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Na Europa ocorre a guerra contra o turismo, mas, para o Brasil, pode ser a salvação

O turismo representa um importante setor econômico para os países da União Europeia. A título de exemplo, Espanha, França e Itália estão entre os países mais visitados do planeta. Cidades como Barcelona, Roma, Madrid, Paris, Veneza são ícones do turismo mundial, exemplos de como a promoção econômica e políticas de atração de visitantes geram o enriquecimento de todos os setores, já que são criados hotéis, restaurantes, salas de exposição, serviços dedicados ao turista, serviços de saúde, museus etc., que demandam produtos locais e nacionais, gerando um fluxo positivo para a economia.

Ainda assim, nos últimos anos, o turismo e principalmente os turistas já não são vistos em muitas cidades como um setor sustentável e de interesse público. Isso se deve a dois grandes fenômenos: o primeiro é o aumento do turismo de massas, ou “Low Cost”, que modificou o perfil dos visitantes; o segundo é o surgimento de aplicativos e portais de contratação de serviços de pessoas físicas, tais como transporte, alimentação e estadia.

A turismofobia foi abordada em outros artigos do CEIRI Newspaper, pois existem fatores que também estão ligados aos processos de migração que ocorrem na Europa, assim como a instabilidade política da região. Mas, o que parecia ser um fenômeno isolado contra a atividade turística, tem se diversificado e estendido por várias cidades, forçando as autoridades locais a buscar soluções e a discutir com a população.

Em Barcelona houve uma grande mobilização social para a proibição dos aplicativos de estadia, já que eles impactam no preço do aluguel e também aumentam o déficit habitacional da cidade. Em Palma de Mallorca, o Governo estuda aprovar uma lei que obrigue aos proprietários de imóveis vazios a alugar seu imóvel com contratos de longa duração.  Em Madrid e outras cidades alguns aplicativos de transporte foram proibidos, ou tiveram algumas de suas modalidades eliminadas e, em quase todas as cidades, existe uma taxa para turistas que vai de 1 a 15 Euros.

No Brasil, o turismo, por outro lado, é visto pelos especialistas do setor como a salvação para a arrecadação de diversos municípios, embora faltem planejamento das pequenas prefeituras, capacitação, infraestrutura, dentre várias necessidades. Existem cidades que são exemplos, tais como Campos do Jordão, Balneário Camboriú, Gramado, Ilha Bela, ou Capitólio. Ainda assim, existe muito a ser feito.

A paradiplomacia pode ser uma forma interessante de gerar sinergia entre cidades brasileiras e cidades estrangeiras similares que tenham superado esses desafios. Mais de 80% do turismo brasileiro é doméstico e apenas 6 milhões de turistas estrangeiros visitam o território nacional (a Espanha, que tem o tamanho do Estado de Minas Gerais, recebeu 50 milhões de turistas em 2016). O maior desafio do país é a falta de infraestrutura e promoção.

O turismo no Brasil – conforme a opinião dos operadores europeus –  é excessivamente caro em comparação até mesmo com destinos na Europa ou Estados Unidos; além disso, tem a infraestrutura limitada; a oferta, embora diversificada, é pouco explorada; o patrimônio histórico é pouco conservado; e a cultura tradicional de determinadas regiões são infra valorizadas por outras. Diante do quadro e dos exemplos mundiais, estimular o setor no caso do Brasil ajudaria na arrecadação dos municípios, porém a cidade deve ser competitiva e produzir recursos por volume e não apenas por um aumento dos preços.

Em relação a visão dos turistas, existem fatores culturais que influenciaram o cidadão brasileiro a ser mais acolhedor. Como as cidades possuem uma série de deficiências, o turismo poderia ser a causa de melhorias e não de degradação, ao menos em alguns municípios.

Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil

Na Europa existe uma guerra contra o turismo. No Brasil talvez ele seja a salvação de pequenos municípios com baixa arrecadação, pouca capacidade de articulação para obter mais recursos do governo do Estado e do governo Federal, e que acabam sendo centros de desigualdade, onde turistas com grande poder de compra se alojam em pensões improvisadas ou em resorts exclusivos em cidades sem nenhuma infraestrutura adequada, nem benefícios para a população local, mas somente para os turistas. A situação é parecida com a reclamação dos europeus, porém sem a infraestrutura existente por lá, o que indica que o equilíbrio entre as demandas da população, dos turistas e dos atores envolvidos, podem ser as chaves para o sucesso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1mensagens turismofóbica em Barcelona” (Fonte):

Https://i1.wp.com/www.carlosgarciaweb.com/wpcontent/uploads/2014/12/turismofobia6.jpg

Imagem 2Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil” (Fonte Banco de imagens: Luciana Whitacker):

http://www.pulsarimagens.com.br/listing/detail/1000?tombo=02LW019&strTipo=image

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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