se encontrarem em uma “armadilha de dívidas” (“debt trap”, em inglês), fazendo com que elas entrem em uma espiral de dívidas e aumentem sua dependência em relação à China.

Um caso exemplar é o do porto de Hambantota, no Sri Lanka, construído por uma empresa estatal chinesa, que se revelou um gasto insuportável para o país, que teve de entregar o controle do porto e dos terrenos adjacentes à China, por um período de 99 anos. Pequim já é detentora da maior parte da dívida de diversas nações que se encontram ao longo da ICR, como são os casos do Quirguistão, Laos, Maldivas, Mongólia, Montenegro, Paquistão, Tadjiquistão e Djibouti. Assim como esses países, União Europeia e Estados Unidos consideram que, agora, a Itália também se coloca à mercê dos empréstimos chineses e Pequim fortalece a sua influência geopolítica no continente europeu.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 The palazzo Chigi at piazza Colonna in Rome. This is the official building of the Italian presidency of the Council of Ministers” / “O palazzo Chigi na praça Colonna em Roma. Este é o edifício oficial da presidência italiana do Conselho de Ministros” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Palazzo_Chigi_(Rome)#/media/File:Palais_Chigi.JPG

Imagem 2 China in Red, the members of the Asian Infrastructure Investment Bank in orange. The 6 proposed corridors” / “China em vermelho, os membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em laranja. Os 6 corredores propostos” (Fonte):https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:One-belt-one-road.svg#/media/File:One-belt-one-road.svg

About author

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Durante a graduação, foi bolsista do Programa Santander Universidades na Universidade de Coimbra, em Portugal. Integra o Grupo de Pesquisa Pensamento e Política no Brasil da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase nas linhas de pesquisa de Pensamento Político Brasileiro e de Relações Internacionais, atuando principalmente nos estudos sobre Política Doméstica e Externa da China, Segurança Internacional, Diplomacia e Diásporas Asiáticas. Associado à Midwest Political Science Association (MPSA).
Related posts
Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

Hong Kong detém parlamentar pró-democracia

ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

O mercado danês em tempos de Coronavírus

Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

ONU anuncia manter proteção a civis aos 10 anos da guerra na Síria

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Governo do Sudão compensa vítimas do ataque terrorista ao USS Cole

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!
Powered by