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Lockdown russo contra a COVID-19

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o segundo país mais afetado em termos de infecções* por COVID-19 e detentora da segunda taxa de novas infecções mais rápidas do mundo, atrás somente dos Estados Unidos, a Federação Russa, através de seus órgãos de saúde e vigilância sanitária, se valeu de tentativas de minimizar os impactos da pandemia que se alastrou em seu território.

Processos severos de isolamento social, iniciados ainda em março (2020), com o fechamento precoce das fronteiras e a quarentena obrigatória de todos os recém-chegados, aliado ao bloqueio instituído em várias regiões do imenso país, não foram suficientes para barrar a curva crescente e rápida de infecções diárias que chegou a atingir 11 mil novos casos por dia. Ressalte-se que o bloqueio se deu principalmente na capital Moscou, onde a maioria dos seus 13 milhões de habitantes foram direcionados a ficar em suas casas.

Ocorrência de casos diários da COVID-19

Processos contrários à simpatia da população moscovita reiteraram o uso de métodos de implantação de permissão oficial da Prefeitura, através de um passe para liberar as pessoas para poderem dirigir ou utilizar transporte público, tendo como objetivo rastrear e restringir o movimento da população. Milhões de pessoas enviaram seu número de identificação, motivo de viagem, número de placa do carro, ou número de seu cartão de viagem, para receber esses passes com um código de 16 caracteres para apresentar à polícia, quando solicitado.

Verificação de passe individual pela polícia em Moscou

Outro dispositivo utilizado para monitorar a movimentação popular em Moscou foi o vasto sistema de câmeras de vigilância completa, com tecnologia de reconhecimento facial, testado durante comícios anti-Kremlin no ano de 2019 para rastrear manifestantes.  As autoridades da cidade também usaram dados de localização de telefones celulares de provedores de telefonia móvel para monitorar aqueles que foram “ordenados a se autocolocar” em quarentena por duas semanas, depois de sua chegada do exterior.

Mesmo com o direcionamento por parte do presidente Vladimir Putin em realizar um relaxamento do lockdown russo a partir do último dia 11 de maio, fontes do Governo disseram que os níveis de movimentação de pessoas em viagens tanto internas como externas não voltarão ao normal (pré-pandemia) antes do início do ano de 2021. A Agência Federal de Turismo da Rússia (Rostourism) alertou que as medidas levariam a “perdas colossais para a economia” de pelo menos 300 bilhões de rublos (cerca de R$ 23,8 bilhões**) por trimestre. Para compensar essas perdas, a Rússia deve introduzir vistos de turismo de entrada múltipla válidos por até cinco anos, de acordo com as recomendações da Rostourism. As regras atuais só permitem vistos de entrada por até 30 dias para turistas.

O Rostourism também busca reduzir o tempo de processamento de vistos para três dias úteis. Os atuais portadores de vistos de turista que não puderam viajar para a Rússia devido a restrições relacionadas ao coronavírus devem ser capazes de solicitar novos vistos gratuitamente, de acordo com as recomendações relatadas pela agência. Além disso, a agência quer estender os vistos eletrônicos, que entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2021, de 16 dias para 90 a 120 dias, e torná-los de entrada única para entrada múltipla, ou seja, o turista poderá visitar o país mais de uma vez dentro do período proposto.

Bloqueio policial em Moscou

Outro ponto nevrálgico dentro do processo de lockdown, que afetará visivelmente a saúde econômica da Rússia, é que o número de pequenas empresas que tiveram que cessar suas atividades, por conta do afastamento social, e que solicitaram empréstimos aos Bancos ou órgão financeiros para pagar salários aos seus trabalhadores, superou as expectativas do governo e muitas delas já estão dispensando grande parte de sua força de trabalho.

O Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, declarou que 735.000 russos haviam aderido ao registro de desemprego nos últimos dois meses, elevando o total nacional para 1,2 milhão de desempregados. No entanto, isso não conta a história completa, pois muitos russos ganham a vida na economia informal, o que equivale a mais de 30% do PIB, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e seu status não está registrado nas estatísticas oficiais. Kotyakov já avisou anteriormente que a recessão econômica causada pela COVID-19 poderia deixar entre cinco e seis milhões de russos desempregados, ou sete a oito por cento da força de trabalho. Tais números foram vistos pela última vez há uma década, após a Grande Crise Financeira de 2008.

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Notas:

* Casos confirmados em torno de 281.752 pessoas, conforme relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 17/05/20 >> Fonte:  https://covid19.who.int/region/euro/country/ru

** Cotação rublo russo em 15/05/20 >> 1RUB = R$ 0,0793.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Desinfecção de bancos de um parque em Moscou” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/03/1-123.jpg

Imagem 2 Ocorrência de casos diários da COVID19” (Fonte): https://coronavirus.jhu.edu/data/animated-world-map

Imagem 3 Verificação de passe individual pela polícia em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

Imagem 4 Bloqueio policial em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
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