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Mike Pompeo no Oriente Médio: tentativa de estimular mais países árabes a normalizarem relações com Israel

O Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, iniciou seu tour de cinco dias pelo Oriente Médio. A viagem teve como objetivo exortar mais Estados árabes a assinarem tratados de paz com Israel, normalizando as relações. A visita do Secretário teve início em 24 de agosto, e teve Tel Aviv como primeiro destino.

Em Jerusalém, Pompeo se reuniu com o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e afirmou que esperava ver outros países árabes seguindo o exemplo dos Emirados Árabes Unidos, assinando acordos de paz com Israel.

O Secretário disse que a normalização “não somente aumentaria a estabilidade no Oriente Médio, como melhoraria a vida das pessoas nos seus próprios países”, mas assegurou que os Estados Unidos garantirão que Israel retenha uma “vantagem militar qualitativa”, reportou o Al Monitor. Simbolicamente, a visita também serviu como apoio a Netanyahu, que enfrenta crises políticas domésticas, além de protestos e alto desemprego. O Premier será julgado por corrupção a partir de janeiro de 2021.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia à mídia o acordo com os Emirados Árabes Unidos do Salão Oval na Casa Branca, em 13 de agosto de 2020

No último 13 de agosto de 2020, com mediação dos Estados Unidos, os Emirados Árabes Unidos e Israel assinaram um acordo de paz histórico, o Tratado de Abraão, que prometeu “avanço significativo nas relações árabe-israelenses e redução das tensões”. O anúncio também inauguraria um “desbloqueio de grande potencial no Oriente Médio”, promovendo desenvolvimento econômico e tecnológico, já que os três países “enfrentam muitos desafios em comum na região”.

Mapa do chamado ‘Visão para Paz’, plano de paz para o conflito Israel-Palestina apresentado por Donald Trump em 28 de janeiro de 2020

A contrapartida do acordo seria o comprometimento israelense com a suspensão da declaração de soberania sobre os 30% adicionais da Cisjordânia, áreas delineadas no plano “Paz para Prosperidade” de Donald Trump, anunciado em janeiro de 2020.

Em 25 de agosto, ainda em Israel, Mike Pompeo se pronunciou na Convenção Nacional do Partido Republicano, defendendo a política de Donald Trump de “America First”, bem como sua agenda externa. Ao endereçar os norte-americanos diretamente de Jerusalém ocupada,  o enviado é acusado de apaziguar os sionistas cristãos e evangélicos com seu discurso, reportou o Middle East Monitor. O pronunciamento está sob investigação oficial de Washington por denúncias de graves violações éticas.

O Secretário seguiu para Cartoum, capital do Sudão, para onde fez o primeiro voo oficial direto de Israel. A correspondente do New York Times descreveu a inédita permissão do trajeto como “outro salto no caminho para a normalização com Israel”. No Sudão, o enviado discutiu a possibilidade de os Estados Unidos retirarem o país da lista de nações patrocinadoras do terrorismo. O governo interino sudanês, contudo, além de ter informado que não possui mandato para negociar questões fora da sua agenda de transição, exortou que a retirada do Sudão da lista norte-americana de terroristas estivesse desvinculada de quaisquer acordos de paz com Israel.

O Secretário de Estado Michael Pompeo em encontro com o Sultão de Omã, Haitham bin Tariq Al Said, em Muscat, Omã, em 21 de fevereiro de 2020

Em 27 de agosto de 2020, Pompeo chegou a Omã, e reuniu-se em Muscat com o Sultão Haitham bin Tarik Al Said para promover unidade entre o Conselho de Cooperação do Golfo.

No dia anterior, no Bahrein, a proposta de normalização havia sido rejeitada. O rei Hamad bin Isa al-Khalifa afirmou que permanecia comprometido com a Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que pede a normalização apenas em troca da retirada completa de Israel dos territórios palestinos ocupados, reportou a Al Jazeera. Após parada no Bahrein, o destino seguinte são os Emirados Árabes Unidos, onde Pompeo também deverá promover o aquecimento das relações com o Estado israelense.

Bandeiras de Israel e Estados Unidos
ao lado do slogan ‘Trump é
amigo do Zion’, por ocasião dos
preparativos da cerimônia de realocação da
Embaixada norte-americana em Israel de
Tel Aviv para Jerusalém, em 2018

Até o Acordo de Abraão com o país do Golfo, os únicos países árabes a acertarem relações com Israel foram Egito, em 1979, e Jordânia, em 1994. Os destinos do tour de Pompeo seriam os Estados cotados a serem os próximos a regularizarem as relações com os israelenses. Apresentado como “inovador” e como “grande avanço”, o acordo foi fortemente criticado pela população e pelas lideranças palestinas, que se sentiram traídas pelo tratado. A Autoridade Nacional Palestina rejeitou o pacto e solicitou uma reunião de emergência da Liga Árabe.

Analistas apontam que o acordo tem cunho tecnológico e estratégico, viabilizando a venda de jatos F-35 dos Estados Unidos aos Emirados – o que Israel nega ter permitido – e de fortalecimento dos laços pró-ocidentais na região. Além de representar “o golpe mais recente dos Estados árabes à causa Palestina”, a normalização é acusada de ser feita às custas do legítimo direito nacional palestino, vez que ignora as violações israelenses ao Direito Internacional, sobretudo a ocupação de facto nos territórios para além da linha verde de 1967. O acordo, argumentam analistas, mira o Irã e deve ser compreendido dentro da campanha de recrudescimento de sanções e de pressão máxima de Trump contra o chamado eixo da resistência, composto, além do Irã, por Síria, Hezbollah, Hashd ash-Shabi no Iraque e Ansar Allah no Iêmen.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Michael Richard Pompeo, Secretário de Estado norteamericano(Fonte): 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mike_Pompeo

Imagem 2 O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia à mídia o acordo com os Emirados Árabes Unidos do Salão Oval na Casa Branca, em 13 de agosto de 2020 (Fonte): 

https://en.wikipedia.org/wiki/Israel%E2%80%93United_Arab_Emirates_peace_agreement#/media/File:President_Trump_Delivers_a_Statement_from_the_Oval_Office_01.jpg

Imagem 3 Mapa do chamado Visão para Paz’, plano de paz para o conflito IsraelPalestina apresentado por Donald Trump em 28 de janeiro de 2020 (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Trump_peace_plan#/media/File:Trump_Peace_Plan_(cropped).jpg

Imagem 4 O Secretário de Estado Michael Pompeo em encontro com o Sultão de Omã, Haitham bin Tariq Al Said, em Muscat, Omã, em 21 de fevereiro de 2020 (Fonte): 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Secretary_Pompeo_Meets_with_the_Sultan_of_Oman_Haitham_bin_Tariq_Al_Said_(49565463757)_(cropped).jpg#/media/Ficheiro:Secretary_Pompeo_Meets_with_the_Sultan_of_Oman_Haitham_bin_Tariq_Al_Said_(49565463757).jpg

Imagem 5 Bandeiras de Israel e Estados Unidos ao lado do slogan Trump é amigo do Zion’, por ocasião dos preparativos da cerimônia de realocação da Embaixada norteamericana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, em 2018 (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/58/Relocation_of_US_Embassy_in_Israel_from_Tel_Aviv_to_Jerusalem_The_ceremony_preparations_2018_%2842112610461%29.jpg

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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