Em função da visita do Papa Francisco ao Brasil e das análises que forma feitas após sua despedida, o Conselho Editorial o CEIRI NEWSPAPER considerou interessante republicar a Análise de Conjuntura escrita no dia 15 de março de 2013 pelo Dr. Marcelo Suano, após o anúncio do Conclave, sobre a escolha de Arcebispo Mario Jorge Bergoglio como Papa.

A perspectiva adotada na análise naquele momento teve repercussão e foi expressivamente replicada em outros canais e sites , além disso se aproxima daquilo que vem sendo identificado por observadores neste momento, tendo antecipado certos traços de comportamento de Sua Santidade, o Papa Francisco.

Conselho Editorial

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A escolha do cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco*, para assumir a liderança da “Igreja Católica Apostólica Romana” surpreendeu os analistas e observadores internacionais. As expectativas foram criadas em torno de alguns poucos nomes que poderiam responder à convicção de que a Igreja necessita de um líder que mantenha a postura tradicional, que conheça o suficiente dos meandros da estrutura interna e burocrática do Vaticano, que fosse jovem (considerando como tal alguém abaixo dos 70 anos), que pudesse recompor as perdas da Igreja na Europa, que evitasse as perdas na América Latina, além disso, que conseguisse se adaptar a linguagem contemporânea para poder comunicar-se com o coração do nosso tempo.A quase totalidade dos especialistas apontava que seria um europeu, especialmente um italiano, pelo fato de que estes têm a vantagem de entender as tessituras do Estado do Vaticano, bem como de sua burocracia, podendo, dessa forma, identificar rapidamente as falhas que precisam ser corrigidas para a Igreja não sofrer mais danos. Ou seja, a grande maioria dos observadores acreditava na escolha de um Papa italiano, no máximo um europeu, pela habilidade que se supõe que ele teria para tratar  das questões políticas, tanto quanto, senão mais, que das questões religiosas, já que ambos os conjuntos de questões são complementares e as políticas, neste momento, estão potencializando as fragilidades na condução moral que a Igreja se incumbe.

De forma mais direta, os erros da política, sejam por corrupção (que existe potencialmente em qualquer burocracia governamental e o Vaticano tem o seu Governo), sejam por decorrência da ambição pelo poder existente entre as altas lideranças (de acordo com o que vem sendo disseminado na mídia) estão contaminando o debate doutrinário, já que tem diminuído a sua força moral, bem como a força moral das lideranças da Igreja que se vêem incapacitadas de responder aos questionamentos do povo, pois sentem a perda de sua credibilidade, juntamente com a credibilidade da Instituição. Assim, acreditavam que um italiano conservador poderia resolver os problemas políticos rapidamente para dar continuidade à tarefa da catequese e impedir as perdas de fieis que vem ocorrendo ao longo dos anos.

A surpresa acerca da ascensão de “Sua Santidade, o Papa Francisco”, decorreu de não se acreditar que o Conclave escolheria alguém de fora da Itália, ou da Europa, pois, teoricamente estes estariam mais aptos a responder àquelas exigências, mas também pelo fato de que Cardeais italianos (ou europeus) mais jovens  teriam tempo para encontrar a forma adequada de apresentar a mensagem do Cristianismo, já que iniciaria seu Pontificado adaptado às peculiaridades da política no Vaticano, respondendo imediatamente às exigências de correção da burocracia, e, por isso, poderia concentrar suas atenções na busca do caminho moderno para recuperar os fiéis.  

Neste momento, os observadores, apesar de ainda surpresos com a escolha, buscam respostas para compreendê-la. Começam a lembrar que ele foi um dos preferidos do Conclave que elegeu o agora “Papa Emérito Bento XVI” e, por isso, seu nome não poderia ter sido excluído tão imediatamente, mesmo que sua idade seja elevada para a avaliação dos especialistas (Cardeal Bergoglio tem 76 anos). No entanto, esses dois fatores, ter sido um dos preferidos no Conclave anterior e estar fora da idade desejada, mostraram-se irrelevantes, tanto para ser o escolhido, como para indicar que ele certamente não era o adequado.

Outros elementos começaram a vir a tona quando, uma vez tornado “Papa Francisco”, a personalidade e os posicionamentos teóricos e doutrinários passaram a ser avaliados pelos analistas. O Ex-Cardeal Jorge Mario Bergoglio, parece dar indícios de preencher como poucos os elementos que a Igreja Católica necessita neste momento para manter a missão que ela se propõe perante a humanidade: orientação espiritual, especialmente num momento de crise generalizada, mudança de códigos morais e ascensão acelerada de um modelo de postura comportamental das pessoas que se contrapõe em vários aspectos aos seus princípios.

O posicionamento doutrinário conservador agradou aqueles que constantemente pregam que a Igreja necessita preservar sua Doutrina, evitando fragmentações, ao invés de incorporar elementos que tanto podem desviá-la de seus pilares, como esvaziá-la de sua essência, tornando-a nebulosa e confusa, apesar de mantê-la como uma Instituição supostamente rica e com grande número de frequentadores.

Ele próprio fez alusão isso ao afirmar que a “Igreja corre o risco de se tornar uma ‘ONG’ piedosa[1]. Em suas palavras, “Se não professamos Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor. (…). Temos de andar sempre na presença do Senhor, na luz do Senhor, sempre tentando viver de forma irrepreensível[1]. Que aqueles que “caminham sem a Cruz, edificam sem a Cruz e professam sem a Cruz… (…) …não somos discípulos do Senhor. (…). Podemos ser leigos, podemos ser bispos, sacerdotes, cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor [1].

A analogia demonstrou que ele tem convicção semelhante a de seu antecessor, quase declarando indiretamente o mesmo que Bento XVI que não importava ter uma igreja inflada, mas uma Igreja sólida, com verdadeiros fieis, mesmo que em menor número. Ressalte-se que os especialista declaram que eles tem a mesma linha doutrinária.

A afirmação do risco de tornar-se uma “ONG piedosa” contempla esta idéia de que os papeis da Igreja são vários e não se esgotam em apoiar e resgatar os necessitados (que está incluído neles), mas também em fornecer um caminho para a conduta moral, para a vida social, para o equilíbrio mental, para o conforto espiritual e para religar-se com o Ser criador, daí ser uma instituição religiosa (Re-Ligare) e não apenas uma instituição social assistencialista, ou uma instituição política, apesar de também estar inserida neste ambiente. Além disso, nesta afirmação ele deixou claro que não deseja ter entre seus líderes homens que não carregam a convicção da mensagem na Doutrina, já que, fora dela, a mensagem perderia a substância e a identidade.

Seus posicionamentos seguem os parâmetros adotados pelo antecessor, tal como dito, mas parece diferenciar-se naquilo que responde diretamente às solicitações contemporâneas: na postura, pois parece ter um carisma e simplicidade capazes de abrir as portas necessárias para que a mensagem seja ouvida por aqueles que se mantêm na Igreja tanto quanto pelos que afastaram dela, mesmo porque as migrações de fieis para outras religiões não se deram para se afastarem do rigor de Ortodoxias morais, já que migraram para outros ambientes que não são flexíveis em relação aos seus princípios. 

Neste curto momento, pelo que vem emergindo de informações, ele está demonstrando simplicidade na linguagem e no comportamento para se aproximar do rebanho com posição conservadora, mas também com indicações de que o fará de maneira próxima a de “João Paulo II”, embora com outro estilo.

O discurso e declarações iniciais que ele pronunciou, por exemplo, foram carregados de simpatia e bom humor, fazendo sair um comportamento moderno no trato com os pares e com os fiéis. Com o povo, brincou dizendo que “foram buscá-lo quase no fim do mundo” e, durante um jantar na noite de quarta-feira, dia 13, também brincou com alguns Cardeais afirmando “Que Deus os perdoe pelo que fizeram[2], referindo-se a sua eleição de forma espontânea e divertida.

Este deve ser um dos traços importantes, caso se mantenha, para o papel requerido de atingir os fieis: uma linguagem simples, direta, coloquial, que permita aos católicos se sentirem próximos do seu líder, o qual não se afasta da ortodoxia, embora certamente terá de exercitar e criar um modelo de tolerância a ser concebido especificamente para evitar que a preservação dos princípios não se transforme em uma arma contra a própria condução da Igreja. Nesse tópico, ele terá de criar uma ponte de diálogo, algo possível com o desenvolvimento de seu carisma e com a simplicidade que vem sendo apresentados até o momento.

Além dessa característica, também começam a emergir outras questões importantes. O posicionamento conservador do novo Papa colocou-o para os argentinos como um dos mais importantes opositores dos governos peronistas-kirchneristas, não apenas por posicionamento político, propriamente dito, mas sim por proposições morais. Ele se elevou como um dos porta-vozes do combate à corrupção, à ostentação, ao relativismo moral no comportamento das lideranças políticas, ao relativismo moral em si e à forma como vem se apresentando o assistencialismo no seu país, o qual, segundo interpretam alguns analistas, é carregado de erros na concepção e na execução, fazendo com que a Argentina venha  apresentando um decaimento constante no cenário mundial e a sociedade venha sofrendo sob efeitos de crises constantes.

Surgir um Papa latino-americano com esta postura pode estar representando também o estabelecimento de um pilar na America Latina para fazer frente tanto às perdas da Igreja Católica (já que a região detém 42% dos seus fieis e vem mostrando expressivas defecções de membros), como também contra disseminação de um modelo de sociedade que se implantou ao longos das últimos 15 anos.

Ele pode ainda estar representando com seu comportamento um farol para uma nova oposição, senão um baluarte, com condições de preencher o vácuo que vem sendo criado neste período pela antiga oposição, graças à incapacidade dos opositores tradicionais atuais apresentarem uma proposta alternativa ao modelo político e social que foi implantado, com competência para preservar e expandir a importante inclusão social que foi conseguida, mas que vem sendo acusado pelos analistas de esgotamento estrutural e incapacidade de dar uma direção comportamental aos povos, pois incorporou excessivo relativismo moral (principalmente da perspectiva cristã, que é a majoritária na América), além de ter fragilizado às instituições devido à postura, às ambições e aos erros de seus governantes.

O “Papa Francisco” deu indicações do comportamento que desejaria ver reproduzido para os católicos e também para todas as elites (econômicas, políticas e sociais), independente do credo que professam, ao solicitar aos argentinos que desejam ir até Roma para comemorar sua ascensão que, ao invés disso, doem o dinheiro aos pobres.

Ou seja, deixou claro que o resgate dos pobres tem de ser um pilar de ação e também que  há outras metodologias para tanto, além das desenvolvidas pelas lideranças políticas que estão no poder. Essas metodologias passam pela mudança de comportamento e pela adoção de uma postura de austeridade tal qual a sua vem sendo caracterizada (ele andava de ônibus, é discreto, fazia a própria comida), acrescentando-se que é tarefa da elite ter consciência das carências do seu povo (ao invés de resumir seu papel ao investimento produtivo) e trabalhar para extingui-las e não apenas para obter ganhos, relegando a uma suposta lógica pura da economia o resgate do equilíbrio social.

Na extremidade lógica do argumento, é possível que ele esteja indicando que o caminho deve passar essencialmente pela moral, sem que esteja colocando sobre uma plataforma o discurso de moralização da política, já que seu discurso parece estar se dirigindo principalmente à elite social e econômica, exigindo que desenvolva sensibilidade para perceber o mundo que o cerca e racionalidade para entender as razões que produzem a pobreza que existe para conseguir extirpá-la de forma equilibrada.

Conforme começam a conjecturar alguns analistas, ele pode criar na América Latina um suporte para que as oposições tenham condições de se contrapor ao modelo que foi implantado, mas, para tanto, elas terão de perceber principalmente a necessidade de reconstruir seu comportamento, sendo uma das exigências que se dirijam ao mais pobres para resgatá-los e especialmente para conhecer as suas necessidades, visando montar um projeto alternativo apto a ser apresentado à sociedade, elevando a ação opositora à categoria superior a esta que está no terreno atual, que se configura apenas pela luta pelo poder e pela incapacidade de entender tanto as transformações do processo histórico, quanto a necessidade de garantir a inclusão social, bem como interpretar na sua real dimensão o papel que foi cumprido pelos atuais detentores dos governos.

Além disso, conforme especulam alguns observadores, a austeridade que caracteriza sua postura também pode ser um recado à Europa e ao mundo, associando a ele uma ideia de que é necessário enriquecer os mais pobres, mas para que isso seja feito não há a exigência de que juntamente deva ser imposto o empobrecimento dos mais ricos.

Essas são considerações que começam a emergir dos analistas, mas ainda é cedo para grandes prognósticos, pois ele terá de lidar com as crises morais da própria Igreja, juntamente com os problemas políticos do Estado do Vaticano. Conforme apontam os especialistas, somente  depois de ficar definida sua postura diante dessas questões é que os cenários poderão ser desenhados de forma mais adequada, pois se verificará se ele pode suportar a sua missão, fazendo com que o nome Francisco seja um modelo a ser seguido, gerando uma série de “Papas Franciscos” na condução da Igreja.

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* Conforme explicado pelos vaticanólogos e especialistas na “História da Igreja”, o nome escolhido deve ser denominado apenas como Francisco. Ele será chamado “Francisco I” quando um novo Papa indicar o mesmo nome, o qual terá de ser “Francisco II”, razão pela qual Francisco passará a ser referido como “Francisco I”.

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Imagem (Fonte Wikipédia):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Francisco

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/novo-papa-francisco/noticia/2013/03/papa-francisco-reza-na-capela-sistina-1-missa-de-seu-pontificado.html

[2] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/novo-papa-francisco/noticia/2013/03/que-deus-os-perdoe-disse-papa-francisco-cardeais-apos-eleicao.html

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Ver também:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518049-em-tempos-de-eleicoes-na-igreja-qual-deve-ser-a-escolha-do-eleitor  

Ver também:

http://nevesalvaro.blogspot.com.br/

Ver também:

http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/dsm/19,0,4072942,Jornais-argentinos-criticam-posicoes-conservadoras-do-novo-pontifice.html

Ver também:

http://www.jcnet.com.br/Internacional/2013/03/novo-papa-teve-relacao-conturbada-com-casal-kirchne.html

Ver também:

http://www.opovo.com.br/app/maisnoticias/mundo/dw/2013/03/13/noticiasdw,3021783/papa-tem-saude-fragil-personalidade-discreta-e-e-desafeto-dos-kirchner.shtml

Ver também:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/francisco-i-manteve-uma-relacao-dura-e-fria-com-os-kirchner

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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